Religião

02/06/2017 | domtotal.com

Cristianismo e diversidade religiosa: entraves e perspectivas

O cristianismo, resgatando suas fontes, na memória viva de Jesus, precisa assumir a diversidade como dom.

Deus é diversidade na unidade.
Deus é diversidade na unidade. (Divulgação)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Aceitar o diverso é uma coisa que, geralmente, custa-nos muito. Movemo-nos a partir de nossos próprios ideais e o contato com aquilo que nos é diferente, pode causar estranhamento a ponto de nos fecharmos em nós mesmos, em posição de defesa. Quando o tema toca aquelas realidades que dizem respeito aos nossos afetos, a situação se torna mais crítica, ante o diverso. É o que acontece com a fé.

Para as religiões proselitistas, isto é, as que buscam a promoção de sua fé, num convite de conversão, lidar com a diversidade é ainda mais difícil. O próprio cristianismo, hoje multifacetado, tem se mostrado pouco ou nada capaz de aceitar a própria diversidade interna. Essa dificuldade se mostra bastante paradoxal, se levarmos em conta que o cristianismo nascente era diverso, na unidade da fé.

Quando, no século IV, o cristianismo se torna religião permitida e, ao fim do mesmo século, religião oficial do Império Romano, passa-se a um processo de institucionalização mais acentuado e aquilo que nos primórdios era um movimento dos seguidores de Jesus, vai ganhando ares cada vez mais institucionalizados de religião. Esse processo tornará possível o que chamamos de Cristandade.

Depois, no século XI, com o cisma entre as igrejas ocidental e oriental, o processo de romanização da igreja ocidental se acentua, de forma que a diversidade, definitivamente, passa a ser vista como ameaça. Isso se torna claro, no século XVI, com a Reforma Protestante e a resposta católica, eminentemente institucionalizante, com a Contra-Reforma.

Com o Concílio Vaticano II, depois de longo processo de fechamento institucional, a Igreja Católica se viu diante do mundo moderno, interpelada a se posicionar diante de uma série de questões, entre as quais, a diversidade religiosa. Se antes, o paradigma que a movia era a concepção de que “fora da Igreja não há salvação”, agora, diante de um novo cenário, ela precisou dialogar, ainda que timidamente, com o fato de que a salvação não está restrita à pertença religiosa católica, pois percebeu que os desígnios salvíficos de Deus extrapolam quaisquer muros institucionais.

Hodiernamente, quando vivemos esses tempos pós-modernos, percebemos que a pluridiversidade é um fato inconteste. O cristianismo, resgatando suas fontes, na memória viva de Jesus, precisa assumir a diversidade como dom, pois o próprio Deus ao qual se fia é diversidade na unidade. Mais que ameaça, a diversidade religiosa é possibilidade sempre aberta, de que a salvação alcance a todos e todas, indistintamente. Sem dúvidas, esse caminho é de fiel atenção aos sinais dos tempos. É preciso não deixar que passem despercebidos!

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*Felipe Magalhães Francisco é doutorando em Ciências da Religião, pela PUC-MG, e mestre e bacharel em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015).

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