;
Religião

09/06/2017 | domtotal.com

Adultecimento como violência contra a infância

Criamos crianças cada vez mais isoladas e em processo precoce de adultecimento como se fossem adultas a cumprir uma série de tarefas em preparação para o sucesso futuro.

Em vez da tentação de adultecer as crianças, precisamos ser por elas educadas.
Em vez da tentação de adultecer as crianças, precisamos ser por elas educadas. (Divulgação)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Ser criança atualmente é, obviamente, muito diferente de ser criança há vinte anos. O tempo passa e, com ele, vêm as transformações que nos tocam em todos os âmbitos de nossa vida. Toca, inclusive, o modo de se viver a infância. Quem nunca se impressionou com o fato de uma criança de dois anos mostrar desenvoltura em mexer num smartphone, quando pessoas de meia idade têm um sem número de dificuldades em lidar com essa tecnologia, por exemplo?

Vivemos tempos estranhos: temos muitas coisas a nosso dispor, a nos facilitar a vida, demos passos significativos na melhoria do viver, e, ainda assim, vivemos tempos de desencanto. Tudo isso afeta o modo de viver a infância. A urgência do mundo capitalista transformou todas as nossas relações. E as crianças são profundamente afetadas por essa dinâmica. Criamos crianças cada vez mais isoladas e em processo precoce de adultecimento, responsabilizadas a maior parte do tempo, como se fossem adultas a cumprir uma série de tarefas, em preparação para o sucesso futuro a que são exigidas.

Crianças são menos crianças até na convivência, praticamente inexistente, com seus pares. A verticalização das moradias, a violência nas cidades, as famílias cada vez menores numericamente, o individualismo dos pais que não se relacionam com os vizinhos, entre outras coisas, são fatores que atingem as crianças, impedindo-as de se relacionarem com outras crianças e de viverem a infância de maneira mais livre. Na escola, desde cedo são formadas como sendo concorrentes, além de serem formatadas a um pensamento excessivamente adulto, que as tolhem de suas capacidades imaginativas, simbólicas e criativas.

Essa é, longe de dúvidas, uma violência contra a infância. O caminho a ser tomado de superação disso, certamente, não é o saudosista: é preciso que possibilitemos às crianças viverem a infância de modo saudável, hoje. Não há, contudo, uma receita. É preciso, pois, cuidado e atenção, sobretudo por parte dos pais. Nossa sociedade certamente será melhor, se ajudarmos as crianças a se desenvolverem como pessoas, em seu próprio ritmo, não as fazendo adultecer. É preciso deixar que as crianças sejam crianças: esse é um sinal nobre de amor e de não violência.

Não à-toa, Jesus disse que o Reino dos Céus pertence às crianças. Não por uma possível inocência que acreditam ter as crianças, mas pela verdade com a qual elas entram no jogo. A vida é jogo, pressupõe entrega confiante, imaginação, abertura, tal como o Reino. Quando adultecemos as crianças, estamos invertendo essa lógica: forçando-as a uma maneira nossa de pensar, de se comportar e de agir, estamos arrancando delas a verdade com a qual se dispõem para o jogo, pois nós mesmos esquecemos, porque adultecidos, do que é jogar. Em vez da tentação, mesmo inconsciente, de adultecer as crianças, precisamos ser por elas educadas, se quisermos viver uma vida boa, tal como a que nos torna possível o Reino de Deus.

Leia também

*Felipe Magalhães Francisco é doutorando em Ciências da Religião, pela PUC-MG, e mestre e bacharel em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015).

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas