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18/06/2017 | domtotal.com

'Colossal' começa bem, mas fracassa ao tentar explicar história surrealista

Filme dirigido pelo espanhol Nacho Vigalondo parte de uma ideia intrigante, mas peca ao querer racionalizar aquilo que não é racional.

Cena do filme
Cena do filme "Colossal". (Divulgação)

Por Alysson Oliveira

“Colossal”, escrito e dirigido pelo espanhol Nacho Vigalondo, parte de uma ideia intrigante. Gloria (Anne Hathaway) é uma jovem sem rumo na vida, sem emprego, passando o tempo apenas em festas e bebedeiras, mas seu namorado, Tim (Dan Stevens), se cansa disso, e pede um tempo até que ela se recomponha --o que a obriga também a sair do apartamento dele e voltar para a cidadezinha onde nasceu e cresceu, e de onde saiu há anos.

Estranhamente, mais ou menos na mesma época, surge um inexplicável monstro gigante que ataca Seul, na Coreia, destruindo casas, prédios e matando pessoas. Gloria descobre que os movimentos da criatura estão diretamente ligados aos seus. Em outras palavras, ela é a responsável por toda a catástrofe.

É uma premissa bem sacada e instigante. Mas, sem aprender nada com os surrealistas --especialmente com seu conterrâneo Luis Buñuel--, Vigalondo parece não perceber que, nesse caso, menos é sempre mais.

Chegando à sua cidade, sem a referência da família ou de amigos, Gloria reencontra Oscar (Jason Sudeikis), antigo colega de escola, que parece não tê-la esquecido nesses 25 anos de distância. Ele a ajuda, mobiliando a casa onde ela viveu e que está fechada e vazia, e também oferecendo um emprego de garçonete no bar que ele herdou do pai.

Trabalhar num bar não é o mais indicado a Gloria, que luta contra o alcoolismo, mas ela não tem outras opções, e promete se cuidar para não beber além da conta. Isso, claro, não acontece, e é depois de um porre que ela descobre que sua conexão com o aspirante a Godzilla sempre se dá quando ela está num parquinho da cidade. Assustada com seu poder, promete não beber nunca mais, para controlar seus próprios movimentos e não causar destruição.

Oscar, mais tarde, também descobre que tem o mesmo poder, e um novo monstro surge em Seul. O tom levemente cômico --beira a comédia-romântica-- dá espaço a algo mais soturno em “Colossal”, e uma história pregressa de abuso começa a esboçar uma explicação para os elementos estranhos do filme. Eis aí o erro de Vigalondo.

Esse é o tipo de coisa que não se explica a origem, não se esmiúça. Primeiro porque nunca fará sentido, e, inevitavelmente, será frustrante; segundo, porque simplesmente esvazia o potencial de qualquer obra que lide com a fantasia, o surreal.

O maior equívoco do filme é querer racionalizar aquilo que não é racional.

Um exemplo em que um conceito parecido com o deste filme funciona está em “Quero Ser John Malkovich”, no qual um sujeito malsucedido encontra um portal que permite entrar na cabeça do ator John Malkovich. Spike Jonze e Charlie Kaufman, respectivamente diretor e roteirista do filme, não procuram explicações (o filme apenas diz o que é, mas nunca se aprofunda nos mecanismos que concretizam a história), mas potencializam a ideia de maneira sagaz.

O conceito da conexão entre a criatura destruidora e Gloria tenderia a ampliar suas questões com abuso emocional e alcoolismo, mas o que acaba acontecendo é exatamente o contrário. O filme se torna uma batalha tola e previsível do bem contra o mal.

Já pensou o que seria de “O Anjo Exterminador”, se Buñuel explicasse porque as pessoas estão presas àquele lugar? Eles simplesmente não podem sair --e o filme explora o que advém dessa situação.

A metáfora pobre de “Colossal”, por sua vez, não funciona em escala global, seu alvo são dramas pessoais. Dessa forma, os horrores emocionais que liberam o monstro gigantesco atuam no nível da política dos afetos. Vigalondo é nobre em seu questionamento de abusos contra mulher, mas, ao mesmo tempo, não deixa de reproduzir algo que ele mesmo quer condenar.


Reuters

EMGE

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