Brasil Cidades

16/06/2017 | domtotal.com

As lições do revés

Aprender a lidar com o fracasso evita que ele se torne algo destrutivo.

Se há uma coisa certa na vida é que as crianças vão falhar.
Se há uma coisa certa na vida é que as crianças vão falhar. (Reprodução)

Por Fernando Fabbrini*

Um dos males do mundo atual que mais me espantam é a crescente e incômoda incapacidade da geração mais jovem de conviver com os obstáculos, desapontamentos e reveses inevitáveis da vida. Felizmente, muitos compartilham da minha apreensão, inclusive gente especial como o psicanalista Jean-Pierre Lebrun, uma das principais referências na Europa no estudo sobre mudanças nas relações entre pais e filhos. 

Numa entrevista recente, Lebrun vai direto ao ponto quando diz que é preciso ensinar nossos filhos a falharem. Se há uma coisa certa na vida é que as crianças vão falhar. Porém, os pais, a família e a sociedade dizem o tempo todo que é preciso conseguir, vencer sempre – e isso massacra os filhos. Aprender a lidar com o fracasso evita que ele se torne algo destrutivo. 

Lebrun vai mais fundo, afirmando que “... os pais sabem que as crianças não ficarão com eles a vida inteira, que não vão conseguir tudo o que sonharam, que vão estabelecer ligações sociais e afetivas que, por vezes, lhes farão mal, mas tentam agir como se não soubessem disso. Hoje os filhos se tornaram um indicador do sucesso dos pais. Isso é perigoso, porque cada um tem a sua vida”.  

Um dos cenários mais simbólicos dessa crise é o ambiente escolar, desde o ensino básico até a universidade. Lebrun, que também já penou como professor, captou como poucos a estranha mudança de comportamento: “Na Europa, por exemplo, quando um professor dá nota baixa a um aluno, é certo que os pais vão aparecer na escola no dia seguinte para reclamar com ele. Há vinte, trinta anos, era o aluno que tinha de dar satisfações aos pais diante do professor, uma completa inversão. Posso citar outro exemplo: quando se levam os filhos pela primeira vez à escola, eles choram. Hoje em dia, normalmente são os pais que choram.  A cena é comum. Isso acontece porque os pais não são capazes de se apresentar como a geração acima da dos filhos. É uma consequência desse novo arranjo social, em que os papéis estão organizados de forma mais horizontal”.

Pois é, Monsieur Lebrun, ninguém que já tenha vivido um bom pedaço da existência duvida que o sofrimento faz parte, sim, do crescimento de uma personalidade. Hoje em dia, ao menor sinal de “incômodo”, sapecam remédios na meninada. Diz o nosso brilhante psicanalista: (...) há séculos que as drogas têm algo de paraíso artificial, como diz Baudelaire. Ou seja, uma forma de se refugiar da dor humana, da insatisfação”. 

“As drogas sempre serviram para evitar o confronto com esse sofrimento. Quanto menos você está preparado a suportar as dificuldades, mais está inclinado a se evadir, a recorrer a substâncias, sejam as drogas ilícitas, sejam as medicamentosas, para limitar o sofrimento que vai se apresentar. (...) É muito mais simples tomar uma Ritalina para não ser hiperativo do que fazer todo o trabalho de aprender a suportar a condição humana. Quando criança, a pessoa já precisa ser confrontada com a condição humana da perda de satisfação. Dessa maneira, na idade adulta, sua relação com o fim de uma paixão amorosa, por exemplo, tem maiores chances de ocorrer de maneira mais aceitável e menos traumática”.

Gostei principalmente desse trecho de sua entrevista, vejam se não é perfeito: “Um cão nasce cão e será assim para o resto da vida. Um tigre será sempre tigre. Um humano, no entanto, precisa se tornar plenamente humano. É uma enorme diferença. Esse processo leva uns 20, 25 anos e está sujeito a percalços. Na Renascença já se falava disso: não somos humanos, nós nos tornamos humanos”.

Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas