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19/06/2017 | domtotal.com

O caso inverossímil e verídico do espelho 

Estava entretido com uma jogada na mesa de sinuca mais próxima quando vi um sujeito maltrapilho entregando um espelho enorme ao dono do bar.

O objeto tinha uns 2 metros de altura, era largo, do tamanho de uma porta.
O objeto tinha uns 2 metros de altura, era largo, do tamanho de uma porta. (Reprodução)

Por Pablo Pires Fernandes*

O juiz já tinha apitado o fim do primeiro tempo quando saí do trabalho. Apressado e esbaforido, tomei o primeiro táxi e fui me encontrar com os amigos na Rua Florália. Era 17 de julho de 2013 e o Galo enfrentava o Olímpia, time paraguaio, cascudo e ranheta, no primeiro jogo da final da Copa Libertadores. A tensão era inevitável.

Na reunião, se misturavam apreensão e euforia. Era o único a não trajar a camisa preta e branca do time, desfalque que a dona da casa rapidamente resolveu. Sob xingamentos de toda ordem, tivemos que nos conformar com o placar adverso: 2 X 0 para o Olímpia. A partida de volta seria difícil.

Saí com um amigo, caminhando pelas ruas do Anchieta para espairecer. Ao cruzarmos a Avenida do Contorno, aos pés do tobogã, tentei, em vão, convencer o amigo de subir o morro para o último gole. Subi sozinho até o bar do Brasa.

Olhei as mesas de pano verde, cumprimentei o dono, que me serviu. Na calçada, fumava e observava. As situações e os tipos eram bem variados, mas estranhos demais para que eu saísse da minha condição de ensimesmamento.

Estava entretido com uma jogada na mesa de sinuca mais próxima quando vi um sujeito maltrapilho entregando um espelho enorme ao dono do bar. Entrei no meio da conversa. O objeto tinha uns 2 metros de altura, era largo, do tamanho de uma porta.

Com os olhos vidrados, ele me disse que poderia conseguir outro igual para mim por R$ 100. O dono do bar interviu dizendo que pagou só R$ 30. Ofereci R$ 40, com a condição de ele entregar na minha casa. Em 20 minutos, o sujeito mirrado e sem dentes retornou trazendo outro espelho, bisotado e com estrutura de madeira no verso, coisa fina.

Perguntei-lhe sobre a origem da peça e ele garantiu ser de uma casa em demolição. Ofereci-lhe um copo de cerveja, mas, desconfiado, combinei que ele carregaria o espelho alguns metros na minha frente até o meu prédio. E que, para todos os efeitos, eu não o conhecia. 
Descemos pela Avenida do Contorno. Até meu apartamento, na Serra, eram cerca de sete quarteirões. Além do espelho enorme, aquele homem pequeno equilibrava nas costas um saco típico de morador de rua. Eu andava cabisbaixo com a camisa alvinegra do Galo sob um velho paletó e a bolsa de trabalho a tiracolo.

Depois da terceira vez que ele parou para descansar e reequilibrar o peso, não me contive e peguei o saco para lhe aliviar o fardo. A cena era realmente singular: um morador de rua carregando um espelho enorme ao lado de um sujeito de paletó, camisa do Galo com um saco de mendigo nas costas.

Estávamos quase na esquina da Rua Estêvão Pinto quando por ela desceu um camburão da polícia. Era evidente que aquela dupla fugia de qualquer padrão e praticamente obrigava os agentes a verificar que diabos era aquilo. Encostaram a viatura e nos abordaram. 
O “baculejo” foi bem razoável, por incrível que pareça. Abriram o saco do meu parceiro, que não tinha nada além de fogareiro e apetrechos de sobrevivência na rua. “E se tivesse droga ou arma neste saco?”, me questionou um policial. “O senhor tem toda razão, não faço ideia o que tem aqui. Poderia me complicar, né?”, respondi com absoluta sinceridade.

Fizeram muitas perguntas. Eu disse não saber nada sobre o espelho. Meu conhecido repetiu a história da casa em demolição e sustentou que o objeto lhe pertencia.

Os três militares se entreolhavam. Duvidavam das explicações. Sabiam que algo ali não batia. Mas perceberam que não havia qualquer crime palpável e que nossos argumentos eram sinceros. Eles nos liberaram.

Minutos depois, meu parceiro desdentado depositou o enorme espelho na minha sala. Paguei-lhe os R$ 40, conforme o combinado. Ele me pediu a camisa do Galo. Fiz questão de tirá-la e dar de presente para ele. O Johnatan e eu ficamos satisfeitos. 

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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