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29/06/2017 | domtotal.com

O peso da tua ausência

Doença ou depressão já não sei . Afinal não é tudo o mesmo?

Resta saber agora se tenho saudades de você ou saudades de mim ao seu lado.
Resta saber agora se tenho saudades de você ou saudades de mim ao seu lado. (Reprodução)

Por Ricardo Soares*

Levantei de um sono de sobressaltos, com pausas para a urina noturna e leves pesadelos e aí olhei pro lado e não te vi mais no seu lugar na cama grande. Em um primeiro momento imaginei que você tivesse levantado mais cedo, coado um café fresco e se arrumado para pegar a estrada cheia rumo ao trabalho. Em um segundo momento imaginei que você pudesse estar lavando e secando os cabelos ou levando longos e esticados minutos para fazer a maquiagem que acabava por desmanchar a sua beleza natural. Foi só então no terceiro momento quando não te vi com a escova de dentes entre os dedos a me dizer recados matinais que entendi  que você não estava mais no seu lugar na cama grande porque não estava mais na minha vida e essa triste realidade me demorou a ser apreendida. Uma ficha que demorou a cair como se diria antigamente.

Não posso esclarecer ao prezado leitor se você morreu ou me deixou o que no fundo é a mesma coisa. Deixo por conta da imaginação de quem lê. O que é fato, o que é liquido e certo é que você não está mais por aqui depois de tantos anos e por conta disso eu dei de falar com os cabides e rosnar para os rodapés pegando ojeriza dos gatos que gostavam mais de você do que de mim. Você não quis levar tantas boas recordações mas só as más lembranças e todas as suas bugigangas que entulhavam a minha vida e só agora vejo o quanto eu gostava disso. Ficou o vazio, o pétreo vazio de azulejos de hospital, de comidas que não mais farei, de chás que você não vai mais me levar até a cama até porque teriam que ser muitos porque agora passo grande parte do dia deitado. Doença ou depressão já não sei . Afinal não é tudo o mesmo?

Se escrevo essas mal cansadas linhas é  porque sei tardiamente agora que como na letra da bossa nova “é impossível ser feliz sozinho”. O resto é barulho de um mar remoto, de um dia silencioso, de pássaros que ignoram que eu me aposentei precocemente sem querer e que cabeça vazia é ferramenta do diabo. Assim vou, portanto, tentar plantar.

Um céu limpinho e um sol ardido me fazem suar plantando avencas, um pé de manacá , outro de jibóia. Tiro larvas de outras plantas, rego as flores que sobreviveram ao inverno e vejo lá longe no terreno o túmulo do nosso cãozinho que partiu dias antes de você. E aí penso que fugir do amor é uma espécie de morte. Porque o que é o amor além de uma jogada do destino , uma artimanha da sorte ? Amor , poderia se dizer de maneira óbvia, é a arte do encontro. Que prevê tantos desencontros que é preciso ter força pra  galgar ondas horríveis e superar as tormentas. Mas existem sim os triunfantes. Os que saem inteiros do mar encrespado.  E eu os invejo. Porque puderam resistir aos percalços do amor.

Não posso fumar nenhum cigarro e nem um uns últimos depois do último porque já não fumo. Não posso beber vinho ou aguardente porque o açúcar dessas bebidas me infecta o sangue. Não posso tampouco me entupir de doces e nem de lascívia porque estou enfarado disso. Muito já errei por esses caminhos.

Resta saber agora se tenho saudades de você ou saudades de mim ao seu lado. Porque com você, vejo agora, tudo tinha mais graça, um senso de humor se infiltrava entre as telhas e as calhas entupidas e o seu sorriso quando bem dado era mais que um presente com o perdão do baita lugar comum desse jargão.

Já muitas primaveras vivi nessa vida. Primaveras que vieram depois de tantas outras vividas pelos meus antepassados. Lido muito mal com a tristeza, também lido mal com a indelicadeza e com a privação de qualquer sentido. Assim é que não vejo nenhum sentido na sua ausência. Ela me dói, me dilacera, me faz ter uma dó danada de mim porque mesmo não tendo nascido junto de ti estava a ti umbilicalmente ligado. Jamais queria ter ficado sozinho a essa altura da vida.Queria ter alguém ao meu lado para envelhecer junto.Justo agora você foi cismar de morrer?

*Ricardo Soares é escritor, autor de oito livros. O mais recente "Amor de mãe" publicado pela editora Patuá. Titular do blog Todo Prosa em www.todoprosa.blogspot.com

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