Engenharia Ensaios em Engenharia

11/07/2017 | domtotal.com

Engenharia, empresas familiares e startups

Sucesso e sustentabilidade das empresas só são possíveis através de uma profissionalização de sua gestão e de seus processos.

Família Trump inaugura hotel nos EUA: capacidade de inovação e de gestão são absolutamente necessárias para as empresas.
Família Trump inaugura hotel nos EUA: capacidade de inovação e de gestão são absolutamente necessárias para as empresas. (Gary Cameron/Reuters)

Por José Antônio de Sousa Neto*

A maior parte das empresas existentes no mundo são empresas ditas de “origem familiar”. No Brasil o percentual destas empresas chega a 95% das empresas existentes. Acharam muito? Na Itália, por exemplo, este percentual chega a 98%. Mesmo em países anglo saxões como os Estados Unidos e o Reino Unido, países que têm um forte mercado de capitais, este percentual chega a quase 90% das empresas existentes. Alguns exemplos? C&A, Toyota, Fiat, Banco Itaú, Grupo Votorantin, Gerdau, Weg e quase a totalidade das empresas do setor de infraestrutura no mundo e no Brasil. Empresas como a Odebrecht e a Camargo Correa são exemplos típicos de empresas familiares (sem intenção de fazer trocadilho...). Como podemos ver na figura que se segue, são muitos os desafios de uma empresa familiar típica:

De uma forma simplificada talvez o maior desafio das empresas de origem familiar ou empresas ou mesmo organizações com características de empresas familiares (mesmo não sendo formalmente empresas familiares) é a fusão de três dimensões distintas: A dimensão da (s) família (s), a dimensão da propriedade e a dimensão da gestão.

Quando isto acontece, a perenidade da empresa e sua sustentabilidade só são possíveis através de uma profissionalização de sua gestão e de seus processos. Esta profissionalização deve passar pela existência / implantação de um modelo de governança corporativa e este modelo só se sustenta no médio e longo prazo, se tiver entre os seus pilares sistemas de integridade (também conhecidos como sistemas de compliance ou simplesmente compliance).

Mas existe um amálgama para todas estas coisas: valores! As empresas podem obviamente por absoluto pragmatismo se profissionalizarem. Até porque as implicações legais são muitas e muito sérias para as que não seguem esta trilha. Estas implicações legais têm graves consequências mercadológicas e financeiras para as empresas. É uma questão de sobrevivência para estas organizações. Não poderíamos dar melhor exemplo do que a cadeia de valor e de produção no setor de engenharia no Brasil e em particular na área de infraestrutura. Mas é muito claro e existem evidências muito fortes e claras (sustentadas por pesquisas nas áreas das ciências sociais e das ciências humanas) que os valores dos quais estão imbuídos os fundadores destas empresas e os seus sucessores são determinantes para o fracasso ou o sucesso destas organizações. Um caso recente que tem sido muito discutido e para o qual as mídias têm devotado grande atenção é o da Uber.

Mas o que isso tem a ver com startups? Tudo! Acho que um bom exemplo é o da Weg Motores Elétricos. Faz muitos anos, alguns dizem que ainda “em um fundo de garagem”, quando ainda era uma intenção de “startup” os sócios se reuniram para redigir algo muito além do estatuto da empresa ou mesmo um simples acordo de acionistas. Eles se reuniram para construir o que correspondia a um “protocolo das famílias proprietárias”. Ali foram discutidos os valores e princípios que eles entendiam centrais à consolidação de seus sonhos e de sua empresa. Ali foi discutido, segundo consta, até mesmo a sucessão da empresa para filhos que ainda não existiam. Dali surgiu os princípios de gestão e governança que conduziram a empresa de startup a multinacional.

A mensagem deste breve texto é simples. Claro que competência técnica, capacidade de inovação e de gestão são absolutamente necessárias para as empresas, estejam elas na fase de startups ou na fase de grandes multinacionais consolidadas. Empresas do setor de engenharia e de infraestrutura não são de forma alguma exceções. Mas no mundo de hoje, se bons princípios e valores não estiverem no âmago destas empreitadas, desde sua condição de startup (em berçários ou em aceleradoras), e se estes princípios e valores não forem tratados de forma sistematizada e profissional, as chances de sucesso e perpetuação para estas empresas se tornam cada vez menores.

José Antônio de Sousa Neto é professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE) e PhD em Accounting and Finance pela University of Birmingham no Reino Unido.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas