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14/07/2017 | domtotal.com

A memória e a escória

O cenário atual ganha contornos gravíssimos quando a parca infra-estrutura existente sucumbe à insensibilidade governamental.

Vivemos uma realidade duríssima em meio aos escombros e às políticas que dizimam.
Vivemos uma realidade duríssima em meio aos escombros e às políticas que dizimam. (AFP)

Por Eleonora Santa Rosa*

Ver sucumbir a memória nacional é uma realidade incontornável para quem trabalha nesse métier.

Metros e metros cúbicos de documentos (manuscritos, códices, plantas, mapas, fotos e uma enormidade de outros materiais) dormitam em corredores, porões, sótãos, em cômodos precários lotados de caixas devastadas por traças, cupins, mofo; ressecadas pilhas de papel amarradas e grudadas pela má conservação, corroídas pela ação do tempo e pelo desleixo dos chupins de plantão desde sempre, excetuados os períodos excepcionais de consciência e investimento em políticas de preservação, conservação e reprodução no seio da Administração Pública.

A luta renhida, mas não inglória, dos ‘missionários’ que se dedicam à causa do Patrimônio no Brasil, demanda, para além da competência, eficiência e formação, uma crença fortíssima na tarefa à qual se empenham, diuturnamente, salvando do descaso, da ignorância, da arrogância, da censura, do incêndio e da inundação literais, a História Nacional.

Embora a gestão de acervos e arquivos enfrente problemas gravíssimos advindos da ausência de contratação de pessoal especializado, da inadequação dos espaços comumente destinados e da prolongada crise de verbas, mesmo assim, em que pesem todas essas dificuldades, dá gosto ver e constatar a tenacidade e a persistência de técnicos e funcionários que não abdicam das responsabilidades inerentes às suas funções.

Conscientes do tesouro que preservam e da imperiosa necessidade de sua sistematização, organização e salvaguarda em condições técnicas básicas, travam batalhas surdas e intensas contra a violência da destruição e dizimação.

Esta situação, infelizmente, também pode ser constatada, em alguma medida, nos microcosmos familiar, empresarial e institucional, onde a cultura prevalente trata como estorvo e tralha papéis, fotos antigas, cartas, documentos esmaecidos, dentre outros. Famosos são os casos de ‘viúvas’ e de famílias que se desfazem da dita papeleira incinerando, vendendo ou descartando, sem critério ou sensibilidade, o que pode ser (e é) o alimento da História.  Reflexos de hábitos ainda tributários de uma mentalidade de baixa valoração, consideração e, mesmo, de descuido em relação à própria memória, história familiar e acontecimentos relevantes em âmbito local.

O cenário atual ganha contornos gravíssimos quando a parca infra-estrutura existente sucumbe à insensibilidade governamental.

Vivemos uma realidade duríssima em meio aos escombros e às políticas que dizimam, direta ou indiretamente, sem pudor ou retração, o nosso patrimônio material e imaterial como povo, raça, nação. Assistimos hoje ao fechamento, ao contingenciamento, ao desmantelamento de órgãos e entidades essenciais à memória do país, como, por exemplo, o Arquivo Nacional.

No entanto, mesmo com os nervos em frangalhos e percalços de toda a ordem, os missionários imbuídos de espírito público e magnanimidade, dignos de respeito e louvação, permanecem na hercúlea operação de juntar fragmentos e colar cacos, recuperando, restaurando e reconstituindo o mosaico da formação da história brasileira, que há de sobreviver ao obscurantismo da escória.

Eleonora Santa Rosa – jornalista, ex-secretária de Cultura de Minas Gerais, gestora e idealizadora de iniciativas e ações referenciais no campo do patrimônio cultural

EMGE

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