Religião

17/07/2017 | domtotal.com

Vida feliz em tempos estranhos

O ócio, tão valorizado pelos gregos amantes da sabedoria, atualmente é visto como perda de tempo.

Em cada pessoa há um lugar, profundo, onde o pulsar da vida nos remete àquele que deu origem a todas as coisas.
Em cada pessoa há um lugar, profundo, onde o pulsar da vida nos remete àquele que deu origem a todas as coisas. (Getty Images)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Que o tempo pareça mais curto, dada a imensa quantidade de afazeres que temos, tem sido uma concordância praticamente unânime. Somos engolidos pelo tempo, com o qual lutamos, para sermos bem produtivos. O ócio, tão valorizado pelos gregos amantes da sabedoria, atualmente é visto como perda de tempo. Vivemos na urgência da utilidade: se não for útil, tende-se a achar que seja desnecessário. Adocemos, enquanto os corpos cada vez mais malhados, falseiam a promessa de uma vida saudável e duradoura, só porque retiramos o glúten de nossas dietas. Os ansiolíticos substituem o glúten, nesses tempos estranhos e confusos nos quais temos vivido.

Esses são tempos de muitas crises, que tocam todas as áreas da vida. Numa época de adoecimento generalizado, quem pensa em felicidade como algo possível? O capitalismo continua a ser uma promessa na qual realmente acreditamos, ou estamos atados a essa engrenagem, sem saber o que fazer para conquistar uma vida de qualidade, que o dinheiro, por si, não é capaz de garantir? Se paramos, somos massacrados; se continuamos no ritmo ao qual esse sistema nos induz, vivemos sem sentido, tal como temos podido ver. É preciso um meio-termo e, ao que parece, já passa da hora de voltarmos para dentro de nós mesmos. Esse caminho interior, no entanto, não significa um estágio mais complexo do individualismo no qual estamos encarcerados, mas no conhecimento profundo e na experiência verdadeira daquilo que podemos ser, ou, em outras palavras, no encontro com a felicidade.

Santo Agostinho gastou tempo refletindo sobre a vida feliz. Das muitas atracagens às quais o barco da vida pode chegar, só em Deus, para ele, a ancoragem permite o encontro de uma vida feliz. Talvez essa seja uma resposta sensata, para os tempos nos quais temos vivido. A busca por Deus, que aqui compreendemos como o sentido último para a existência, não se faz fora de nós, mas dentro. Em cada pessoa há um lugar, profundo, onde o pulsar da vida nos remete àquele que deu origem a todas as coisas. No encontro com aquilo que verdadeiramente somos, a possibilidade de encontrar o sentido para o viver, para uma vida feliz.

Mergulhando no mais íntimo do que somos, podemos experimentar a riqueza que nos dá plenitude, essa plenitude que o tempo todo buscamos com insucesso fora de nós. Se não está fora, é preciso buscar uma integridade em nós: em nosso pulsar, a presença vivificadora de Deus. O Outro que nos habita. Somos marcados por sua presença: encontrá-lo é fazer de nossa vida íntegra, inteira, plena. Nesse encontro integrador, o significado profundo do existir: sair de nós mesmos, para o encontro que nos realiza como pessoas. Tocar o coração do outro, com o amor que descobrimos em nós. Mas esse toque humanizador só é possível, quando profundamente motivado por um encontro íntegro com o que somos e com o que dá sentido à nossa vida. Talvez essa seja uma compreensão possível para o namastê dos orientais.

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). Escreve às segundas-feiras. E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas