Brasil Política

17/07/2017 | domtotal.com

João Dória e os pacificadores

A falta de modos, a falta de educação, civilidade, respeito mútuo talvez não explique a razão da crise mas dá a medida de onde chegamos diante de tanta deseducação

Se toquei no João Dória do passado foi para dizer, enfim, que dele - repito - nunca esperei nada como cidadão ou “gestor” mas sempre lhe louvei os bons modos.
Se toquei no João Dória do passado foi para dizer, enfim, que dele - repito - nunca esperei nada como cidadão ou “gestor” mas sempre lhe louvei os bons modos. (Divulgação)

Por Ricardo Soares*

Não é a primeira vez que o Brasil está em crise mas talvez seja a primeira vez que se escreveu tanto sobre a crise brasileira, todos buscando motivos e causas para saber como chegamos a tal estado de coisas que transformam o tal “mar de lama” do passado numa “merrequinha”, com o perdão do vulgo. Diante pois de tal profusão de teorias – conspiratórias ou não – modestamente arrisco mais um palpite.

A falta de modos, a falta de educação, civilidade, respeito mútuo talvez não explique a razão da crise mas dá a medida de onde chegamos diante de tanta deseducação, de golpes abaixo da linha da cintura, de discursos incendiários e truculentos que dia a dia mais jogam gasolina no fogo das intolerâncias e tornam comuns agressões baratas como podemos ver diariamente nas redes sociais que dão bem a medida do ponto ao qual chegamos.

Nesse contexto dá muita saudade dos discursos moderados e pacificadores que mesmo contendo duros recados aos opositores eram feitos em linguagem, digamos, mais desarmada. A expressão máxima disso é Gandhi e nem chegaríamos a tanto para pedir, por exemplo, ao “gestor” de São Paulo que se inspirasse no que dizia e fazia o líder indiano para moderar as suas falas. Não que se esperasse muito do João Doria, patético arremedo de prefeito, mas o sujeito está extrapolando todas as medidas dos maus modos para conquistar na marra sua vaga na disputa presidencial de 2018.

Conheço o João Doria de outros e velhos carnavais. Jovem repórter no “Jornal do Brasil” o entrevistei mais de uma vez quando presidente da Paulistur ou Embratur. Sempre foi um janotinha clássico, desses que coloca abotoadura nas camisas e usa camisa pólo com brasões bregas. Para Dória isso é sinal de bom gosto. Ok, cada qual com sua estética, mas o que definitivamente é de mau gosto – sobretudo para o momento belicoso que vivemos – é o discurso adotado pelo arremedo de prefeito para criticar ou se opor às ideias de seus adversários ou mesmo para tratar com a parte da população paulistana que desde já critica a sua até agora sofrível administração mais afeita a desconstrução do que fez o antecessor do que a propor e fazer coisas novas.

Midiático, arrogante, destemperado. Poderíamos pespegar em Doria vários epítetos mas mesmo assim eles não dariam a dimensão da má surpresa em que está se convertendo com seu discurso de coxinha que vai à guerra, uma espécie de Bolsonaro que fez doutorado no Mackenzie. Com tudo isso Dória corre o risco de não ser levado a sério , de se transformar numa triste caricatura como o risível Ciro Gomes, o eterno Napoleão de hospício da política brasileira que, aliás, vira e mexe, detona o Dória e recebe troco a altura. No fundo se merecem.

Se toquei no João Doria do passado foi para dizer, enfim, que dele - repito - nunca esperei nada como cidadão ou “gestor” mas sempre lhe louvei os bons modos, a educação, as mesuras mesmo que feitas com explicito interesse de agradar a quem convinha. Mas agora até esse falso cavalheiro desapareceu. Joãozinho vai à guerra e para isso está se valendo de todo tipo de arma. Não é disso que o Brasil está precisando. Precisamos mais do que nunca de pacificadores.

*Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Dirigiu 12 documentários e publicou 8 livros. O mais recente é “Amor de Mãe” pela editora Patuá.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas