Religião

11/08/2017 | domtotal.com

No fim, começo!

O agora, que se retroalimenta do passado, já se delicia do banquete que está à nossa frente.

Não é à-toa que o símbolo do amor (não falo do amor açucarado e sentimentalista) é a cruz, onde o esplendor se revela na fraqueza.
Não é à-toa que o símbolo do amor (não falo do amor açucarado e sentimentalista) é a cruz, onde o esplendor se revela na fraqueza. (Divulgação/ Pixabay)

Por Rodrigo Ladeira*

Quando tudo ficar acabado é então que a festa começará. E a gente festeja apesar de saber que a festa também há de terminar. Não é tanto o final, mas o que só ele pode inaugurar. Quando a gente constata que a dor chegou ao fim é sinal de que outra coisa já ocupa seu lugar. De algum modo, a gente precisa reconhecer que estamos em festa.  A água já é vinho ao mesmo tempo que não podemos nos esquecer que “o amor é sede depois de se ter bem bebido” (Guimarães Rosa, Noites do sertão: Corpo de Baile, p.61). Vamos falar do Amor.

O cristianismo vive de um movimento primordial feito por Deus. Ele modificou radicalmente nossa ideia de tempo. A eternidade veio até nós, rebaixou-se. “Quando chegou a plenitude dos tempos, [Deus] enviou o Seu Filho, Verbo feito carne, ungido pelo Espírito Santo, para [nos] curar. Morrendo destruiu a nossa morte e ressurgindo restaurou a nossa vida.” (Sacrosanctum Concilium, 5).

O absoluto se fez relação. A constância assumiu para si a inconstância. Deus se fez humano. Não há mais distinção real entre a transcendência e a imanência. Ele está no meio de nós! Está aí para quem quiser ser encontrado. Gosto de chamar essa mobilidade divina de amor (cf. Fl 2, 5-11). Só o amor poderia plenificar a história, dar acabamento à obra da criação (cf. Gl 4,4). O amor, revelado naquele que ama, é autodoação, ardil maravilhoso, dramático ao mesmo tempo que libertador, nos salva de nós mesmos (cf. 1Cor 13). Não é à-toa que o símbolo do amor (não falo do amor açucarado e sentimentalista) é a cruz, onde o esplendor se revela na fraqueza. Não existe amor se ele for pela metade. Só é amor porque “ama até o fim” (cf. Jo 13,1), até não caber mais em si, até morrer. O cancioneiro de Chico Buarque agudiza o drama de amar quando canta com a voz do amante uma promessa enlouquecida. Perdido do outro amado então, só aí será possível encontro, num tempo que ele chama de “delicadeza”, “onde não diremos nada, nada aconteceu. Apenas seguirei como encantado ao lado teu”. (Todo sentimento)

A escatologia cristã, outrora restrita ao estudo das realidades últimas (eschata), revivescida pela Boa-Nova, quer nos apresentar ao ÚLTIMO de todas as realidades (Eschaton), numa dinâmica de amor-morte-amor. A escatologia não quer responder a perguntas sobre o modo como acontecerão as últimas realidades. Não se trata de um relatório ou um manual para os que estão fazendo sua passagem, mas uma saudável provocação de Deus-homem, Deus-amor/amante à liberdade humana. Os evangelhos estão eivados desse esquema provocador. Ele propõe uma inversão, um excesso, com afirmações que, de tão ilógicas, estão plenas de sentido. “Os últimos serão os primeiros”; “perder é ganhar”; “quem gasta sua vida vai conservá-la”; “é preciso morrer para poder viver”...

Estamos diante de um assunto que deve ser tratado como antessala. Nas paredes desta sala preambular, estão pendurados quadros utópicos, perfumada de esperança (não-saber ao mesmo tempo que saber).

O imaginário tripartido cristão do além (céu-purgatório-inferno), fruto da escatologia tradicional, se apresentou, durante muitos séculos, ora jogando essa nossa vida, porque cheia de misérias, para um futuro; ora numa tentativa de assegurar aqui na terra, a partir da realização de determinadas obras, a vida futura; ora, por fim, ocupando-se do destino das almas, cuja mediação se fazia através de méritos e deméritos em vista de calcular qual seria o castigo ou o prêmio que nos aguardava.

Com a revivescência das utopias terrenas, cujo eco encontraremos no Concílio Vaticano II, ao contrário das utopias-fuga, que nos levaram a certo infantilismo cristão, deslocou a problemática escatológica espiritualista de outrora, escamoteadora do agir humano.

O agora, que se retroalimenta do passado, já se delicia do banquete que está à nossa frente. É já e ainda não, mas também, e de algum modo misterioso, é já apesar de ainda não. Uma utopia libertária dos sonhos e produtora de desejos que, sem eliminar a esperança, reinventa-a para além dos moralismos. Nós sabemos que a “expectativa da nova terra não deve enfraquecer mas antes ativar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar uma certa prefiguração do mundo futuro.” (Gaudium et Spes, 39).

Deixamos a inquietude dos versos de Sophia de Mello Breyner Andresen ressoar em nossos ouvidos. Quem tem ouvidos para ouvir...

“Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.”

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*Rodrigo Ladeira é Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) / BH-MG. Coordena as atividades de educação continuada e pós-graduação lato sensu dessa mesma IES. Ensina Liturgia e Sacramentos em vários cursos livres e de especialização de teologia em Belo Horizonte-BH.

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