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11/08/2017 | domtotal.com

Trabalhar dá trabalho

Certa manhã, teve uma ideia. Foi até o terreno baldio, atravessou o matagal e acordou o vizinho.

Na manhã de sábado, Valdo saiu empurrando seu negócio ambulante.
Na manhã de sábado, Valdo saiu empurrando seu negócio ambulante. (Reprodução)

Por Fernando Fabbrini*

O pobre homem chegou do nordeste com a família – mulher e o filho de uns dois aninhos – e instalou-se no terreno baldio ao lado da pizzaria. Chamava-se Valdo. Recolheu uns restos de caibros e ripas; caixas de papelão; arrumou uma lona preta e montou seu abrigo. E foi ficando.

O dono da pizzaria comoveu-se com tanta miséria e desamparo, ali, bem ao seu lado. Depois do almoço e do jantar, separava o que sobrava das pizzas – pedaços inteiros, intocados, ainda comíveis, claro – e mandava levar pra família necessitada. Isso durou uma semana, mais ou menos. Porém, o dono da pizzaria não se conformava com aquela condição de mantenedor da pobreza. Volta e meia vinha à sua cabeça o velho provérbio chinês: se der o peixe, só mata a fome; melhor mesmo é ensinar a pescar.

Certa manhã, teve uma ideia. Foi até o terreno baldio, atravessou o matagal e acordou o vizinho:

- Valdo, bom dia!

- Bom dia, doutor! – disse o pobre, espreguiçando-se.

- Estava pensando, Valdo... Você sabe capinar?

- Claro, doutor! Nasci na roça, lá nas Alagoas!

- Então, vamos trabalhar. Tá aqui uma enxada; limpa o terreno; te pago. Dá muito mosquito, cheiro ruim; incomoda lá na pizzaria.

Valdo não fez feio. Arregaçou as mangas e encarou o desafio. Em dois dias, o terreno baldio estava apresentável, sem capim, sem restos de lixo. Ficou até bonitinho, aos olhos de quem passava. Valdo recebeu o pagamento, ficou feliz, todo animado.

- Este homem é trabalhador, merece uma chance – pensou o dono da pizzaria. E teve outra ideia:

- Valdo, o que você gostaria de fazer pra ganhar a vida?

- Ah, doutor! Meu sonho era ter um carrinho de cachorro-quente. Minha mulher sabe peparar um molho sensacional... Mas nunca deu pra comprar um...

O dono da pizzaria chamou os amigos, vizinhos, outros comerciantes da área. Explicou o caso, foi enfático:

- Todos nós aqui começamos do nada... Que tal comprar um carrinho e dar pro Valdo uma chance de ganhar a vida com dignidade?

Fizeram o rateio. Dividido por um grupo grande, o investimento até que não foi caro. Cada um contribuiu como pode. E compraram não só o carrinho de cachorro-quente novinho em folha, como também acessórios e ingredientes – guarda-sol, guardanapos, mostarda, quetchup, salsichas, pães, tudo. Primeiro enchimento garantido, era só sair pra rua e vender os sanduíches.

O Valdo abriu um sorriso quando recebeu o presente. Mostrou pra mulher, orgulhoso, só faltou beijar as mãos de seus benfeitores. O dono da pizzaria até provocou, de brincadeira:

- Quero ver você, daqui a um ano, roubando meus clientes, competindo com minhas pizzas, combinado?

Na manhã de sábado, Valdo saiu empurrando seu negócio ambulante. Voltou mais cedo, tinha vendido o estoque inteiro de sanduíches. Nos dias que se seguiram o dono da pizzaria acompanhou, discretamente, as idas e vindas de seu protegido pelas ruas, ganhando seus trocados e tocando a vida. Que bom, tinha ajudado um pai de família a sair da miséria.

Passou uma quinzena. Um dia, chegando à pizzaria, o dono notou alguma coisa errada no lote vago: o carrinho tinha sumido. Junto com ele, sumiram o Valdo, a mulher, as roupas do varal, o filho e seus pertences. Não demorou muito a tomar conhecimento do acontecido; a novidade foi trazida pelo lavador de carros da praça:

- O Valdo? Ué, o doutor não sabe? Ele vendeu o carrinho pra aquele cara do quiosque. Disseram que vendeu baratinho, mixaria, quase a metade do valor.

- E cadê ele?

-Foi morar noutro canto, com a família, lá na beira da rodovia. Cansou do carrinho...

- Cansou?

- É, disse pra gente que trabalhar estava dando muito trabalho.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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