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11/08/2017 | domtotal.com

Oração ao Tempo

Nem a cadeia lhe ceifou a lírica da qual emergiu a delicada e poética Terra.

Leitor sofisticado e informado.
Leitor sofisticado e informado. (Reprodução)

Por Eleonora Santa Rosa*

Caetano Emanuel Viana Teles Veloso chega aos 75 anos um colosso.

Sempre achei seu nome lindo, de uma força estranha.

Sempre achei que era diferente, tributário de outras palavras.

Não o achava bonito, descobri bem mais tarde sua beleza pura.

Sua obra sempre foi de chamar atenção: da linda ingênua Avarandado ao acorde dissonante agressivo de Tropicália, em conexão direta com a poesia concreta.

Do Recôncavo à porrada da parada forçada em outra terra, onde nem o gramado mais verde que existe amaciou a dureza do exílio, suportado em meio à depressão e lágrimas, sua vida não foi nada fácil.

Na volta, de Chiquita bacana, botou para requebrar com caras e bocas, cantando atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu.

Alegria, alegria, nada tola, que marcava sua rentrée no país tropical ainda sob o domínio do medo.

No histórico show no Teatro Castro Alves, em Salvador, junto com Chico Buarque, rebolando, de boca pintada, tamancos e brincos, mostrava a todos o que que a Bahia tem.

Radicalidade comportamental, intelectual e criativa que culminaria em Araçá Azul, ápice de sua experimentação sonora via linguagem.
Vida renovada dia após dia.

Nem a cadeia lhe ceifou a lírica da qual emergiu a delicada e poética Terra.

Tomou vaia e vaiou à esquerda, ao centro, à direita.

É proibido proibir, gritou, fora do tom e sem melodia, para um público furioso.

Coragem sempre teve de enfrentar as síndromes nacionais, partidárias, artísticas e comportamentais.

Percebeu melhor e antes que muitos o que estava Fora da Ordem, manejou o léxico com maestria em Língua, bradou os horrores em Podres Poderes, a impossibilidade em O Quereres, e continua desafiando o coro dos contentes e acomodados.

Invadiu as praias do cinema, com seu belo e potente Cinema Falado, que adoro, e da prosa, com sua autobiografia Verdade Tropical, a ganhar nova edição anunciada.

Leitor sofisticado e muito bem informado, poeta da língua e da canção, artista de infindável produção, mais que um Abraçaço, merece todo o amor que houver nessa vida, a ser vivida em comunhão de tempo estendido como pedido em sua bela tocante canção:

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, tempo, tempo, tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, tempo, tempo, tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo, tempo, tempo, tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo, tempo, tempo, tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Portanto, peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo, tempo, tempo, tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo, tempo, tempo, tempo

*Jornalista e ex-secretária de Cultura de Minas Gerais

EMGE

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