Meio Ambiente

14/09/2017 | domtotal.com

Game of Thrones e o Acordo de Paris

Desastrada política ambiental de Donald Trump pode ser comparada à campanha da Casa Lannister em Game of Thrones, num resultado que pode prejudicar todo o mundo.

Trump provavelmente seria o líder da casa Lannister, a orgulhosa família guardiã das terras do oeste.
Trump provavelmente seria o líder da casa Lannister, a orgulhosa família guardiã das terras do oeste. (Divulgação e AFP Photo)

Por Rafael Welerson de Oliveira

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, certamente é uma das personalidades de destaque mundial na atualidade, o que não necessariamente é algo bom, já que o destaque pode se dar de forma negativa. O político controverso desde sua candidatura à presidência vem tomando decisões tão polêmicas quanto sua campanha, sendo uma delas o anúncio da saída de seu país do Acordo de Paris.

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Eu diria que no caso de Trump trata-se de destaque de forma negativa, então vamos falar de algo que se destaca de forma positiva: Game of Thrones. Atualmente exibindo sua 7ª temporada, essa é uma série televisiva do canal HBO baseada nas “Crônicas de Gelo e Fogo”, obra do autor norte americano George R. R. Martin. O destaque mundial positivo se deve à sua produção de nível hollywoodiana e aos seus elevados índices de audiência em todos os países nos quais é exibida.

Mas e se Trump fosse um personagem de Game of Thrones? Será que ele ganharia destaque de forma positiva? Vamos analisar... Trump provavelmente seria o líder da casa Lannister, a orgulhosa família guardiã das terras do oeste e mundialmente conhecida por seu poderio econômico e militar – mas que, principalmente, sempre age levando em conta apenas seus interesses, fazendo de tudo para alcançá-los, mesmo que para isso tenha que transformar um casamento num banho de sangue. Não parece algo positivo... E nesse contexto, o que seria a saída dos EUA do Acordo de Paris, senão uma tentativa de proteger seus interesses às custas do meio ambiente?

O Acordo de Paris é um compromisso assumido por 195 países integrantes da UNFCCC - Convenção Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (do inglês United Nations Framework Convention on Climate Change) - com o objetivo principal de combater as mudanças climáticas no planeta. Dois de seus principais pontos são: manter o aumento da temperatura média global abaixo de 2ºC, em relação aos níveis da era pré-industrial, e manter o aumento em no máximo 1,5ºC.

Para alcançar esses objetivos é necessário reduzir a emissão dos gases causadores do efeito estufa, por meio de medidas como economia de energia, investimento em energias renováveis (a chamada energia verde) e reflorestamento. Para tanto, os países signatários pretendem alcançar o ápice da emissão dos gases estufa o quanto antes, e então iniciar uma rápida redução até alcançar o equilíbrio entre as emissões humanas e aquelas absorvidas pelos sumidouros de carbono (florestas e técnicas de captação e armazenamento de dióxido de carbono). Talvez os White Walkers, que são os grandes vilões de Game of Thrones, poderiam ajudar, já que trazem o frio extremo por onde passam.

O Acordo foi aprovado na capital francesa em dezembro de 2015 e, para entrar de fato em vigor, pelo menos 55 países deveriam ratificar sua participação a partir de uma cerimônia em Nova York que ocorreu em abril de 2016 e foi estendida até abril de 2017. 147 países ratificaram e, em 4 de novembro de 2016, o Acordo entrou em vigor, funcionando da seguinte maneira: cada governo desenvolverá seus próprios compromissos baseados nas iNDCs, ou seja, nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (do inglês intended Nationally Determined Contribution). Para formar as iNDCs, cada país apresentou uma proposta de contribuição na redução da emissão de gases estufa baseada em sua realidade econômica e social. Após a ratificação do Acordo, o país assume as propostas como compromissos oficiais, transformando as metas em uma NDC. Em 2020 os países irão avaliar e revisar suas metas. Essa revisão será repetida a cada 5 anos, exigindo assim que os países atualizem os compromissos firmados e até mesmo ampliem suas metas de redução das emissões.

O Acordo ainda prevê que os países industrializados estejam na vanguarda da diminuição dos gases estufa e que os países em desenvolvimento aumentem seus esforços gradativamente. Os países industrializados se comprometeram a financiar a transição para energia limpa nos países em desenvolvimento com 100 bilhões de dólares por ano, sendo que um novo valor será definido em 2025.

Indo na contramão dos grandes líderes mundiais, Trump anunciou em junho de 2017 que os Estados Unidos deixariam o Acordo de Paris, sob alegações de que ele seria desvantajoso para a economia e para os trabalhadores norte americanos. Ainda segundo Trump, o Acordo não apenas prejudica os EUA como também beneficia a economia de outros países – o que é inaceitável para um Lannister, já que o que importa para os membros dessa família é ser os mais ricos e poderosos do mundo.

Com a saída dos EUA o Acordo perde força, sobretudo porque são eles os responsáveis pela segunda maior emissão de gases estufa no planeta (15% de toda emissão de carbono no mundo), ficando atrás apenas da China. A saída, portanto, dificulta o alcance da meta de manter o aumento da temperatura global em 2º C. Além disso, os EUA seriam importantes para o financiamento das tecnologias de energia verde aos países em desenvolvimento, já que ainda são a maior economia do planeta – mas por acaso um Lannister sempre paga suas dívidas?.

Nesse Game of Thrones ambiental, a China, sendo a segunda maior economia do mundo, poderia representar a família Tyrel, que é a segunda mais rica de Westeros atrás apenas dos Lannister. Com o afastamento dos EUA do Acordo, a China assume o protagonismo isolado no assunto, até mesmo por ser o maior poluidor e, portanto, poder apresentar a maior redução. Tanto o líder chinês, quanto os líderes da União Europeia já reafirmaram seus compromissos com o Acordo de Paris. Sendo assim, os EUA ficariam de fora das principais decisões para o futuro do planeta, deixando a liderança para seus rivais.

Boa parte da riqueza de um país vem das suas principais empresas e muitas delas estão descontentes com o presidente americano. Trump não consegue enxergar algo que os líderes corporativos já perceberam: são as grandes empresas e indústrias que devem liderar o planeta na chamada revolução verde.

Contudo, apesar da saída dos EUA do Acordo de Paris, os esforços não devem parar. Mesmo que prejudicada, a iniciativa do Acordo permanece forte, pois além dos líderes de grandes empresas norte-americanas que dão suporte à causa, muitos Estados e até mesmo cidades dos Estados Unidos já declararam que farão de tudo para cumprir sua parte do Acordo. Outros países participantes do Acordo não apenas reafirmaram seu compromisso, mas também expandiram suas metas.

Aqueles que estão em dia com a série da HBO sabem que apesar de ainda ocupar o Trono de Ferro, a Casa Lannister vem perdendo espaço para seus rivais e corre grave risco de ser liquidada como reflexo de suas atitudes questionáveis frente aos inimigos e aliados. Talvez o presidente Trump deveria “maratonar” a série e ver o que acontece com aqueles que não se preocupam com o mundo ao redor, pois os Estados Unidos não estão somente deixando de assumir uma posição de liderança, mas também prejudicando o futuro de todo o planeta.

 

* Rafael Welerson de Oliveira é graduando em Direito pela Dom Helder Escola de Direito

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