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13/09/2017 | domtotal.com

O curto setembro britânico

O calendário juliano, instituído em 46 a.C, considerava que o ano tinha 365 dias e 6 horas.

.  A perda dos dias 3 a 13 de setembro de 1752 fez com que ninguém nascesse ou morresse no período.
.  A perda dos dias 3 a 13 de setembro de 1752 fez com que ninguém nascesse ou morresse no período. (Reprodução)

Por Wallace Carrieri*

Em meados do século XVIII, mais precisamente em 1752, o Império Britânico foi acusado de roubar 11 dias da população, quando decretou que o dia subsequente a 2 de setembro não seria dia 3, mas 14 de setembro. Tratou-se da adequação do calendário juliano ao nosso atual calendário gregoriano, adotado há bastante tempo pela maioria dos países ocidentais do continente europeu.
 
Quando alguns países europeus começaram a se adaptar ao novo calendário, definido em 1582, “apenas” dez dias foram suprimidos. Porém quando os britânicos se viram na obrigação de se adequar, a correção precisou ser maior, com a supressão de 11 dias. A relutância na adoção imediata desta modificação se relaciona ao fato de ter sido instituída originalmente pela bula papal Inter gravíssimas. Os britânicos não queriam concordar com o Papa Gregório XIII, sobretudo, num momento em que ele tentava fervorosamente converter a Inglaterra ao catolicismo.

Entretanto, ainda que houvesse motivação religiosa, uma vez que o erro do calendário juliano antecipava o equinócio de primavera e fazia com que a Páscoa tivesse que ser celebrada cada vez mais cedo, a bula Inter gravíssimas é fruto de uma ampla pesquisa de matemáticos e astrônomos, realizada ao longo de muitos anos com o objetivo de se adequar ao cosmos por meio de cálculos e observações científicas. Na explicação atribuída ao astrônomo Kepler, os britânicos “preferiram estar em desacordo com o Sol do que estar de acordo com o Papa”.

O calendário juliano, instituído em 46 a.C, considerava que o ano tinha 365 dias e 6 horas. As novas tecnologias de medição permitiram estabelecer que o ano solar durava aproximadamente 11 minutos a menos, com 365 dias, 5 horas e 49 minutos, ainda com certo arredondamento, claro. Obviamente, o movimento de translação terrestre não se daria num tempo arredondado, conveniente ao planejamento humano. O fato é que esses 11 minutos extras do calendário juliano já haviam gerado alguns dias com o passar dos anos, e a Comissão para Reforma do Calendário resolveu suprimir dez desses dias em 1582. Quando os britânicos aderiram, 170 anos mais tarde, foi necessária a supressão de 11 dias.

A divergência no calendário já estava prejudicando sobremaneira as relações, sobretudo, da Inglaterra com os países do continente, ainda mais naquele início da Revolução Industrial. Quando enfim cederam à mudança houve tumultos, como era de se esperar.  A perda dos dias 3 a 13 de setembro de 1752 fez com que ninguém nascesse ou morresse no período, ou seja, nada aconteceu oficialmente nessas datas, convertidas numa espécie de limbo. Verdadeiro desafio imposto ao povo, quando o primeiro “Brexit” se mostrou insustentável no tempo.

*Mestre em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável MACPS - UFMG. Geógrafo e graduando em Direito. Integrante do Grupo de Pesquisa MAPE - Meio Ambiente, Paisagem e Energia da Escola Superior Dom Helder Câmara

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