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22/09/2017 | domtotal.com

Pequenos tiranos

Não tinha jeito: era uma daquelas birras homéricas, movida por alguma chantagem tipicamente infantil.

A Síndrome do Imperador é um fenômeno típico das últimas décadas e difere-se claramente daquela chatice eventual.
A Síndrome do Imperador é um fenômeno típico das últimas décadas e difere-se claramente daquela chatice eventual. (Reprodução)

Por Fernando Fabbrini*

A cena se passou no supermercado, outro dia mesmo. O menino, usando botas tipo cowboy, chutava o carrinho de compras conduzido pela mãe e dizia frases chorosas, no meio das quais sobressaia o verbo “querer”. A mãe e o pai – ambos jovens – tentavam apaziguar o monstrinho com frases à meia voz. Não tinha jeito: era uma daquelas birras homéricas, movida por alguma chantagem tipicamente infantil.

Por coincidência, eu acabara de ler comentários a respeito de um novo livro voltado à educação – ou seria à arte de domar? – crianças arrogantes, cheias de manha e vontades. Muito interessante e fazendo o sucesso merecido, o “Síndrome do Imperador – Entendendo a Mente das Crianças Mandonas e Autoritárias” da psicóloga brasileira Lilian Zolet toca nesse assunto atualíssimo.

O título já diz tudo: ela vem estudando o comportamento de crianças de nossa época, atenta aos sintomas que podem demonstrar que alguma coisa anda errada dentro de casa. Os sinais são fáceis de perceber: se seu filhote vem repetindo ataques de raiva, pessimismo, introversão em relação a outros da mesma idade, mentiras e atitudes “mandonas”, vale a pena conferir.

É certo que cada criança tem sua personalidade, seu jeito de interagir com o mundo e a autora é extremamente cuidadosa em não “pasteurizar”, em não criar um padrão de “criança normal”. Mesmo porque, a chamada normalidade é um assunto bastante discutível. No entanto, a Síndrome do Imperador é um fenômeno típico das últimas décadas e difere-se claramente daquela chatice eventual, da birra, das pequenas chantagens e do jeito manhoso que nossos filhos vez ou outra botaram em prática.

Estão acometidos da Síndrome os pequenos que repetem com frequência atitudes mandonas frente a outras crianças, aos pais, professores, parentes, vizinhos – enfim, todo o pequeno universo em torno do qual ele gravita. Exigem, batem pé, brigam por qualquer coisinha e, quando não atendidos, apelam para os ataques de raiva. Nota-se também que a falta de respeito às regras – incluindo ordens emitidas pelos mais velhos – é uma constante.

A coisa não para aqui. Há uma outra característica forte da síndrome: a falta de empatia e inversão de valores. A criança acaba mentindo bastante para justificar seu mau comportamento (“Eu bati nele porque ele me xingou primeiro!”) e termina por atribuir mais valor aos bens materiais do que às pessoas.

A autora admite que “criar crianças não é fácil”. E sugere que as causas da Síndrome do Imperador podem estar baseadas na insegurança da meninada, envolvida por um clima bastante recorrente nesses tempos ditos modernos: a falta de limites. Ela afirma que o estabelecimento de regras faz com que a criança se sinta segura e consciente das possíveis consequências de suas ações. Porém, fica a pergunta: não estariam os pais excessivamente permissivos e submissos aos caprichos de seus filhos?  

Engraçado é que isso me faz lembrar da educação à moda antiga, quando os pais – intuitiva e naturalmente – impunham normas civilizadas de convivência, elogiavam os bons e não aceitavam os maus comportamentos - e eram menos suscetíveis às chantagens.

Estaremos perdendo a capacidade de educar nossas crias? Pode ser apenas uma impressão, mas ando percebendo pelas ruas um nível assustador de crianças com botas de cowboy chutando os carrinhos de supermercado e descarregando suas pequenas frustrações nos transeuntes desavisados.

Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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