Brasil Cidades

12/09/2017 | domtotal.com

Machismo, homofobia e censura

O que está por trás da exposição de arte censurada em Porto Alegre.

'Três mulheres noturnas', pintura da americana Mickalene Thomas em cartaz na exposição censurada.
'Três mulheres noturnas', pintura da americana Mickalene Thomas em cartaz na exposição censurada. (Divulgação)

Por Marco Lacerda*

Os ímpetos modernista do banco Santander não resistiram sequer a uma cutucada de um agrupamento político que atende pelo nome de Movimento Brasil Livre (MBL), que defende intervenção militar e Bolsonaro para consertar o Brasil. Temeroso de perder clientes, bastou um chilique do tal agrupamento e a potência financeira mundial tirou de cartaz a exposição ‘Queermuseu - Cartografias da diferença na América Latina’, que estava em cartaz em Porto Alegre. Procedimento típico de um tipo de capitalismo selvagem que impera na América Latina que topa tudo por dinheiro. A intimidação promovida pelo MBL, pelo prefeito de Porto Alegre Nelson Marchezan e por fanáticos religiosos conseguiu o cancelamento de uma exposição que ficaria aberta até 8 de outubro.

O episódio remeteu-me a uma entrevista, em 1979, que fiz com Caetano Veloso, recém-chegado do exílio em Londres, publicada no Jornal da Tarde de São Paulo, então o mais influente jornal do país. Vale lembra que, na época, os discos de Caetano eram lançados pela multinacional holandesa então conhecida como Philips. Veja o que dizia Caetano, hoje adepto de um esquerdismo duvidoso, num tempo em que desfrutava de uma liberdade incondicional que o tornou catalizador de uma revolução de costumes que mudou vidas e influenciou, pelo menos, uma geração:

“A fábrica que lança os meus discos é a mesma que vende as lâmpadas Philips. Para a fábrica, tudo não passa de uma conta. Tem um holandês que faz as contas e nas contas dele tanto faz vender lâmpada como vender disco de Caetano Veloso ou de Chico Buarque. O importante é vender muito. Se acontecer de lâmpada ter mais saída do que disco de Chico, o holandês vai dar mais atenção às lâmpadas. O fato de a música estar na mesma prateleira onde ficam as lâmpadas é que gera a discussão. Ou há uma ingenuidade total ou há um conflito. O que a gente chama de música popular já é meio sabão em pó. Tem muita gente por aí que protesta contra o imperialismo, mas quer mesmo é gravar um disco. São duas vontades loucas confusamente misturadas numa mesma cabeça: gravar um disco e fazer uma revolução socialista”.

A diferença entre o ocorrido naquela época e o que acontece agora é que a Philips nunca substituiu os discos de Caetano Veloso por lâmpadas. Saudade do capitalismo e do Caetano daquele tempo.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do DomTotal

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas