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13/09/2017 | domtotal.com

Estrangeiro de si mesmo

As conversas entre os dois septuagenários era feita mais de silêncios e pausas, mas naquela manhã Bianino, com rara eloquência, desfiou longos casos sobre sua infância.

Ofereceu um café e se sentaram na mesa da cozinha ao pé do fogão de lenha.
Ofereceu um café e se sentaram na mesa da cozinha ao pé do fogão de lenha. (Reprodução)

Por Pablo Pires Fernandes*

A manhã de 11 de setembro estava fria e uma névoa cobria os campos mais baixos. Mal se podia ver o moinho d’água. Manoel enxugou o rosto, coou o café e se sentou na varanda como fazia todos os dias desde que tinha decidido se isolar naquela fazenda, longe da cidade e de todos.

Escutou a voz de Bianino. O caseiro era a única pessoa com quem convivia regularmente. Ofereceu um café e se sentaram na mesa da cozinha ao pé do fogão de lenha. As conversas entre os dois septuagenários era feita mais de silêncios e pausas, mas naquela manhã Bianino, com rara eloquência, desfiou longos casos sobre sua infância.

Pouco recordava de sua mãe, morta no parto do caçula e de quem não tinha notícias há mais de 12 anos. Falou, no entanto, sobre seu pai, homem severo, mas que ajudara os oito filhos como pôde, cuidando da lavoura de café. “Às vezes”, começou o senhor ­– ele levantou o indicador e as sobrancelhas hisurtas – “o pai bebia umas pingas e reunia os filhos, todos homens, em volta de uma fogueira no terreiro.”

O velho contou a Manoel como eram especiais aqueles encontros e percebeu, ao recordar do movimento do fogo e do frio, da voz do pai narrando histórias de assombração e dos irmãos de olhos vidrados por um medo bom, a tentativa do pai em oferecer algo mais próximo de um afeto maternal que era capaz.

Bianino falava devagar, parando para acender o cigarro de palha com um toco de lenha em brasa. Depois de longo e enfumaçado silêncio, revelou a Manoel o que julgava ser o momento de maior ternura compartilhada entre ele e seu pai. Era jovem e tinha pegado gosto por uma moça. A jovem de 19 anos vivia a uns seis quilômetros do rancho , que ele percorria todas as noites em um cavalo pedrês. Vendo o filho enamorado, o pai lhe ensinou uma simpatia, ouvida de uma tia:

“Em uma noite de Lua Cheia, sem que ninguém veja, corte uma maçã em sete pedaços. Coma um pedaço e deixe o resto sobre um pano vermelho. Coloque nele um papel branco escrito com o nome da amada. Deixe tudo no sereno durante a noite, para a Lua mandar energias positivas. No dia seguinte, coma mais um pedaço e jogue o resto fora no mato.”

A simpatia deu certo, o pai lhe contou. “Sua mãe ficou louca por mim”, disse com um sorriso moleque. Bateu-lhe no ombro e o deixou sozinho, a Lua surgia atrás da montanha, estava crescente. “E não é que a simpatia deu certo outra vez?”, falou Bianino num sussurro confessional. Os velhos se calaram e permaneceram um longo tempo fumando em silêncio. 

Quando anoiteceu, Manoel pensou em seu pai e no pai dele, outro Manoel. Lembrou-se das histórias que seu velho lhe contava, tão diferentes dos casos do interior que agora ouvia. Homem da cidade, seu pai nunca poderia imaginar que ele, Manoel, optaria por deixar a capital e ir viver numa fazenda, cercado de livros, dois cachorros e afastado de toda a gente.

Abandonara os sonhos, os amigos e o conforto da cidade grande, pois não pertencia mais àquele país. Não reconhecia mais a alegria e só sentia ódio nos olhos que o olhavam cheios de julgamento. Seus ideais tinham se tornado quase uma ofensa aos ouvidos alheios. Por isso desistiu de tudo.

De novo, veio-lhe o pai à mente e recordou a voz do velho lhe contando sobre as bombas que caíram em Santiago em 11 de setembro de 1973, pouco menos de um ano depois de seu nascimento. Agora, naquela noite fria de inverno, 72 anos depois da morte do presidente Salvador Allende, sabia que não pertencia nem àquela fazenda, nem à capital, em a lugar algum.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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