Religião

14/09/2017 | domtotal.com

Violência contra a mulher! É preciso falar 24 horas, sete dias por semana

Mulheres apanham, são estupradas e mortas de Norte a Sul deste país.

A construção da igualdade não pode esperar.
A construção da igualdade não pode esperar. (Divulgação/ Pixabay)

Por Élio Gasda*

Socorro! “Meu namorado está me agredindo”, “meu pai quer bater na minha mãe”, “fugi de casa e deixei meus filhos, meu marido estava me espancando”, “o ex-marido dela, matou, matou minha sobrinha”, “fui estuprada pelo meu padrasto”. Frases que a polícia escuta 24 horas, sete dias por semana! Homens que fazem da vida da mulher um inferno. Pavor, terror, pânico. A maioria da população brasileira é composta por elas, mas é perigoso ser mulher no Brasil.

País tropical de mentalidade machista. O machismo mata! Relatos de violência contra a mulher são frequentes. Em casa, no trabalho, na escola, na igreja e até no ônibus! Uma mulher se distrai e, quando se dá conta, está suja de sêmen em plena Avenida Paulista. Não foi um episódio isolado. São Paulo registrou 288 casos de abuso sexual em ônibus no primeiro semestre de 2017. Em Camaragibe (PE) nem mulher grávida de quatro meses escapou desta loucura. Mulheres apanham, são estupradas e mortas de Norte a Sul deste país. São 130 estupros por dia, 1 assassinato a cada 90 minutos! Dois terços são vítimas de seus próprios companheiros ou ex-companheiros. São agredidas e humilhadas pelos irmãos, tios, primos das mais variadas formas: física, psicológica, patrimonial, sexual, moralmente.

Num ranking sobre mulheres nos parlamentos nacionais de 33 países latino-americanos e caribenhos, o Brasil, com menos de 10% de mulheres no Congresso, está somente à frente de Belize. Na Bolívia elas já são maioria nas casas legislativas (53,1%). Para piorar, temos congressistas fazendo apologia do estupro. Que vergonha! O mercado de trabalho é outro problema. Segundo Fórum Econômico Mundial, a igualdade de gêneros só será possível em 2095! O Brasil está em 124º lugar, entre 142 países no ranking de igualdade de salários. Aqui ela recebe em média 73,7% do salário dos homens (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). Números alarmantes. Não! Não são números, são pessoas, são mulheres, mães, filhas, irmãs, profissionais! A igualdade entre mulheres e homens e a proibição de qualquer discriminação está garantida na Constituição, mas há muito a fazer.

Falar sem medo! Combater o machismo! Lutar por direitos! Educar! Conscientizar! Politicas públicas! Empoderar as mulheres! A construção da igualdade não pode esperar. Encontrar saídas para essa realidade é um dever de quem acredita na justiça! Tudo começa em casa e continua na escola. É necessário esforço das mulheres mergulhadas na cultura machista que não imaginam ou não percebem o quanto contribuem para a violência contra elas. “Quando um fato é produto da cultura, ele é incorporado por cada ser humano ‘como constitutivo de sua identidade’. Um fato cultural não é alterado mediante leis, ameaças ou punições, mas através da educação. Uma educação bem pensada e paciente, capaz de modificar padrões culturais condicionantes da nossa identidade” (José Maria Castillo). As mulheres brasileiras são as responsáveis pela educação dos filhos. Nas escolas e nas igrejas elas estão em grande número. É preciso por fim a discursos machistas: “homem não usa rosa”, “carrinho é coisa de menino”. A retorica é tão forte que está presente até nas políticas públicas: “outubro rosa” e o “novembro azul”. Assim as mulheres não acreditam em suas capacidades. Não contribuem com fim da cultura machista.

Diante desse drama os cristãos não podem ficar indiferentes. A Igreja deve dar o exemplo de relações fundadas na igualdade e superar posturas patriarcais e misóginas. O protagonismo das mulheres no movimento de Jesus aponta para um discipulado igualitário. Como Jesus, é preciso romper tabus e tradições patriarcais. É hora de acabar com a superficialidade dos serviços de apoio à mulher vítima da violência. Dar um basta à impunidade de agressores acobertados pela ineficiência de um judiciário conservador, rico e machista. É urgente denunciar pessoas como Silvio Santos, que apesar das seis filhas, há tempos ofende as mulheres e o pior, em tom de ironia. Cadeia para maridos, comunicadores, políticos, empresários, pais, vizinhos, irmãos, filhos, para todo e qualquer agressor(a).

Ninguém tem o direito de mandar a mulher calar a boca. Sua voz é o que nos salva. Ela não é um objeto bonito feito para ser abusado, humilhado, agredido. Não há homem ou mulher, somos humanos e não devemos sofrer violência alguma. Somos iguais diante de todos, de tudo, de Deus! (Gal 3,28). Não reconhecer essa verdade é prova de ignorância. Qual é o grau de racionalidade de um homem que trata a mulher como objeto? Sua estupidez se revela sempre que levanta a mão e a voz agressivamente. Ferir uma mulher é ferir toda a humanidade representada nela. Não só. O próprio Deus é agredido em cada bofetada, empurrão, grito e humilhação. Homem e mulher são criados à sua imagem (Gn 1, 26-27). A humanidade deve sua existência ao ventre de uma mulher.

“Está preso! O agressor está preso!” Que a frase seja dita pela polícia de todo país, 24 horas, sete dias por semana. A culpa nunca é da vítima.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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