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19/09/2017 | domtotal.com

A morte do telejornalismo no Brasil?

Vale a pena olhar com mais atenção os programas diários de notícias que cada emissora coloca no ar.

O Jornal Nacional é o que mais omite e finge informar.
O Jornal Nacional é o que mais omite e finge informar. (Reprodução)

Por Alexis Parrot*

Assistir ao documentário Best of Enemies (Melhores Inimigos, de 2015) é um enorme prazer mas, antes de tudo, uma contribuição inestimável para que possamos entender melhor do que se trata a TV e o lugar do telejornalismo neste cenário.

O filme conta o memorável embate em 1968 entre Gore Vidal e William F. Buckley Jr. durante a cobertura jornalística das convenções para definir os candidatos a presidente, tanto do partido democrata quanto republicano.

Os dois intelectuais, um de esquerda e o outro da direita, fizeram história em nove debates levados ao ar pela rede de TV ABC. Mesmo que a rivalidade entre eles tenha durado por toda a vida, a noção do papel do comentarista no telejornalismo nunca mais foi encarada da mesma maneira. 

Depois desta verdadeira aula, vale a pena olhar com mais atenção os programas diários de notícias que cada emissora aberta coloca no ar durante a programação noturna.  

O Repórter Brasil, da TV Brasil, ainda consegue ser o mais abrangente entre todos os telejornais, com matérias diárias feitas por emissoras parceiras de norte a sul do país. Ironicamente, a emissora pública que nos idos de sua fundação era chamada de "a TV do Lula", não é mais a mesma no que diz respeito a pautas. Se durante os anos em que o PT governou o país era comum ver em seus telejornais matérias críticas ao governo, hoje em dia  seu jornalismo instalou-se no terreno da chapa branca e da acefalia crítica. E nem assim é chamada de "TV do Temer". 

E não custa lembrar do principal clamor dos detratores de antanho do canal: a baixa audiência. Esta continua mais baixa do que nunca e a TV Brasil, infelizmente, cada dia mais irrelevante, de maneira geral. O programa de debates LGBTQ Estação Plural ainda segue no ar, mas o poderoso Arte do Artista, conduzido pelo diretor teatral Aderbal Freire Filho, foi cancelado na primeira oportunidade. 

O Jornal da Cultura ao menos anda menos paulistano, porém, privilegia a opinião sobre o jornalismo; este o seu maior pecado. Na edição de ontem fomos brindados - como de costume - com as pérolas de Marco Antonio Villa, o bobo da corte da direita de Pindorama. Já na primeira intervenção, nos ofereceu uma informação truncada sobre o fato do Brasil abrir anualmente a Assembleia Geral da ONU. 

Para o historiador, a moda começou com Figueiredo, apesar da tradição remontar a 1949, quando Oswaldo Aranha, então ministro das relações exteriores, incumbiu-se da missão. O que Villa quis dizer é que o militar foi o primeiro presidente brasileiro a despencar até Nova York para discursar. Entre o que disse e o que quis dizer, há uma boa distância. Por descaso ou ignorância, a afirmação não mereceu qualquer adendo ou pedido de esclarecimento vindos do apresentador e diretor de jornalismo da TV Cultura Willian Corrêa.

Aliás, merece destaque a simpatia excessiva do jornalista: diverte-se além do devido à frente do noticiário e intervém de menos nas falas dos comentaristas - estes, em última análise acabam sendo daquele tipo que por querer ser especialista em tudo, acaba por vezes dando bom dia a cavalo. (Villa é o exemplo mais estrepitoso dessa prática que é também ideológica, como todo o conteúdo do jornal.) 

O outro comentarista da noite de ontem, o advogado Airton Soares, bem mais sóbrio que o companheiro de pitacos, também cometeu seu deslize político: ao criticar Temer por não ter nomeado o candidato mais votado dentro do Ministério Público para a Procuradoria Geral da República, disse que há muitos anos a escolha dos presidentes tem seguido o resultado da votação feita entre os procuradores. A crítica é válida, mas o advogado omitiu que esse costume foi inaugurado por Lula e seguido por Dilma. Villa fez pouco caso do assunto, lembrando que a lei não obriga o presidente a isso.

Fica claro que falar bem de Lula, Dilma ou do PT é tabu no Jornal da Cultura de Alckmin. Não pode e pronto. Até quando o elogio é inevitável, conta-se o milagre mas não o santo.

Na Record, o buraco é mais embaixo ainda, com o jornalismo à mercê de tacanhos pastores da Igreja Universal do Reino de Deus. Foi notícia há um mês atrás que um bispo forçou O Jornal da Record A derrubar uma série (já pronta) sobre os novos pais do Brasil - que incluía solteiros, separados e homossexuais. Não foi a primeira vez que a moral seletiva e retrógrada da congregação de Edir Macedo interferiu na emissora (e nem será a última). Não há outro nome para isso além de "censura".

Evidentemente, o caso mais perigoso de todos é o do Jornal Nacional, da Globo. É o que mais omite e finge informar.

Ao dar a notícia da proibição pela justiça da destruição de provas da operação Castelo de Areia, um esforço conjunto da Polícia Federal e Ministério Público paulistas, preferiu-se não declinar o nome dos políticos ou agentes públicos envolvidos. 

Esta operação, de 2009, é aquela que, entre outras maracutaias, tentou investigar um propinoduto originado nas licitações de obras de metrô de vários estados e contratos do rodoanel de São Paulo. Nesse último caso, o implicado seria o engenheiro Paulo Vieira de Souza, o famigerado Paulo Preto, acusado de ter desviado dinheiro para a campanha de José Serra em 2010. Mais uma vez, prova-se a tese que no Jornal Nacional o tucanato tem tratamento vip. 

O jornalismo da Globo vive mesmo em outro Brasil. Após ignorar solenemente a primeira etapa da caravana de Lula - que levou para a rua milhares de pessoas em nove estados - chega-se à conclusão que para Bonner o nordeste só existe se um repórter da própria emissora for baleado ou na previsão do tempo. 

Sobre o Jornal Nacional e o papel da Globo na política brasileira, vale a pena assistir à edição especial, exibida no início de setembro, do programa The Listening Post, da TV Al Jazeera. O jornalista Richard Gizbert veio ao Brasil para entender melhor a influência ideológica do maior conglomerado midiático da América do Sul. Segundo ele (e coberto de razão), o verdadeiro poder no país. 

Na contramão do que disse o escritor norte americano Geoffrey Ward, que "jornalismo é apenas o rascunho da história", o grupo Globo no futuro será obrigado a mais uma vez pedir desculpas ao público (e à história) - como já fez no caso do apoio ao golpe militar de 64. Para o episódio da edição do debate entre Collor e Lula no segundo turno da eleição presidencial de 89, ainda estamos esperando um "mea culpa". 

No meio de tanta parcialidade, há porém, um laivo de esperança: o Jornal da Band. Conduzido com seriedade por Ricardo Boechat, é o jornal que, além de apresentar um maior número de notícias, faz isso de maneira clara e inteligente. 
De todos os telejornais é, de longe, o que traz a melhor cobertura política - dando nome aos bois e com a isenção que falta a todos os outros jornalísticos da nossa TV aberta. Até o uso da meteorologia é pensado para ir além da óbvia previsão do tempo.

Aqui não há espaço para graçolas, o serviço de utilidade pública está presente (como na matéria exibida nesta segunda sobre o lançamento de planos populares de saúde e o risco que o consumidor corre com eles), além do posicionamento crítico do âncora sempre que necessário. É um dos únicos jornalistas na televisão que questiona abertamente as opiniões sempre sectárias de Gilmar Mendes, por exemplo.

A postura de Boechat é exemplar e serve também como antídoto para aqueles que, como Zezé de Camargo, se acham muito "politizados". Em depoimento a Leda Nagle, em seu canal no Youtube, o sertanejo afirmou (entre outros absurdos) gostar de ver várias versões da mesma notícia: primeiro no Jornal Nacional, depois na Globonews. Piada pronta e de mau gosto.

(- Best of Enemies - direção de Morgan Neville e Robert Gordon: disponível no Netflix;

- The Listening Post, da TV Al Jazeera - edição sobre a influência do grupo Globo na política brasileira: disponível no canal do Youtube da Rede Mídia Ninja.)

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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