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20/09/2017 | domtotal.com

Não é a lógica, estúpido, é o afeto

O relato de entrega, afeto e coragem me comoveram.

E só faz sentido se houver troca de afeto.
E só faz sentido se houver troca de afeto. (Reprodução)

Por Pablo Pires Fernandes*

Embora clara, a noite estava confusa. Regularmente, alguma voz indesejada interrompia nossa conversa sobre música brasileira. A premissa inicial era a constatação da passagem do tempo, pois lembramos de episódios de mais de 20 anos atrás, dos amigos, vivos e mortos. Os dois estavam felizes com os cabelos brancos e de estar envelhecendo, mais sábios e com menos certezas.

Mudávamos de assunto sem qualquer pudor e não sei bem precisar como o tema passou do último show do Itamar Assumpção em Belo Horizonte para a cidade de Itabirito e foi parar em uma confissão paterna. Neste caso, a lógica não importava.

Importante - e isso ficou gravado na minha memória - foi o relato de um pai dizendo que a filha, aos 16 anos, tinha se mudado para Itabirito e se apaixonado por uma mulher de 33 anos. A coragem da entrega dela me causou admiração e certo espanto diante de tamanha maturidade.

Ouvir aquilo do pai, no entanto, era ainda mais surpreendente. “Foi muito bonito ver minha filha, naquela idade, namorando uma mulher com o dobro da idade dela numa cidade do interior de Minas Gerais?.” Eu só conseguia balançar a cabeça e repetir: “Que história mais linda!”. Depois, disse-me suspeitar ter sido a filha quem tomou a iniciativa do romance e que, agora, anos depois, aquela negra de Itabirito lhe parecia muito mais livre com a própria sexualidade. “Ela me telefonou hoje, nos tornamos ótimos amigos.”

O relato de entrega, afeto e coragem me comoveram. Parecia-me algo incomum e uma história de beleza singular. Em um momento de pausa tabagista, porém, achei minha comoção ridícula e fiquei pensando sobre as gerações e as mudanças nas formas de manifestar o afeto. Apesar de minha admiração àquela entrega, questionei-me se eu não estaria interpretando aquilo tudo com uma lógica de outros tempos. Afinal, era apenas afeto.

Depois, olhei à minha volta. As vozes confusas e emaranhadas da noite justificavam o motivo do meu espanto. Lembrei-me das manchetes dos jornais e me entristeci. Como é possível interferir no afeto, na beleza libertária de se apaixonar?

Olhei para aquele pai que tinha me revelado a intimidade de sua família com cumplicidade. Foi redentor perceber que seu olhar estava livre de amarras, assim como a entrega de sua filha.

Voltei a pé para casa pensando que viver é bom, nas curvas da estrada, solidão que nada, viver é bom. E só faz sentido se houver troca de afeto.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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