Religião

22/09/2017 | domtotal.com

A cozinha e a mesa como alegorias da salvação: uma leitura de A festa de Babette

A experiência humana, por isso cristã, acontece "em banquete", "ao redor da mesa", em "restaurante" (lugar de restauração, eu diria, de salvação).

A salvação passa pela profusão de sabores, cheiros e beleza culinária.
A salvação passa pela profusão de sabores, cheiros e beleza culinária. (Reprodução)

Por Rodrigo Ladeira*

Acabo de “ver” o saboroso filme dinamarquês A festa de Babette  (1988), dirigido por Gabriel Axel. Trata-se de uma adaptação de um dos contos mais célebres da escritora dinamarquesa Karen Blixen (pseudônimo de Isak Dinensen). Mais do que o cenário religioso onde a trama acontece, são a cozinha e a mesa as fundamentais protagonistas da trama.

O filme traz à baila a questão da “construção” de identidades, formatadas sob a égide do discurso religioso do final do século XIX, tecido na contramão de perdas afetivas, historicamente acumuladas, como se pode escutar na voz (diga-se, uma voz feminina, a despeito da total ausência da figura materna na trama) in off, na primeira cena do filme que se passa num lugarejo chamado Jutlândia, situado ao norte da Dinamarca. Ali vivem Philippa e Martine, apresentadas no início do longa-metragem como duas senhoras de meia idade. Na juventude elas são duas beldades, que a película faz lembrar em flashback. Filhas de um pastor e fundador de uma seita muito respeitada na região, considerado um “profeta”, cujo nome é celebrado anualmente. Nessa vila de pescadores, as “filhas do pastor-profeta” vivem como benfeitoras de idosos e inválidos que não têm mais condição de auto-sustento. Parecem saber que é ali o lugar onde deveriam estar. Mas logo se observará que, obscurecidas e limitadas pelas teses de seu pai-profeta, as irmãs não vislumbravam o alto preço afetivo que estavam pagando em vista dos preceitos que as guiava. Só uma estrangeira (além de outros personagens forasteiros secundários, como é o caso do general e do tenor), a “empregada” francesa Babette, com um gesto (sacramento) de mesa reconduzirá ao sentido último da existência humana, que se dá extramuros das paredes monocolores (aliás não é por acaso que as casas do vilarejo são acinzentadas) da religião.

A festa preparada por Babette é não só o clímax temporal mas também o lugar onde, pelo paladar, apesar dos interditos (pseudo) religiosos sobre o banquete que será oferecido por Babette, a essa altura da trama considerada uma espécie de bruxa, os dramas do passado e suas tensões se dissolvem como o sal e o açúcar que se perdem na cocção dos alimentos.

Para “salvar” é necessário “destruir”. Como para cozer é necessário cortar, amassar, misturar, ralar, assar, ferver, modificar... para restaurar, para fazer restaurante. É nada mais do que uma possível tradução (de alguma maneira uma traição do nosso discurso racionalista) do “perder para ganhar” das Escrituras Cristãs. A salvação passa pela profusão de sabores, cheiros e beleza culinária. Este nosso texto é uma tentativa teológica de aproximação da vida cristã a partir da comensalidade, lugar de expressão simbólico-poética das utopias da fé em Cristo, aquele que foi considerado um “comilão e beberrão” (cf. Mt, 11,19).

O filme de Axel traduz a redenção humana e sua transcendentalidade em cotidiano, onde o aqui se mostra também num além. Aqui, a via preferida não é a da experiência puramente religiosa, entendendo religião como “o que se considera dever sagrado, obrigação” (cf. Dicionário virtual Aulete) onde se vive pelo tolo cumprimento de regras e ritos.

É pela mesa, ao deixar-se perder prazenteiramente nos sabores e temperos de uma estrangeira, que o verdadeiro sentido, que não pode ser captado pelo mero exercício racional ou por simplória obrigação de uma lei exterior, que se refaz o que havia sido desfeito, agora em goles e garfadas de sabores exóticos (um fora-dentro ou dentro-fora), apesar das resistências dos convivas, muito acostumados a uma dieta insossa, que é metáfora da própria vida que se vivia naquela pequena vila.

A experiência humana, por isso cristã, acontece “em banquete”, “ao redor da mesa”, em “restaurante” (lugar de restauração, eu diria, de salvação). É convívio, festa, celebração, feito de pão, o pão-palavra (cf. Ap 10,9) e o pão-gesto (cf. Lc 22,15) que cria, em simbólica, novas ou renovadas relações. Como os convivas da mesa de Babette, que gastou toda sua pequena fortuna (pouco mais R$ 32 mil), conseguida com um bilhete de loteria, para servir a ceia não só da lembrança do pai-profeta de Philipa e Martine, mas o banquete restaurador, porque profuso, da ordem extraordinariamente cotidiana.

No final do filme, depois do fausto banquete e de observarem os convivas cantando de mãos dadas ao redor de um poço (imagem de reconfiguração das identidades, agora lépidas e festeiras), Philippa diz à sua irmã: “As estrelas estão mais próximas”, ao que Martine acrescenta: “Talvez se aproximem um pouco mais todas as noites”. Elas então entram na casa para o arremate fabuloso que fará reinventar a ilogicidade do mistério da vida.

Na desordem da cozinha depois da festa, abarrotada de garrafas vazias, panelas e louças usadas, restos de comida, e diante da exaurida Babette, as irmãs plenificadas e salvas de si mesmas, “compreenderão sem compreender” que para viver é fundamental fogo transformador, mãos capazes de servir novos sabores, vida entregue. “Um artista nunca é pobre. [diz Babette] (...) Por todo o mundo ressoa o grito do coração do artista: deixem-me fazer tudo o que eu seja capaz”. Na cozinha de Babette e porque não nas nossas próprias, encontramos a alegoria da própria vida “pois distingue-nos uma certa capacidade de viver na transformação, numa mobilidade que não é só geográfica, mas total. (...) Por isso está desarrumada tantas vezes, porque vive nessa latência de recomposição. Na cozinha torna-se claro que a transformação que damos às coisas reflete aquela que acontece no interior de nós.” (TOLENTINO, Leitura Infinita, p. 175).

“Antes de comer o homem tem duas almas. Depois de comer o homem tem uma alma” (Talmud, cf. Idem, p.174). É impossível um Deus, cheio de humanidade-divindade, que não passe pelo sabor.

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*Rodrigo Ladeira é Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) / BH-MG. Coordena as atividades de educação continuada e pós-graduação lato sensu dessa mesma IES. Ensina Liturgia e Sacramentos em vários cursos livres e de especialização teológica em Belo Horizonte-MG.

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