Religião

22/09/2017 | domtotal.com

O labirinto do Fauno, uma leitura iniciática da vida

O roteiro e as imagens de 'O labirinto do Fauno' são bastante sugestivas para uma abordagem leve e ilustrativa de um desafio sempre presente à Igreja, iniciar à fé.

O fauno é um verdadeiro mistagogo. Ele reconhece a dignidade daquela que inicia, sem, contudo, lhe poupar nada da sua tarefa.
O fauno é um verdadeiro mistagogo. Ele reconhece a dignidade daquela que inicia, sem, contudo, lhe poupar nada da sua tarefa. (Reprodução)

Por Danilo César*

O filme espanhol-mexicano, “O Labirinto do Fauno” (2006), do diretor Guillermo Del Toro, narra a história de Ofélia (Ivana Baquero) e de sua mãe grávida e doente, Carmen (Ariadna Gil), no tempo do pós-guerra civil espanhola, em pleno regime da ditadura franquista. Ambas chegam ao vilarejo, onde Carmen, a mãe de Ofélia se casará com o capitão das tropas fascistas, Vidal (Sergi López), em luta contra os rebeldes escondidos nas montanhas. Na casa, Ofélia faz amizade com a governanta Mercedes (Maribel Verdú), que também é uma rebelde infiltrada para garantir suprimentos, remédios e informações para os seus correligionários e combatentes da floresta.

O filme transporta os espectadores para essa dura realidade com uma fotografia sombria que recorda as pinturas mais atormentadas de Goya. O efeito visual é perfeito para apresentar o mundo real, violento e assustador por onde Ofélia transita e é obrigada a se instalar. Mas a tarefa do expectador é aliviada pelo mundo imaginário e paralelo criado pela menina. A partir de seu encontro com um ser mitológico, o fauno, supreendentemente interpretado pelo ator Doug Jones, se desencadeia um precioso jogo que põe em paralelo a realidade e a fantasia, o mundo produzido por Ofélia e o mundo resultante das ações do seu padrasto, o capitão Vidal, os seres mitológicos e a monstruosidade real da sociedade desumana e brutal do fascismo espanhol. Este pequeno ensaio propõe uma abordagem da obra a partir do tema iniciático, insinuado por alguns de seus elementos fundamentais presentes no filme.

O Fauno

O fauno é um ser imaginário, metade humano (membros superiores), metade bode (membros inferiores), presente na mitologia greco-romana, muitas vezes representado com chifres, coroa de ramos e uma flauta. No filme, a caracterização desse personagem é bastante particular: tem a pele recoberta de musgos e árvores e está situado entre dois mundos, o mundo de Ofélia, que visita e o reino escondido, para onde seduz Ofélia com seus desafios. O fauno se apresenta à menina no labirinto e, dali, passa a lhe oferecer artefatos para que cumpra suas tarefas a fim de adentrar no reino de seu pai. A personalidade do Fauno é enigmática. Ele oscila entre o amigo que encanta a menina, reconhecendo-a e declarando-a uma princesa do reino, mas ao mesmo tempo, com um perfil ardiloso e até insidioso, sugerindo pelos trejeitos do personagem e da preciosa interpretação, a introduz em situações arriscadas e perigosas. Como proponente cioso das tarefas que a transportarão ao reino subterrâneo, o fauno chega a ficar furioso quando algo contraria o seu roteiro. Ao final, contudo, acaba se revelando um fiel servidor do reino, onde a menina é recebida como herdeira do rei e como vitoriosa protagonista.

O fauno é um verdadeiro mistagogo. Ele reconhece a dignidade daquela que inicia, sem, contudo, lhe poupar nada da sua tarefa. Contudo assiste-a com suas advertências, instruções e seus artefatos: o giz, o livro, a mandrágora, a chave... Dá-lhe também três fadas para que a acompanhem e para que não cumpra sozinha suas tarefas. Em momentos oportunos ele aparece para sinalizar o progresso e intensificar a busca de sua escolhida. As provas fazem que o melhor da menina apareça, no meio das dúvidas, erros e acertos, até o momento de ser inserida no reinado de seu pai, por meio da grande prova que lhe permitirá passar pelo portal do labirinto. Curioso é que o fauno não entra no mundo fantástico de Ofélia, apenas a visita em seu mundo real. Ao final do filme, percebe-se a qual mundo ele pertence.

Os mundos em paralelo

O filme é constituído de três mundos: o mundo dito “real”, onde predomina o caos, a violência e maldade humanas. Povoado de pessoas humanamente frágeis, este mundo real é inadequado para Ofélia. Nele ela é destituída de seu pai, de sua mãe e de sua infância. Ela encontra em seu caminho apenas algumas pessoas que lhe oferecem parcial apoio: a mãe que está muito enferma e grávida, Mercedes, a governanta, que age secretamente em favor dos rebeldes e contra o capitão Vidal e que, de certo modo, faz paralelo com a menina, pois também transita entre submundos dos rebeldes e dos fascistas. Os demais estão aprisionados ao mundo desordenado e caótico da realidade: as tropas e os empregados que fazem funcionar a casa e a guerra, os rebeldes que lutam belicamente contra o domínio do malvado capitão, os aldeões que são vitimados pela maldade e pela miséria, os convidados do jantar que retratam a sociedade conivente com o sistema opressor. O malvado capitão Vidal encarna aquele que destitui a todos daquilo que são e daquilo que possuem, relegando-os à sua subserviência.

O mundo fantástico de Ofélia é cheio de seres imaginários: três fadas, um sapo gigante, um monstro canibal, lugares escusos e só acessíveis mediante o livro, o giz e o esforço da menina. É um mundo perigoso, que no fundo retrata miticamente e traduz o mundo real com o qual está amalgamado. É nesse mundo que Ofélia entra e cumpre suas tarefas para alcançar o reino e reordenar sua vida, superando o mundo real. Mas é um mundo transitório, aonde ela adentra e donde retorna. Para entrar neste mundo, Ofélia se despe e se arrisca de modo voluntário e livre: é ela mesma quem faz seu despojamento para alcançar seus objetivos. Existe por fim, o mundo do reino secreto, protegido pelo labirinto. Nele, a menina entra depois de sua prova final. É um mundo desconhecido, contudo ordenado e acolhedor. A ele pertence o fauno, o rei e a rainha, os súditos que a acolhem festivamente e Ofélia que é recebida depois de cumprir as suas provas. Mas este mundo novo lhe restitui, com todas as honrarias, sua dignidade de princesa, isto é, de herdeira do reino.

As provas

As provas não têm valor em si mesmas. Elas visam o aprimoramento de Ofélia e o acesso ao mundo do reino. Esse aprimoramento, tem a ver com sua essência de princesa e herdeira do reino. As provas então revelam e manifestam essa identidade ainda embrionária da menina e sua pertença ao mundo derradeiro. Suas vestes lhe são restituídas quando nele adentra e sinalizam uma mudança operada pelas provas. Neste sentido, Ofélia sofre a chamada “mutação ontológica”1, que as etapas e provas desencadeiam em si. Mas não se trata de algo cruel ou desnecessário... são as provas que qualificam a menina para o acesso ao reino. São elas que lhe agigantam e lhe amadurecem. Ora tida pela mãe como teimosa e pelo padrasto como mimada, tem do fauno outra apreciação: ele vê na menina o seu valor, quando a reconhece sua pertença ao reino e quando lhe dá as provas, por confiança e como desafio.

A menina Ofélia, a princesa

Ofélia migra de uma situação de dependência e submissão de sua mãe e, indiretamente, do padrasto, para a condição de autonomia, sendo capaz de atitudes nobres. De fato, ela é transformada à medida em que realiza o trânsito entre os mundos. E não faz o processo de modo autocentrado e egoísta: resiste à maldade do padrasto, sem reproduzi-la e mantém sempre a meta de cumprir suas tarefas, não obstante as dificuldades e demandas do mundo real. Preocupa-se com a saúde da mãe e do irmão que está por nascer. Está no extremo oposto do capitão Vidal. Enquanto este está retido no mundo real e sombrio e retém a outros, Ofélia transita livremente entre os dois mundos, o real e o imaginário e, ao final e definitivamente, ao mundo do reino do seu verdadeiro pai. No fim, já tendo perdido a sua mãe, Ofélia experimenta a prova maior de dar voluntariamente a sua vida pelo irmão recém-nascido. Ou seja, em meio à crise e à desordem do mundo real e achando-se órfã de também de mãe, Ofélia é ainda capaz de doar-se voluntariamente, a fim de proteger o menino do nefasto pai.

O labirinto

O labirinto é, no filme, um portal para o reino escondido. Como símbolo ele sempre representou as buscas humanas, a orientação no caminho da vida, o procurar e o encontrar-se, mas também o perder-se. Na antiguidade grega, entrar no labirinto mais famoso da mitologia era uma aventura perigosa: além do risco de perder-se, o labirinto de Tebas mantinha preso o Minotauro, outro ser mitológico monstruoso que caçava os prisioneiros ali lançados. Em muitas Igrejas o labirinto encontra-se entalhado na entrada ou no piso da Igreja. É uma referência à busca espiritual que todos empreendem na vida, comportando os riscos e os sucessos daqueles que nela adentram. No filme, o labirinto é o destino final de Ofélia e Vidal. Mas esse labirinto apenas espelha o enredo do filme que dispõe os personagens em permanente busca. Enquanto alguns se perderam, outros se encontraram. Paradoxalmente, tanto Ofélia quanto o capitão morrem. Contudo, a única capaz de transitar entre os mundos é a menina. Como se dispõe a morrer pelo irmão, sua morte é seu trânsito, sua última prova, sua passagem para o reinado que lhe aguarda. Já o capitão Vidal, morre sem poder voltar para o mundo real e sem encontrar saída para a sua existência confinada no mundo da desordem e da morte. Ele é prisioneiro de si mesmo, seu labirinto sem saída...

Um instrumento

O filme não é apenas materialização artística passível de uma interpretação iniciática, ou de tantas outras abordagens. É também uma prova de que a sociedade e a cultura atuais portam elementos muito atentos a coisas que andamos ignorando, e que são riquezas da fé e da tradição eclesial. Neste sentido, o filme “O labirinto do fauno” pode se converter em um precioso instrumento de formação e de capacitação de agentes pastorais da Iniciação Cristã. Seu roteiro e suas imagens são assaz sugestivas para uma abordagem leve e ilustrativa de um desafio sempre presente à Igreja, iniciar à fé. Essa tarefa tão exigente, quanto apaixonante, requer nossa capacidade de reler o processo iniciático e a existência com a mesma chave, pois a iniciação é parte da vida, nela se inspira e para ela converge.

Pode também ser tomado como um questionamento do nosso modo de iniciar à fé. E talvez seja um pouco incômodo falar disso, pois a preocupação em manter as igrejas cheias, tem levado à renúncia, ou à negligência dos mecanismos iniciáticos, pois ainda acredita-se que facilitando as coisas se conseguirá deter a deserção e reter fiéis. Os resultados têm sido pífios... Não que o contrário disso seja uma solução. Não se trata, por exemplo, de simplesmente impor dificuldades, ou de cumprir um programa ritual, ou mesmo de introduzir novos ministérios, tarefas, ideias. Isso não passaria de um modismo. Trata-se de uma concepção a ser transformada. Talvez precisemos de uma corajosa conversão pastoral que inclua mudança de mentalidades, de posturas e práticas. Talvez tenhamos de nos dispor a entrar num labirinto, dispostos a buscar e a perder, para encontrar o portal do Reino.

1 - A expressão refere-se à mudança da pessoa que ocorre nos processos iniciáticos. A ideia sugere que o iniciando entra um e sai outro, transformado. Em muitas religiões as trocas de nomes, roupas, corte de cabelo, incisões no corpo e tatuagens sinalizam essa transformação. Ao processo de iniciação que ainda perdura na Igreja, convém perguntar sem medo: as pessoas que adentram em nossa iniciação estão sendo transformadas?

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* Padre Danilo é presbítero do clero da Arquidiocese de Belo Horizonte. Formado em Liturgia pelo Pontifício Instituto Litúrgico, Santo Anselmo, em Roma. Professor de Liturgia na faculdade de teologia da PUC Minas e membro da Comissão Episcopal para a Pastoral Litúrgica da CNBB e do Regional Leste II. Membro da Celebra, Rede de Animação Litúrgica e Pároco da Paróquia de Santana, em Belo Horizonte.

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