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22/09/2017 | domtotal.com

Patrulha Ideológica

Quanto agressividade, quanta injustiça, quanta deformação amalgamam a somatória desses tristes episódios recentes.

Como se sabe, ambientes contaminados assim são propícios à proliferação da praga.
Como se sabe, ambientes contaminados assim são propícios à proliferação da praga. (Reprodução)

Por Eleonora Santa Rosa*

Os acontecimentos nas últimas semanas envolvendo a condenação de trabalhos artísticos, a “inspeção” de exposições, a suspensão de mostras, a censura a peças e performances, a autocensura por parte de instituições e organizações que deveriam, ao contrário, por suas atribuições e essência de constituição, cuidar e difundir o direito à livre manifestação, à circulação de idéias e à criação artística, apontam para a emersão do revanchismo das ‘‘vivandeiras’’ histriônicas, viúvas de golpes, que, com suas garras afiadas e ausência de massa crítica, vociferam em nome da “preservação” dos valores da família, da pátria e da sociedade.

Esse tipo de manifestação, crescente e ainda mais preocupante em meio à avalanche de denúncias de corrupção, de falência dos partidos e da representação congressual, ganha a cada dia contornos gravíssimos decorrentes das altas taxas de desemprego, da frustração cotidiana por melhores condições de subsistência e do ressentimento pela  ausência de oportunidades. Como se sabe, ambientes contaminados assim são propícios à proliferação da praga do canto da sereia do pastoreio mercantil e da exploração da boa fé de incautos, dando luz, voz e vez aos falsos moralistas, aos pudicos de araque, aos reacionários de fatiota variada, que amam destilar, em público, seus princípios impregnados de preconceito, sua incultura disfarçada na histeria calcada na desinformação e na distorção de fatos e acontecimentos retirados de seu contexto original, vilipendiados em seus propósitos basilares.

Quanto agressividade, quanta injustiça, quanta deformação amalgamam a somatória desses tristes episódios recentes, que atestam a infindável extensão da ignorância mesclada à mediocridade, ao autoritarismo, ao puritanismo repressor, expressões de um momento triste da história brasileira, de inflexão, com forte capacidade de estragos e rupturas.

Em hiatos assim é ainda mais essencial ressoar a força da Arte e da poesia, como esta, de Affonso Ávila:

  patrulha ideológica

 te alerta poeta que a p/i te espreita
          desestruturou o discurso e embaralhou as letras
 te aleart paeto que o pc te recrimina
          barroquizou a linguagem e descurou da doutrina
 te alaert peota que o sni te investiga
                    parodiou o sistema e ironizou a política
 te alaret poate que o women´slib te corta o genitálio
          glosou o objetou sexual e teve orgasmo solitário
 te alerat peato que a puc te escanteia
          foi tema de mestrado e não quis compor  mesa
 te areta petoa que a cb não te reedita
          gastou muito papel e pouco sangue na tinta
 te alrate petao que a abl te indexa
                    fez enxertos de inglês e sujou a água léxica
 te arealt patoe que a cnbb te exorciza
          macarronizou o latim e não aprendeu a nova missa
 te alatre potae que o esquadrão te desova
                    traficou palavrinha e não destruiu a prova
 te atrela ptoea que o doicodi te herzoga
          suspeito sem suspeição e enforcado sem corda

i must be gone and live                          or stay and die

*Jornalista e ex-secretária de Cultura de Minas Gerais.

EMGE

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