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25/09/2017 | domtotal.com

Ultradireita alemã quebra tabu com avanço eleitoral histórico

Apontado como uma 'vergonha para a Alemanha', há poucas possibilidades integrar o governo.

"Pela primeira vez em 70 anos, nazistas vão se expressar no Reichstag", criticou antes das eleições o ministro das Relações Exteriores. Foto (OHN MACDOUGALL/AFP/Getty Images)
"Pela primeira vez em 70 anos, nazistas vão se expressar no Reichstag", criticou antes das eleições o ministro das Relações Exteriores. Foto (OHN MACDOUGALL/AFP/Getty Images)
Alexander Gauland, do partido de ultradireita AfD, no dia 24 de setembro de 2017
Alexander Gauland, do partido de ultradireita AfD, no dia 24 de setembro de 2017 Foto (AFP)

O partido de ultradireita AfD quebrou um tabu neste domingo com o resultado histórico nas eleições legislativas alemãs, após uma campanha em que radicalizou seu discurso.

Esse movimento anti-islâmico e anti-imigrantes, nascido há apenas quatro anos, obteve cerca de 13% dos votos, segundo pesquisas de boca de urna, e contará provavelmente com até 89 deputados no parlamento (Bundestag).

"Vamos mudar este país", disse um de seus líderes, Alexander Gauland, minutos depois da divulgação das últimas pesquisas. Haverá "uma caça" -disse, contra Angela Merkel.

Os demais partidos convergem em apontá-lo como uma "vergonha para a Alemanha" e há poucas possibilidades de que a formação integre o próximo governo, que será, sem dúvida, governado novamente por Merkel.

Outra das líderes do partido, Alice Weidel, se concentrou em objetivos de médio prazo, como o de "estar em condições de governar a partir de 2021".

- Mudança histórica

A chegada à câmara dos deputados da AfD, que em 2013 não chegou a 5%, é uma mudança na história alemã do pós-guerra.

"Pela primeira vez em 70 anos, nazistas vão se expressar no Reichstag", criticou antes das eleições o ministro das Relações Exteriores, o social-democrata Sigmar Gabrielo, referindo-se ao edifício onde funciona a câmara baixa do parlamento.

A Alemanha, devido a seu passado nazista, foi durante muito tempo um dos poucos países europeus a não ter tido um movimento anti-imigrantes em atuação, ao contrário de vizinhos como França, Holanda e Áustria.

A AfD, apesar do conflito entre seus dirigentes, aproveitou o descontentamento por parte da sociedade alemã pela chegada de mais de um milhão de solicitantes de refúgio, em 2015 e 2016, como consequência de uma decisão tomada por Merkel.

Embora alguns ex-nazistas tenham sido eleitos deputados no Bundestag até os anos 1980, o que acontece agora "é um corte histórico", estima o historiador Michael Wolffsohn. "Pela primeira vez, um partido muito à direita do centro e em alguns aspectos de extrema-direita será representado no Bundestag", destaca.

A AfD, que estimula o medo aos imigrantes, sobretudo muçulmanos, está muito presente nas redes sociais e contratou a mesma agência de publicidade americana que colaborou com Donald Trump no passado.

Parte do partido quer se aproximar do Frente Nacional (FN) francês e do FPÖ austríaco, e desde a sua criação tem radicalizado o discurso.

- "Islamização crescente"

Durante esta campanha Alexander Gauland denunciou uma "islamização crescente da Alemanha". Este ex-militante da CDU de Merkel, de 76 anos, afirma que o islã não é uma religião, e sim uma "doutrina política", e que o terrorismo tem "suas raízes no Corão".

Seus simpatizantes muitas vezes interromperam os encontros da chanceler com vaias e gritos, principalmente na ex-RDA (Alemanha oriental).

"A república vai mudar", prevê o cientista político de Düsseldorf, Fabian Virchow, entrevistado pela AFP.

"No Bundestag vamos assistir a um endurecimento dos enfrentamentos verbais. Os outros partidos vão se inclinar um pouco para a direita em temas como a ordem e a segurança", opina o pesquisador.

Parte de seus dirigentes lançam mão de um vocabulário nazista, chamando Angela Merkel de "traidora da pátria, por exemplo", e questionando o consenso dos alemães sobre o arrependimento histórico.

Gauland não hesitou em que exaltar "o desempenho dos soldados" do exército de Hitler, e alguns candidatos fizeram comentários revisionistas.

A AfD é favorável à saída da Alemanha da zona do euro e defende uma postura tradicional sobre a família. Também pede a anulação do Acordo de Paris sobre o clima.


AFP

EMGE

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