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Religião

12/10/2017 | domtotal.com

Maria, Imagem da Igreja: vocação e missão

Como Maria, cada membro da Igreja deve viver para o Cristo afim de encontrar uma vida plena de felicidade e significado.

Iniciam-se as semelhanças entre Maria e a Igreja na sua vocação materna.
Iniciam-se as semelhanças entre Maria e a Igreja na sua vocação materna. (Pixabay)

Por Fábio Cristiano Rabelo*

O Concílio Vaticano II coloca Maria, virgem e mãe, como modelo da Igreja por causa do dom e cargo da maternidade divina que a une com seu filho redentor e pelas suas graças e prerrogativas singulares (LG 63). Muito antes disso, porém, o bem-aventurado Isaac, abade do mosteiro de Stella, afirmou que o que se atribui de modo geral à Igreja, aplica-se particularmente à virgem Maria e o que se atribui especialmente à Maria pode-se com razão aplicar de modo geral à Igreja e que quando o texto se refere a uma delas pode ser aplicado indistinta e indiferentemente a uma e à outra. Mas quais são as semelhanças entre Maria e a Igreja?

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Iniciam-se as semelhanças entre Maria e a Igreja na sua vocação materna. Maria, em primeiro lugar, concebe o Cristo pela fé. Depois, recebe o filho de Deus na carne, dando à luz a cabeça da Igreja. A Igreja concebe o corpo de Cristo, ou seja, seus membros. Cada fiel é membro de Cristo que o concebe no Batismo ao morrer para o pecado e nascer para a graça. Assim é gerado o Cristo total, cabeça e corpo para a salvação do mundo.

Também, Maria e a Igreja são virgens. A virgindade não consiste em uma marca biológica, pois São Leão Magno afirma o nascimento de Cristo como consagração da virgindade de Maria e não sua violação. A virgindade de Maria indica sua pertença única ao Filho que concebeu. Todo o sentido e finalidade de sua vida está no Cristo que um dia carregou em seu seio. Assim também deve ser a Igreja. Somente um amor e um projeto de vida deve haver em seu coração: o amor a Cristo e o projeto de anúncio do Reino de Deus. Como Maria, cada membro da Igreja deve viver para o Cristo e morrer Nele a fim de encontrar uma vida plena de felicidade e significado.

Maria cresceu e amadureceu enquanto caminhava neste mundo. Cometeu erros, mesmo não tendo pecado. Nunca se afastou de Cristo, mas sofreu para entender sua mensagem. Quando Jesus tinha 12 anos, conforme o relato de Lucas, seu coração recebeu a informação de que Jesus era Filho de Deus, ou seja, não era algo que ela possuísse ou pudesse proteger para sempre. Também, no Evangelho de Marcos (Mc 3,21.31-35), Maria tenta salvar a vida de Jesus. Só que isto era contrário à missão do Cristo que devia manifestar o Reino de Deus entre nós. E, assim, ele declarou que sua mãe e seus irmãos são aqueles que fazem a vontade do Pai. Maria sofreu para entender a missão de seu filho. A Igreja também sofre para entender sua missão como corpo de Cristo. Ao longo da história, comete diversos erros de percurso em função da falta de compreensão de quem é Cristo e, consequentemente, de sua própria identidade.

Está escrito no Evangelho segundo São Lucas que Maria guardava todas as coisas que aconteciam em seu coração (Lc 2,19.51). Todas as grandes experiências com seu Filho permaneciam em seu coração. Trazia consigo todos os momentos de sua vida meditações sobre a Palavra de Deus encarnada. A Igreja deve carregar junto a seu peito as Escrituras que revelam o Cristo. Assim, conforme São Jerônimo, a Igreja adquire intimidade com o Cristo. Cada cristão, membro do corpo de Cristo, deve ter intimidade com as Sagradas Escrituras a fim de ter intimidade com Cristo.

Somente conhecendo o Cristo poderemos fazer sua vontade. Maria teve íntima convivência com ele. A Igreja também possui íntima convivência com ele por meio da Eucaristia. E como Maria nas bodas de Caná, deve dizer a todos para que cumpram a vontade de seu Filho. Cada fiel da Igreja chama o gênero humano a cumprir com a vontade de Cristo ao viver e anunciar o Evangelho. Chama a atenção para quando esta vontade não é cumprida, denunciando os pecados e praticando a justiça. Quando fazemos todas estas coisas como Maria, estamos caminhando com o Cristo até a cruz. Estamos ali com ele, oferecendo nossas vidas pela redenção da humanidade.

Depois que o Cristo foi concebido nela, Maria dirigiu-se às regiões montanhosas onde morava Isabel. A primeira coisa que ela fez ao conceber o Cristo foi estender as mãos aos marginalizados. Não se enganem. Naquela época, ao contrário de hoje, a esterilidade era vista como maldição. Certamente, Isabel devia ser vítima de preconceito por não ter tido filhos. E Maria vai em direção a ela com um canto de esperança. Assim também faz a Igreja por meio de seus membros. São Lourenço identificou a riqueza da Igreja com os pobres, sendo por isso martirizado pelos romanos. Não podemos nos esquecer também de São Francisco de Assis que tinha profundo amor pelos pobres. E não é possível ficar sem falar de São Vicente de Paula que inspirou Frederico Ozanam a fundar a sociedade São Vicente de Paula, que cuida dos mais necessitados. Não se devem esquecer os inúmeros serviços de caridade feitos pela Igreja no mundo pelo decorrer da história.

Também Maria foi perseguida por ser mãe de Cristo. Conforme o Evangelho de Mateus, Herodes, representante dos poderes deste mundo, levanta-se contra o menino Jesus que estabeleceria o Reino de Deus para sempre. Um anjo avisa José para fugirem rumo ao Egito. Maria foi refugiada como tantos hoje o são. Fugiu de sua terra para preservar o seu maior tesouro: o pequeno menino Deus. Deus garantiu sua proteção, mas não a preservou do sofrimento. Assim também a Igreja é perseguida. O Papa Francisco tem sofrido muitas perseguições por anunciar a Palavra de Deus. Constantemente, chamam-no de herege e comunista. A grande perseguição contra a Igreja pode ser vista na figura da misteriosa mulher de Apocalipse 12 que dá a luz ao Cristo e é perseguida pelo dragão. Recebe as asas da grande águia, símbolo da proteção divina, que a conduz para o deserto. Eis a Igreja caminhando no deserto a anunciar o Cristo enquanto as potências deste mundo a perseguem no desejo de manterem as coisas como são.

Maria era uma mulher de esperança. Acreditava que no fim, a justiça seria estabelecida e Deus reinaria. Conforme o canto do Magnificat (Lc 1,46-55), ela aguardava o dia que Deus destronaria os poderosos deste mundo e cuidaria de todos os pequeninos que sofrem e passam necessidade. Esperava o fim das lágrimas e o início de uma vida plena de felicidade e realização. Esta mensagem de esperança deveria preencher o coração de todos os cristãos. Diante do escândalo do mal no mundo, deveria haver a fé de que toda corrupção e malevolência dissipar-se-ão com a vinda da luz do Cristo ressuscitado. Esta é a mensagem que a Igreja deve sempre anunciar. Esta esperança se reforça na assunção de Maria aos céus que a torna modelo e sinal da plena realização da Igreja que caminha nas estradas da vida rumo ao céu.

Assim podem-se perceber algumas semelhanças entre Maria e a Igreja. Contudo, a relação entre Maria e a Igreja não se encerra com sua passagem deste mundo. Ressuscitada em Cristo, ela continua sua missão de uma forma que pouco compreendemos. Uma coisa é certa: ele continua amparando e protegendo seu Filho nos membros de seu corpo. O Cristo total, Cristo e sua Igreja, só podem ser gerados na união entre Maria virgem e a Igreja virginal. Então, aceitemos esta mãe que participa de nossas vidas e nos tornemos criaturas novas em Cristo.

*Fábio Cristiano Rabelo é mestre em Teologia.

EMGE

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