Religião

12/10/2017 | domtotal.com

Piedade Mariana: caminhos e descaminhos

Devoção popular é bem vinda, mas é preciso cuidado para evitar manifestações supersticiosas que aprisionam a pessoa num conjunto de proibições de coisas.

Religiosidade popular tem a incrível capacidade de traduzir a genuína expressão de fé das pessoas simples em manifestações de piedade.
Religiosidade popular tem a incrível capacidade de traduzir a genuína expressão de fé das pessoas simples em manifestações de piedade. (Paulo Pinto/FotosPublicas)

Por Frei Jonas Nogueira, ofm*

Neste mês de outubro, a Igreja Católica no Brasil encerra o ciclo de comemorações pelos 300 anos em que a imagem de Nossa Senhora da Conceição, denominada “Aparecida”, foi encontrada no rio Paraíba do Sul. Concluímos um ano em que recordamos 300 anos de devoção à Mãe de Jesus, ao redor de uma pequena imagem de Maria.

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Depois que os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso deixaram o Porto de Itaguaçu, na cidade de Guaratinguetá, em 1717, carregando pesca abundante, mas, sobretudo, a referida imagem de Maria, um pequeno grupo de pessoas se reuniram ao redor desse sinal tirado do ventre do rio, para rezar e manifestar sua fé no Deus da vida: referimo-nos aos pobres, especificamente às mulheres, aos trabalhadores e aos escravos. Estes são os primeiros devotos de Nossa Senhora da Aparecida. Nasce, assim, um movimento de devoção com características feminina, social e libertadora, pois rezar diante dessa imagem foi, e continua sendo, um resgate da dignidade do pequeno e do pobre.

A devoção à Mãe de Deus, representada na imagem de Aparecida, vai crescendo cada vez mais, sendo um símbolo de unidade, não apenas religiosa, mas também civil, pois nos reconhecemos melhor como brasileiros (as), sob a sombra dessa imagem protetora. Ou seja, a devoção a Nossa Senhora Aparecida, deixando de ser algo local, passa a fazer parte da piedade de um povo, do nosso povo brasileiro.

Se hoje celebramos 300 anos de piedade popular ao redor de Aparecida é preciso lembrar que, nem sempre, a piedade popular foi bem vista, sendo considerada, sobretudo em círculos eruditos, como expressão de fé arcaica, arraigada na superstição e de respostas mágicas para problemas humanos. Mas, até que ponto há, de fato, evidências de um verdadeiro desvio nas expressões de piedade? Cremos que a comemoração desse tricentenário convida-nos a uma reflexão sobre a piedade mariana.

Para alcançar tal intento é importante a observação de Paulo VI, na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi[1], dizendo que a evangelização não pode ficar alheia à religiosidade popular, uma vez que esta comporta considerável riqueza de valores. Contudo, o texto pontifício não deixa de elencar suas limitações, como o perigo de se desviar transformando-se numa manifestação supersticiosa de um povo, capaz de formar seitas, colocando em risco a comunidade eclesial (cf. EN 48).

Por manifestação supersticiosa entendemos a relação do ser humano com o transcendente quando mediada por diferentes formas de concepção mágica. Por meio de orações, invocações específicas e outras formas ritualistas, procura-se manipular forças espirituais para determinados fins, nem sempre muito nobres. Isso se torna mais grave, quando não criminoso, quando um suposto “prestador desse tipo de serviço” fomente em sua clientela qualquer tipo de exploração, quer emocional ou financeira.

Outro perigo que manifestações supersticiosas comportam é aprisionar a pessoa num conjunto de proibições de coisas que trazem azar, desde um simples chinelo virado ao avesso no chão, à forma como uma pessoa sai dum cemitério, não podendo dar às costas para as “almas que ali habitam”. O número dessas práticas pode, numericamente, chegar ao absurdo de inviabilizar a leveza que o cotidiano pede, trazendo, quiçá, traços correlacionados com desequilíbrios psiquiátricos.

Ainda lembramos que ações supersticiosas, numa tentativa de controle de forças sobrenaturais, é uma atitude contrária ao ato de fé, que é a total entrega nas mãos de Deus, deixando que o Espírito Santo nos conduza ao melhor a ser feito e vivido.

Contudo, a religiosidade popular é muito mais que isso. Ela tem como aspecto positivo uma incrível capacidade de traduzir a genuína expressão de fé das pessoas simples em manifestações de piedade, revelando a “sede de Deus” que existe no coração da humanidade e que, nos lábios dos simples, dos pobres no espírito, tem um sabor e uma coloração toda especial, pois é a voz dos bem-aventurados que possuem o Reino de Deus (cf. Mt 5,3). Por isso que, a Evangelii Nuntiandi, apresenta uma preferência em usar o termo “piedade popular”, quando se depara com a religião do povo, em detrimento do termo “religiosidade popular”, que, mesmo não devendo ser desprezada, não distingue os elementos que a piedade popular preserva, por ser uma expressão mais genérica.

Assim, tomando o Diretório sobre piedade popular e liturgia, dizemos que

A expressão “piedade popular” designa aqui as diversas manifestações cultuais de caráter privado ou comunitário que, no âmbito da fé cristã, se expressão geralmente não com os módulos da sagrada Liturgia, mas nas formas peculiares derivadas do gênio de um povo ou de uma etnia e da sua cultura[2].

Não podemos desprezar, por exemplo, a singeleza de uma vela acesa acompanhada de uma prece. No segredo do acendimento dessa vela, só Deus sabe em profundidade a realidade que comporta esse gesto. É claro que existem exageros, que chegam às raias de posturas desumanas, como a subida de uma longa escada em direção a uma determinada igreja. Em casos como esse, mais que condenar o gesto, é louvável que nos aproximemos, com delicadeza, da dor que levou a pessoa a se submeter a esse sacrifício. Podemos nos surpreender com a ferida que existe no âmago do penitente e relativizar, não por completo, o joelho em questão.

O grande desafio, em vista de uma ação mistagógica, é conduzir essas formas de piedade ao coração da Igreja orante que é a Liturgia, sobretudo, à celebração da Eucaristia. Somos convidados a ajudar as pessoas a saborearem a Liturgia como o mistério de um Deus cuidadoso que se dá a todos nós e que nos faz voltarmos a Ele com um transbordamento de gratidão, uma sincera “Ação de Graças”, fruto do reconhecimento da ação de Deus na vida do povo e de cada pessoa em particular.

Nessa ação mistagógica, a relação entre Liturgia e piedade popular não passa por termos de oposição, equiparação ou substituição de uma por outra, mas de entender o lugar de cada uma delas, ressaltando, obviamente, a primazia dada à Liturgia[3].

Uma sadia devoção mariana é sempre uma devoção endereçada a Jesus no Espírito Santo. Quando pedimos a intercessão de Maria estamos dizendo que acreditamos que ela está na Comunhão dos Santos e professamos que Deus é tão bondoso para conosco que, pelo Espírito, nos deu seu Filho para a nossa salvação e que, ainda hoje, pelo mesmo Espírito Santo, de diversas formas, continua sendo cuidadoso e bondoso para com todos nós, conduzindo-nos para o seu coração amoroso. Maria é o símbolo do cuidado de Deus por ser testemunha qualificada da encarnação do Verbo na história concreta da humanidade. Símbolo este, tão visível na imagem de Nossa Senhora da Aparecida, que ao falarmos de 300 anos de piedade mariana, falamos, sobretudo, da bondade de Deus para com todos, ontem, hoje e sempre.


[1] PAULO VI, Papa. Evangelli Nuntiandi. In: DOCUMENTOS de Paulo VI. São Paulo: Paulus, 1997.

[2] CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Diretório sobre piedade popular e liturgia. Princípios e orientações. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2005, n. 19.

[3] Id., n. 50 e 73.

* Frade franciscano, pertence à Ordem dos Frades Menores. É presidente do Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA. Professor de teologia sistemática no ISTA e no Seminário Diocesano Nossa Senhora do Rosário – Caratinga / MG. Doutorando em Teologia Sistemática (com ênfase em Mariologia) pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE. Bolsista pela CAPES.

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