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13/10/2017 | domtotal.com

O sagrado dos outros

A vida – sábia – me ensinou a ser um defensor ardoroso do "mas", do "porém, do "entretanto", do "contudo" e do "todavia".

Era proibido refletir e enxergar o outro lado da história.
Era proibido refletir e enxergar o outro lado da história. (Reprodução)

Por Fernando Fabbrini*

O jornal satírico Charlie Hebdo acabara de ser atacado pelos terroristas islâmicos. Foi na época que ouvi uma das maiores asneiras emitidas pelas cordas vocais de um ser humano - eternizada numa entrevista à Folha de São Paulo. Certo humorista, que atualmente posa de guru para deslumbre da meninada incauta, comentou assim o episódio: “Sou totalmente a favor dos humoristas do Charlie Hebdo”. Ora: até aí tudo bem, ele expunha seu ponto de vista com a liberdade a que tinha direito. Poderia ter parado neste ponto, mas seus neurônios arrogantes e vaidosos proferiram este pedregulho: “Não sou obrigado a respeitar o sagrado dos outros.”

Ora, como não? Tive ganas de enviar uma mensagem ao referido perguntando-lhe sobre algumas coisas sagradas de seu próprio círculo familiar e social – que abstenho-me aqui de citar – e como ele reagiria caso esses seus sagrados particulares fossem desrespeitados por um bandido qualquer. Muito estranha, realmente, essa necessidade de alguns (ou seria de muitos?) de ofender, denegrir ou ironizar o sagrado dos outros.

Após a primeira onda sufocante de solidariedade às vítimas do Charlie, percebi que pequenas e tímidas reações começaram a pipocar nas redes. Nasciam da ponderação, do pensando melhor, da previsível ressaca que veio depois. Frases assim: “Achei uma barbaridade, mas acho que os humoristas exageraram, pegaram muito pesado.” Ou: “Sou a favor da liberdade de imprensa, mas por que foram mexer com os fundamentalistas? Burrice! Só podia dar nisso.”

Foi o bastante: imediatamente explodiu a reação histérica. Patrulhas indóceis iniciaram verdadeiras cruzadas moralistas contra o uso do “mas”. Era proibido refletir e enxergar o outro lado da história. Só valia metade, um único ponto de vista; era a ditadura da visão fragmentada abafando qualquer reflexão que saísse da caixinha limitada de suas cabeças. Ai de quem usasse o “mas”! Era prontamente pendurado em praça pública virtual com uma placa atada ao pescoço: “Traidor!”

A vida – sábia – me ensinou a ser um defensor ardoroso do “mas”, do “porém, do “entretanto”, do “contudo” e do “todavia”. Estas conjunções adversativas não podem ser desprezadas na mente dos que procuram a verdade e não a negociam barato por bugigangas da moda. Elas trazem a polêmica, o vento inquietante do contraditório, a visão oposta, o ponto de vista do outro.

Tudo isso voltou-me à memória por ocasião dos últimos bate-bocas envolvendo mostras de arte consideradas ofensivas por alguns e defendidas radicalmente pelos partidários da total liberdade de expressão. A temperatura subiu dos dois lados e cabeça quente costuma ser um território fertilíssimo para a estupidez. A virtude anda sempre no meio, já diziam os mestres Zen. Considerando o tudo o que li, gostei especialmente do comunicado da Associação Médica Brasileira, que reproduzo:

 “Evidências científicas comprovam que situações de nudez, contato físico e intimidade com o corpo são próprias do desenvolvimento humano e positivas, desde que ocorram entre pessoas com perfis equivalentes quanto à idade, maturidade e cultura. Ou entre adultos e crianças cujo vínculo e convivência cotidiana definem esta experiência, de forma natural e sem caráter exploratório previamente determinado. Do ponto de vista do adulto (que se apresenta nu e disponível para contatos físicos com crianças) não se consegue alcançar o mérito dessa proposta e/ou sentido artístico, educativo desse roteiro teatral.

Recomendamos que pais e educadores se disponham a trabalhar a sexualidade de seus filhos e alunos, para lhes oferecer a melhor educação sexual, e os prevenir de situações inadequadas, as quais podem ter repercussões imprevisíveis, dependendo da vulnerabilidade emocional de cada criança ou púbere, mais até do que da intensidade da experiência”.

Falou e disse, Associação Médica Brasileira. E já que são médicos, por favor: distribuam gratuitamente, em praça pública, benzodiazepínicos e outros calmantes para os radicais, nervosinhos e estressados de plantão. 

* Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com dois livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO

EMGE

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