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Religião

12/10/2017 | domtotal.com

Gente Inocente

Pela forma como trata as crianças, pode-se julgar uma sociedade.

Élio Gasda
Élio Gasda (Divulgação)

Por Élio Gasda*

Dia após dia, a infância tem sido roubada, destruída, incendiada diante dos nossos olhos. Em um país onde 70% das crianças não têm acesso a creches, 9 foram queimadas vivas em uma creche chamada Gente Inocente. Elas estão na mira do fogo. O Brasil é vice-campeão mundial no assassinato de crianças e adolescentes. Só está atrás da Nigéria. São 28 por dia (UNICEF). Em 2016 ocorreram 735 óbitos de crianças indígenas menores de nove anos (Secretaria Especial de Saúde Indígena).

O fogo lento da exclusão. O Brasil 23 milhões de crianças que vivem na pobreza ou na pobreza extrema, mais da metade da população argentina (43 milhões). Para mudar essa realidade, são necessárias políticas públicas de combate à desigualdade e investimentos em educação. Mas o (des)governo Temer cortou os incentivos para a investigação de casos de trabalho infantil.

No mundo, 16 mil crianças morrem diariamente por causas que poderiam ser evitadas. 800 milhões de pessoas subnutridas, a maioria são crianças; 700 milhões consomem água envenenada; 2,4 bilhões de pessoas não têm sanitários (ONU). 50 milhões de crianças vivem longe de seus lugares de origem, fugindo do fogo cerrado das granadas, tanques e bombas. Mais de 300.000 meninas e meninos atravessam fronteiras internacionais sem a companhia de adultos. Vulneráveis e amedrontadas, são vendidas à escravidão e prostituição por traficantes (UNICEF).

Mercadoria barata e muito lucrativa. Gente inocente está nas fabricas, nos semáforos, nas feiras, na prostituição, no narcotráfico, nas carvoarias e latifúndios, no serviço doméstico, nas ruas e nos lixões. 150 milhões de crianças sofrem a exploração do trabalho. No Brasil são mais de 3 milhões (Organização Internacional do Trabalho). Trancafiadas em plantações para trabalhar 100 horas por semana (se tiver estômago, assista ao documentário Slavery: A Global Investigation), crianças relatam torturas e surras de chicote: “Os espancamentos eram uma parte da minha vida. Sempre que te carregavam com sacos de grãos de cacau e caías enquanto transportavas, batiam-te até que te levantasses de novo” (Aly Diabate, criança libertada). Em 2001, Nestlé, Hershey e Mars impediram que fosse aprovado a inclusão do selo slave free (sem trabalho escravo) nos rótulos das embalagens de chocolate. Enquanto isto, o número de crianças que trabalham na indústria do cacau aumentou 51% entre 2009 e 2014. Uma criança libertada disse: “Vocês desfrutam de algo que foi feito com o meu sofrimento. Trabalhei duro sem nenhum benefício. Estão comendo minha carne.”

Exploração infantil escondida em catálogos de roupas de luxo. Brooksfield Donna oferece requinte e conforto em suas peças femininas. A empresa foi autuada em flagrante por trabalho análogo à escravidão e trabalho infantil. Meninas foram encontradas em oficina cuja produção era 100% destinada à marca. Sem carteira assinada e férias, trabalhavam e dormiam com suas famílias em ambientes fétidos, em meio a vasos sanitários sem porta e camas separadas das máquinas por placas de madeira. Em meio a pilhas de retalhos e muita sujeira, foram encontradas panelas com arroz e macarrão.

As novas tecnologias da informação são o novo campo de exploração infantil. Seja como usuário, ou como produtor. Como usuário, as crianças representam um quarto dos 3,2 bilhões de internautas. Toda uma geração vulnerável a formas novas de abuso como trolling, cyberbullying, sextortion e pedofilia. Como produtor, anúncios das tecnologias de ponta contrastam com as crianças carregadas com sacos de pedras e minérios. Anistia Internacional seguiu o rastro do cobalto obtido das minas da República do Congo, onde centenas de menores são explorados. Este país responde por mais de 50% do cobalto produzido no planeta, um minério valioso utilizado na fabricação de computadores, celulares e automóveis. Esta ONG teve acesso às listas de clientes “diretos e indiretos” das mineradoras de cobalto e encontrou marcas como Apple, Volkswagen, Microsoft, Samsung, Sony e HP. Assim a civilização do século XXI trata suas crianças...

A Doutrina social da Igreja condena toda forma de exploração de crianças. Sua dignidade e seus direitos devem ser protegidos como bens extremamente valiosos para a humanidade. Papa Francisco, em discurso ao Congresso “A dignidade da criança no mundo digital" (Roma, 03 a 06 de outubro) pediu com insistência “o fim dos maus-tratos, exploração, tráfico e todas as formas de violência e tortura contra as crianças”.

Bambolê, bicicleta, pipa, corda, contos de fadas, pintura, pique-esconde. O direito de brincar é fundamental no desenvolvimento da criança. A infância é o período decisivo na formação da personalidade, dos valores, do desenvolvimento físico, cognitivo e emocional do indivíduo. O inicio de um mundo mais justo e sustentável depende da forma como as crianças são cuidadas. E Jesus, como as tratava? Jesus acolhia as crianças, tomando-as em seus braços as abençoava (Mc 10,16). Dezenas de crianças correndo, pulando, gritando, brincando e fazendo a maior festa em torno de Jesus, que se divertia com elas, enquanto alguns discípulos tentavam controlar a bagunça. Se Ele dizia que para entrar no Reino dos Céus, deveríamos ser como crianças (Mt 19, 14), então Ele próprio se fazia criança. “Quem recebe um destes em meu nome, é a mim que recebe” (Lc 9, 48). Gente Inocente!

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

EMGE

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