Religião

12/10/2017 | domtotal.com

Você poderia ser católico e um iogue?

O que me atraiu para a ioga foi algo que não era filosófico.

O Deus e o Jesus que eu conheço dirão juntos
O Deus e o Jesus que eu conheço dirão juntos "Namaste". (Reprodução)

Por Jennifer Kurdyla

Lokah samastah sukhino bhavantu... Eu me sento no tapete de ioga, com os tornozelos cruzados em uma pose de Flor de Lotus, meus olhos ficam fechados e lutam para achar a forma desses sons que saem da minha boca. As buzinas tocam e os faróis brilham vagamente através da janela com uma cortina diáfana - os velos mais finos nos separam da cidade de Nova York, sempre agitada. Minha professora está convidando a nos juntarmos a ela neste canto sânscrito antigo que se traduz em "que todos os seres sejam felizes e livres".

Por várias semanas, entender a fonética desta frase foi tão desafiadora quanto a execução da posição e cabeça para baixo. Hoje finalmente consigo dominar a habilidade, os sons flutuam tão livremente da minha garganta - do meu coração - como o som unificador de Om que começou e terminou nossa prática (e até mesmo harmonizado, estranhamente, com todos os outros barulhos). Meus professores sempre se referiram a esses rituais de cantar como mantras "sagrados". Essa descrição nunca fazia sentido até que as frases ressoaram em mim como outras melodias - as músicas que cantava na Missa todas as semanas, canções que, de alguma forma, pareciam ser as mesmas nas igrejas que participei no East Brunswick, Nova Jersey, durante meu tempo de faculdade em Cambridge, Massachusetts, e agora na meca da ambição e do trabalho, a cidade de Nova York. O que tem a ioga e as religiões orientais em comum, que de algum modo tornaram a prática da ioga sagrada, que me tornaram uma católica praticante de ioga?

O que me atraiu para a ioga foi algo que não era filosófico. Precisava desesperadamente de um lugar onde o silêncio e o relaxamento fossem encorajados. Algo importante foi desalinhado na minha vida. Eu tinha confiado em minha fé para me ajudar a passar da melhor maneira pelos momentos difíceis na minha adolescência e no início da minha juventude, marcados pela perda e a doença. Durante todos esses anos eu assisti a missa regularmente e, nas palavras familiares de orações e músicas, não encontrei respostas às minhas dúvidas e questionamentos, mas a reafirmação.

O efeito foi semelhante na primeira vez que desenrolava meu tapete de ioga. Durante várias semanas, minha mente ficaria ocupada ao escolher onde colocar meus braços e pernas enquanto o professor gritava posturas com nomes de animais e plantas (Ave do Paraiso, Sapo, Corvo, Lotus, apenas para citar alguns). Comecei a sentir-me autoconsciente da minha roupa de ioga, sentia-a muito desconfortável. Tentei lembrar quem eram as pessoas mais amáveis da aula para ficar perto delas, de modo que eu pudesse evitar ser zoada na posição de Cachorro. E, no entanto, para todas essas distrações, eu estava inegavelmente à vontade lá. No quarto escuro com música reconfortante e repetitiva, as ansiedades do meu dia e o meu corpo derreteram-se.

Estudando mais ioga, no entanto, aprendi sobre a filosofia subjacente à prática que realizava todas as semanas. A ioga Sutras de Patanjali, a verdadeira Bíblia de ioga, tem 196 adições de modo que, na Índia antiga, um aluno de ioga iria aprender oralmente através do estudo com um mestre: as chaves da iluminação através da prática da ioga. Dividido em quatro "Padas", ou "pés" (assim chamado porque o aluno iria aprendê-los enquanto caminhava com seu professor), os sutras descrevem os diferentes passos que um iogue aspirante leva para se transformar de um ser pequeno, que se identifica com a sua natureza externa, em um vidente.

Este eu autêntico e capital se afastou com sucesso do mundo externo e relacionou-se com pessoas, coisas e ideias, tornando-se assim um ser sintonizado com a sua verdadeira natureza em um estado de iluminação, ou Samadhi. As etapas para este estado são concretas e frustrantemente abstratas, variando de como fazer o próprio lugar para sentar ("estável e confortável") até a forma de achar a felicidade ("a partir do contentamento, a maior felicidade é alcançada").

Este novo conhecimento iluminou um fato ainda mais fundamental para mim: a conexão entre Patanjali, um sábio hindu e Jesus, o Filho de Deus.

Há, naturalmente, diferenças ideológicas fundamentais entre o hinduísmo e o cristianismo. A religião hindu é uma variedade de politeísmos em que os deuses estão em todos os lugares, intervindo à vontade na vida dos seres humanos, e a reencarnação é uma verdade aceita. O monoteísmo cristão oferece um tipo diferente de Deus, que criou o mundo e então permitiu que o homem atuasse por sua vontade. Somente ao viver uma vida virtuosa e compassiva, a promessa da salvação eterna, graças ao sacrifício de Jesus, entra na cena. Com bases tão diferentes, como poderiam os profetas de cada uma destas religiões ter um foco semelhante? Eu me perguntei. Então considerei seus motivos.

Patanjali não estava apenas escrevendo um livro original de autoajuda, ele estava agindo a partir de um chamado divino para erradicar o sofrimento do mundo, que ele viu como a principal aflição de seu povo durante seu tempo. Os primeiros quatro sutras são muito explícitos sobre essa intenção, explicando que "O Ioga é o silêncio dos estados em mudança da mente". Somente ao fazê-lo, as pessoas podemos "respeitar a própria e verdadeira natureza". Em outras palavras, enquanto continuemos definindo-nos pelas coisas que nos preocupam no mundo, incluindo nossos identificadores externos, como nossos empregos, o lugar onde vivemos, o nosso gênero, o nosso estado civil, a nossa cor favorita, etc., não estamos em nossa verdadeira natureza. O desejo de Patanjali de ajudar as pessoas a se salvar do perigo de distração do mundo material se cruza poderosamente com a mensagem de Jesus. "Se você quer ser perfeito", diz Jesus ao homem rico, "vá e vende todos os seus bens e dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céu" (Mt 19,21).

Eu sempre fui de mente aberta e aceitei todas as confissões de fé. No entanto, eu não sentia necessidade de substituir ou complementar meu catolicismo com alguma outra coisa, por mais que os cantos não fossem tão esplêndidos ou eu concordasse ou não com os ensinamentos da Igreja. Pensei na ioga como um exercício físico – um exercício em que eu poderia respeitar minha fé em um sentido geral, desligando meus feeds das redes sociais e colocando minhas listas de tarefas de lado em um esforço para estar "presente". Mas lutando para conciliar os elementos religiosos dos fundamentos do catolicismo e aqueles da ioga: era um território em que ainda não tinha a preparação necessária para atravessar.

Então rezei e fluí como dois eus, participando da Missa nos domingos de manhã às 8:30 e da classe vinyasa às 10:45, saboreando os benefícios que cada uma me deu em seus próprios termos.

Essa separação sem contratempos durou por alguns anos. Chegou até hoje, quando me encontro em outro estúdio em que estou passando horas e horas (200 para ser precisa) imersa em um programa de treinamento de professores. É perto das 18 horas no final do inverno, e estou ansiosa para ir para casa, apesar do escuro e do frio que me espera lá fora. Geralmente, guardamos as partes de inspiração e filosofia das oficinas de treinamento para o final do dia. Depois de uma prática de três horas de asana - posturas de ioga para eliminar os pensamentos - e mais horas ainda de palestras de anatomia e leituras, nossos corpos estão tão cansados que não temos escolha senão tornar-nos introspectivos e nos afastar de nossa experiência física (desta forma entendo o programa).

Naquela noite em sala de aula, cantando sílabas que pedem a paz e a liberdade de todas as pessoas, algo muito real surgiu em mim. A sensação de segurança e santuário que encontrei no catolicismo de alguma forma me levou a descobrir esses princípios fundamentais da ioga. A iluminação, o que a nossa classe tinha aprendido, decorre "da fé, do vigor, da memória, da absorção e do discernimento". Foi-nos ensinado que, praticando a amizade, a compaixão, a alegria e a equanimidade, "a lucidez surge na mente". Esses ensinamentos pareciam bastante difíceis perante os padrões de vida de hoje. Eles violam absolutamente o modo acelerado, explorador e julgador com o que tratamos aos outros e a nós mesmos. É difícil para nós imaginar um verdadeiro iogue, que vive pela fé, o discernimento e a pratica da "equanimidade para com aqueles que não são virtuosos", capaz de funcionar no mundo moderno.

Da mesma forma, pode ser difícil imaginar alguém como Jesus andando pela Terra hoje - exigindo que tratemos as pessoas, e a nós mesmos, com respeito, perdão e amor incondicional, não importa o que aconteça.

Mas juntos, esses dois caminhos, o de Cristo e o de Patanjali, me ajudaram a estar mais em paz e ser mais gentil comigo mesma. Embora eu ainda esteja no caminho da descoberta do que estou chamada a fazer, minha visão é clara, minha vontade de ajudar a curar as pessoas através da ioga e outras formas criativas está se manifestando. Ao permitir que os rios de suas palavras se fundam em mim, tanto a ioga quanto o catolicismo, senti-me duplamente guiada ao longo do meu verdadeiro caminho - em direção à graça suprema que ambos postularam como resultado dessa árdua obra de fé e de discernimento, a compaixão e a alegria.

A prática da ioga em todas as suas formas me torna menos católica? Eu penso que não. Porque o Deus e o Jesus que eu conheço dirão juntos "Namaste" - o divino em mim se inclina para o divino em você - para qualquer homem, mulher ou filho. Deus e Jesus, eu sei, não queriam nada menos do que todos nós gritarmos : "Que todos os seres sejam felizes e livres".


America The Jesuit Review - Tradução: Rámon Lara

EMGE

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