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19/10/2017 | domtotal.com

Chato é quem não gosta de poesia

Nos tempos bicudos em que vivemos a poesia se faz mais do que necessária.

A poesia é tão democrática em sua generosidade  que permite que qualquer um seja poeta, cometa sua poesia.
A poesia é tão democrática em sua generosidade que permite que qualquer um seja poeta, cometa sua poesia. (Reprodução)

Por Ricardo Soares*

Chata não é a poesia. Chato é quem não gosta de poesia. As pessoas toleram axé music, Dinho Ouro Preto, miríades de políticos corruptos, gente que atende celular dentro do cinema, discussões infindas sobre relacionamentos amorosos, clichês como "empoderamento feminino"e as muitas variações do verbo "reinventar" e não podem ler, apreciar e ouvir poesia ? Isso não lhes parece mais um grande  sintoma de uma sociedade completamente enferma ?

Os detratores da poesia podem até dizer que tem muito poeta e poesia chata e de má qualidade. Sou o primeiro a concordar . Mas isso então exclui todo e qualquer conhecimento poético, isso elimina chegar perto e ler maravilhas concebidas por gente do quilate de Manuel Bandeira, Mário Quintana, Drummond, Pessoa, Gullar, passando por Murilo Mendes, Jorge de Lima, Gilka Machado, Cecília Meirelles, Armando Freitas Filho, Carlos Nejar, Mário Sá Carneiro, Oswald e Mário de Andrade sem falar de modernistas menos falados  como Cassiano Ricardo e Raul Bopp ?  Só a lista de maravilhosos poetas em língua portuguesa é imensa, que dirá de poetas de todas as línguas ?

Nos tempos bicudos em que vivemos a poesia se faz mais do que necessária. E gente muita culta e articulada vive do "viva a vaia" na poesia. Como se todos os poetas brilhantes, criativos, inventivos tivessem culpa da má poesia que se comete no mundo. Está aí inclusive um paradoxo interessante. A poesia é tão democrática em sua generosidade  que permite que qualquer um seja poeta, cometa sua poesia. Mesmo a pior, a mais ingênua, a mais pueril tem lá seu grosso naco de boa intenção. Prefiro ouvir  uma má poesia em um lugar agradável do que tolerar as muitas resmas de discursos políticos inúteis proferidos todos os dias por marginais que se travestem de deputados e senadores.

Mas não vou atravessar esse crônica samba da poesia doida com dejetos parlamentares . Prefiro enaltecer o verso livre, com ou sem rima, a poesia rimada e ritmada , as odes, os sonetos , os épicos poemas feitos por tanta gente que já passou nesse planeta e que com poesia ( boa ou ruim)  enaltece e valoriza os bons sentimentos humanos. Estou farto do mundo , do Brasil sem poesia. Estou exausto de apólogo à indecência e falta de ética sem véu de alegoria. Poesia devia ser matéria obrigatória desde muito cedo em todas as escolas. Saraus deveriam se multiplicar aos montes pelo Brasil. E aqui abro um parêntesis e homenageio a boa amiga e poeta Tereza Cristina Rocque da Motta que durante muitos anos manteve um sarau "maneiro" no Rio de Janeiro . E estendo meus respeitos a João do Corujão que há 12 anos mantém outro sarau  (Corujão da poesia) concorrido todas as noites de  terças -feiras no cine Jóia ou no restaurante-pizzaria Eclipse na república de Copacabana.

É mais disso que precisamos. De mais poesia e de mais gente que goste e valorize poesia. É preciso dar nomes a bons bois. E isso cabe ao quase extinto jornalismo cultural para que recupere inclusive seu papel de relevância que deve ser ir além das leis do mercado, do maldito mainstream nosso de cada dia. Poesia não é chata. Chato são vocês que não gostam de poesia.

* Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista,escritor, jornalista e arrisca versos há quarenta anos.

EMGE

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