Religião

20/10/2017 | domtotal.com

Banquete marginal: quem são os convidados do Senhor?

Comer e beber juntos significa tomar parte na intimidade do outro, tornar-se responsável pela outra vida. Seguimento de Jesus exige uma decisão séria de acolhida ou de rejeição.

Os Evangelhos abordam com insistência a participação de Jesus em almoços, ceias e banquetes.
Os Evangelhos abordam com insistência a participação de Jesus em almoços, ceias e banquetes. (Pixabay)

Por Tânia da Silva Mayer*

A organização e participação em banquetes são vislumbradas em diversas culturas, desde a antiguidade. Normalmente associados aos rituais sagrados de oferecimento de sacrifícios aos deuses, o banquete é marcado pela comida e bebida abundantes. Por meio dele se realiza a comunhão dos seus participantes, bem como a adesão destes a um projeto ou causa comum. Como se pode notar, o banquete também é sinônimo de festa. E como tal, exige a presença de convidados que assentiram a um convite realizado por outrem. Nesse sentido, a reunião comunional num banquete realiza uma sociedade marcada por um objetivo partilhado.

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A Tradição judaico-cristã é fortemente marcada pela ideia do banquete. Não somente pelo valor atribuído ao alimento que sustenta o ser humano, mas pelo que a refeição realiza entre os convivas. Comer e beber juntos significa tomar parte na intimidade do outro, tornar-se responsável pela outra vida. Por isso, é radicalmente escandalosa a postura de Judas nos Evangelhos: depois de participar da ceia e gozar da íntima relação com o Mestre, entrega-o aos inimigos que o matarão na cruz. Trai o que havia vivido e o compromisso assumido de corresponder àquele que dá sentido à vida. Essa postura manifesta sua inconstância e sua não adesão ao projeto de entrega da vida e serviço aos irmãos e irmãs ao qual Jesus lhe tinha convidado a assumir.

Os Evangelhos abordam com insistência a participação de Jesus em almoços, ceias e banquetes. Ora Jesus está na casa de alguém fazendo refeição, ora está interpelando ouvintes atentos por meio de histórias e parábolas sobre banquetes. Em Lucas essa realidade não é diferente. O capítulo 14,1-24 compreende os ensinamentos a respeito do banquete. O primeiro texto se refere à cura de um hidrópico em dia de sábado, quando Jesus almoçava na casa de um dos chefes dos fariseus (cf. Lc 14,1-6). No segundo, Jesus percebe como os convidados escolhiam os primeiros lugares no banquete e ensina-lhes, por meio de uma parábola, que devem preferir os últimos lugares e os pobres e marginalizados como primeiros convidados nos jantares e nos almoços que oferecem (cf. Lc 14,7-14).

Como se pode ver, mais que indicar um proceder social nos eventos, Jesus realiza um ensinamento em torno da mesa, que pretende provocar a postura cotidiana dos ouvintes diante da acolhida do Reino. Primeiramente, lícita é toda ação em favor da libertação do ser humano. Nenhum rubricismo é bem-vindo, sobretudo quando a humanidade está desassistida de sua dignidade. Em segundo, a humilhação verdadeira é o que se requer dos que professam a fé em Deus. Tal humilhação desautoriza uma autoafirmação hierárquica e egolátrica com relação aos outros, principalmente com relação aos marginalizados. Por isso, Jesus ensina também que os convidados primeiros devem ser aqueles que não podem retribuir ou oferecer favores em troca de regalias, isto é, os pobres, coxos, cegos e aleijados.

Dos versículos 15 a 24 do mesmo capítulo, Jesus é interpelado por um dos convivas a respeito da felicidade em participar da refeição no Reino de Deus. Como resposta, ele conta uma parábola a respeito de um homem que convidou muitas pessoas de prestígio para um banquete. Na hora do jantar, enviou os servos para avisar aos convidados que tudo estava pronto. Um a um, a começar por um dono de terras, passando por um dono de gados, até um recém-casado, desculparam-se e recusaram o convite para o banquete. A atitude desses convidados foi relatada ao dono da casa que havia oferecido o jantar. Indignado, ele mandou o servo novamente às praças e ruas da cidade convidar todos os que encontrassem pelo caminho, os pobres, coxos, aleijados e cegos. Havendo ainda lugares para o banquete, mandou buscar mais pessoas para encherem a sua casa. Pois a nenhum daqueles que haviam sido convidados no primeiro momento será oferecida essa ceia.

A parábola do jantar oferecido por um dono de casa encerra a seção do banquete de Lucas. Trata-se de uma crítica contundente a uma religiosidade que se advoga detentora de Deus e do seu Reino, mas que não é nada livre para tomar parte no projeto salvífico ensinado pelos gestos e palavras de Jesus. A parábola segue a lógica do Evangelho de Lucas: a missão de Jesus não se restringe entre os judeus e a sua salvação não está direcionada apenas ao povo eleito. A salvação é universal, ou seja, ela é além-judaísmo, ofertada a quem se encontra disponível para acolhê-la, sendo essa pessoa alguém de prestígio ou não, sendo judeu ou não, sendo religioso ou não. Ao contar essa parábola logo após a observação de um conviva, Lucas quer mostrar a sua comunidade como o seguimento de Jesus exige uma decisão séria de acolhida ou de rejeição do Reino e da sua misericórdia.

Nesse sentido, o banquete da parábola lucana deve ser lido na perspectiva do Reino de Deus. Precisamente, é o Banquete do Reino, e quem dele participa se pode dizer que é feliz. No entanto, não basta apenas o convite por parte de Deus, é preciso decidir-se entre participar ou ficar de fora da grande festa. Na narrativa, os primeiros convidados são pessoas de prestígio social, senhores e proprietários de terras e animais, que, por causa de suas tarefas e afazeres, recusam o convite para o banquete. No tempo de Jesus, o Reino era compreendido como uma realidade destinada ao povo de Deus, sobretudo aos que cumpriam exigentemente a cartilha da religião judaica, ou seja, os fariseus, doutores da Lei, sacerdotes. Lida nessa perspectiva, percebemos na parábola a crítica de Jesus aos que vivem ocupados com a religião e a prática religiosa, mas pouco abertos a uma religiosidade e práxis misericordiosa e libertadora, tal como a assumida pelo Mestre. Tal rejeição ao projeto de Jesus se configura em negação de participação no Reino de Deus. Trata-se de uma autoexclusão do Banquete do Reino.

Por outro lado, os que são socialmente marginalizados, na parábola designados por coxos, cegos, aleijados e pobres, acolhem ao convite de última hora para o banquete. Esse convite feito aos que estão à margem da sociedade e sua abrupta aceitação marcam uma reviravolta inesperada na história. No último momento, os excluídos são incluídos. Mas há uma diferença se compararmos essa reviravolta com o Reino de Deus. No Reino inaugurado por Jesus, os marginalizados, os pobres, os excluídos são os preferidos de Deus. Os primeiros convidados para o Banquete. Eles nada têm a retribuir. São humilhados cotidianamente, condenados às cadeias construídas pela sociedade. É para esses que o convite de Jesus se dirige preferencialmente. Nesse sentido, podemos dizer que o Banquete do Reino é marginal, pois recebe a adesão dos marginais, aquelas pessoas que nos acostumamos a julgar, segregar, diminuir, humilhar, excluir e abandonar às margens do caminho, da religião, da sociedade.

Também hoje somos interpelados pela palavra de Jesus e pelo convite para participarmos do Banquete do Reino. É preciso entender nossa postura na exigência do seguimento, se disponíveis para avançar com o Senhor ou ocupados com nossas coisinhas religiosas e nossos muitos afazeres. Também é importante não perder de vista que o Banquete do Reino segue sendo preferencialmente para os descartados do mundo. Nesse sentido, quem são esses convidados para o Banquete marginal do Senhor?

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Colunista do DomTotal, escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com

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