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Religião

20/10/2017 | domtotal.com

Os convidados 'VIPs' ao banquete do Reino

Ao contrário dos figurões e das personalidades ricas, no Cristianismo são os marginalizados e oprimidos que formam os convidados de honra.

Se cada pessoa, resolvesse partilhar com os que nada têm, ainda haveriam a fome e a miséria no mundo?
Se cada pessoa, resolvesse partilhar com os que nada têm, ainda haveriam a fome e a miséria no mundo? (Ali Inay/Unsplash)

Por Daniel Reis*

Fazer uma refeição juntos é algo que reforça a nossa humanidade. Antropológica e sociologicamente, em quase todas as culturas, sacraliza-se o rito de comer e beber juntos. “Sagrado” não somente da perspectiva religiosa, seja ela de qual espécie for, mas também na experiência puramente humana, como nos mais simples e fraternos encontros familiares, onde se “consagra” o “almoço de domingo”, na casa dos pais ou avós, tornando-se este “sagrado” para a família. Também a “sagrada” cerveja com os amigos ou colegas de trabalho, na sexta-feira após o expediente. Assim, comer e beber “com” os outros acarreta uma compreensão semântica necessária, dados os desdobramentos etimológicos relacionados, como “comida”, “comunidade”, “comunhão”, “comunicação”, “companhia”, “convite”, “convivas”, etc. Faltando esta dimensão comunitária, o “comer e beber” são reduzidos à mera nutrição fisiológica, quando se sacia somente a fome e a sede corporais, para a mera subsistência. É o caso do estilo fast food (comida rápida), que na proposta do american way of life (modo americano de viver), para uma mais ágil e eficiente produção, não se pode “perder tempo” com uma refeição, vez que time is money (tempo é dinheiro). Neste caso, o prejuízo se dá com a sobreposição de nossas feições animalescas às humanas. Basta lembrar de um cachorro, que absorto em sua tigela de comida afasta qualquer companhia com um rosnado. Por isso digo que a refeição comunitária nos humaniza.

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Comer e beber não constituem, todavia, uma experiência unicamente antropológica e sociológica, mas goza também de significação teológica. Não é só experiência humana e social, mas também espiritual! O evangelho de Lucas, de modo especial, nos ajuda a perceber esta dimensão através da comensalidade de Jesus, retratando esta temática com uma relevante insistência, como na refeição com os publicanos na casa de Levi (5,29-39); na casa de um fariseu, onde aparece uma mulher pecadora, que banhava os pés de Jesus com suas lágrimas e os enxugava com os cabelos (7, 36-50); a multiplicação dos pães e peixes em Betsaida (9,10-17), que no evangelho de Mateus (11,21-23) será alvo de uma ameaça de Jesus, vez que nem mesmo com o milagre ali operado as pessoas se arrependeram e creram n´Ele; uma segunda e uma terceira refeição com fariseus (Lc 11, 37-54/ 14, 1-35), grupo tão criticado por Jesus; a ceia pascal (22, 14-38) com a presença do traidor à mesa (cf. v.21); após a ressurreição, em Emaús (24, 13-35) com os dois discípulos “insensatos e lentos de coração para crer” (v.25); e por fim, com a comunidade reunida em Jerusalém (24, 36-43), onde perturbados, os apóstolos ainda guardavam dúvidas em seus corações (cf. v. 38).

Curioso notar que em todas essas refeições mencionadas há uma constante presença de pecadores à mesa, o que se torna um alvo de crítica para os fariseus: “Por que comeis e bebeis com os publicanos e pecadores?” (Lc 5,30). Também “o fariseu que o havia convidado [para a refeição] pôs-se a refletir: ‘Se este homem fosse profeta, saberia bem quem é a mulher que o toca, porque é uma pecadora’” (Lc 7,39). Ora, Jesus não buscava comer e beber junto aos “santos e perfeitos”, mas fazia das refeições uma oportunidade de ensinar aos pecadores o caminho da santidade e da perfeição. É neste sentido que é compreendida a resposta que Ele dá aos fariseus, quando estes o criticam por tomar a refeição com os apontados, por eles mesmos, como pecadores: “Os saudáveis não têm necessidade de médico e sim os doentes; não vim chamar os justos, mas sim os pecadores, ao arrependimento” (Lc 5, 31-32). Desta forma, para Jesus, a refeição era uma oportunidade para fazer este “chamado” aos pecadores, ou melhor, um “convite” para convergirem na direção certa rumo ao Reino, a fim de participarem de seu festivo e perene Banquete da Vida, onde toda a fome e sede serão definitivamente saciadas, pois Ele mesmo servirá o manjar da Graça à mesa da casa do Pai.

Ao contrário dos figurões e das personalidades ricas que são convidadas para os banquetes luxuosos e ostensivos deste mundo, no Banquete do Reino de Jesus, os pecadores, pequeninos, empobrecidos, marginalizados e oprimidos é quem são os convidados VIPs (sigla inglesa de Very Important People, que significa “pessoas muito importantes”). São estes os felizes, que famintos e sedentos da justiça, serão saciados na refeição salutar do Reino (cf. Mt 5,6). São estes, que excluídos das refeições deste mundo, até mesmo das mais básicas, os que serão os primeiros incluídos e tomarão os primeiros lugares à mesa do Banquete Celeste.

Há que se conscientizar, contudo, a respeito da necessidade de antecipar a abundância desta refeição escatológica, bem como identificar e alimentar, desde já, os seus convidados VIPs. Para esta compreensão, uma das passagens já mencionadas de Lucas poderá nos ajudará: o relato da multiplicação dos pães e peixes (9, 10-17). Neste episódio, os discípulos voltam de uma missão que Jesus lhes havia incumbido e vão contar para Ele como foi a experiência. O Mestre então toma consigo os apóstolos e vai com eles a um lugar deserto, na direção de uma cidade chamada Betsaida, na Galileia, região de empobrecidos. As multidões percebem a movimentação e vão atrás de Jesus, que atraindo-as para si, as acolhe, fala do Reino de Deus e cura os necessitados (cf. v.11). Com esta atitude, já se pode reconhecer um primeiro sinal antecipador do Banquete Messiânico: Jesus não é elitista, mas conquista e atrai as pessoas de todo o tipo, sobretudo os que pouco ou nada possuem, e os acolhe, alimentando-os primeiramente com sua Palavra, prenunciando as maravilhas do Reino de seu Pai não só àqueles a quem Ele constituiu apóstolos, mas a todos os que desejam segui-lo no caminho discipular. Ele não exclui ninguém, pelo contrário, os acolhe, proclama a Boa Notícia e restitui a saúde, do corpo e da alma, aos carentes. Em seguida, “o dia começa a declinar” (v.12), como em Emaús (cf. 24, 29b), e com a noite chegam também a fome e o cansaço do corpo. Então os Doze se aproximam de Jesus e pedem que Ele resolva o problema. Porém, categoricamente escutam do Mestre: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (v.13). Aqui encontramos um segundo ponto que nos exorta a promover a saciedade do Reino na história. Como os discípulos, muitas vezes queremos colocar nas mãos de Jesus aquilo que Ele colocou nas nossas antes para resolvermos. De “barriga cheia”, vivemos exclamando: “Seja o que Deus quiser”, replicando muitas vezes aquele que foi o gesto de Pilatos (Mt 27, 24c). Petulantes e insolentes, ousamos questionar a Deus os motivos pelos quais “Ele permite” a fome e a miséria que assolam o mundo, sem perceber que este, antes de tudo, é um questionamento que Deus faz para nós. Após receberem a ordem de Jesus, os discípulos logo respondem que possuem apenas cinco pães e dois peixes, não sendo assim o suficiente para alimentar as cinco mil pessoas (cf. v.13b-14). Neste episódio, em Lucas, Jesus não faz uma pergunta fundamental aos Doze, como faz no correlato em Marcos (6,38), onde logo após os discípulos apresentarem a proposta irônica de comprarem os pães para a multidão, Jesus inquire: “Quantos pães tendes? Ide ver”. Projetemos esta interpelação de Jesus a um plano global, nestes nossos dias atuais: se cada pessoa, olhando para tudo o que possui, e ainda que fosse pouco (cinco pães e dois peixes), resolvesse partilhar com os que nada têm, ainda haveriam a fome e a miséria no mundo? A solução do problema não consiste em adquirir mais, mas em partilhar o que se tem. Assim, fica uma pergunta para todos nós, hoje: não é escandaloso partilhar apenas o “pão consagrado” sem partilhar o “pão nosso de cada dia”?

Na sequência do relato lucano, o Mestre Jesus resolve dar o exemplo: pede que os discípulos organizem e acomodem as multidões em grupos, enquanto tomando os pães e os peixes, Ele os abençoa, parte e dá aos apóstolos para que distribuam à multidão. Todos comem e ficam saciados (cf. vs.14-17a)! As circunstâncias nos fazem recordar um novo Êxodo: como o Senhor, Deus de Israel, outrora atraiu seu Povo ao deserto e ali os instruiu, organizou e alimentou com o maná (cf. Ex 16), agora Jesus também atrai ao deserto (v.12) as multidões pobres, famintas e oprimidas pelo Império, e as alimenta com um farto “banquete da partilha”, onde sobram doze cestos (cf. v.17b), número este que para a numerologia bíblica representa a “totalidade” (como doze são os apóstolos, as Tribos de Israel, etc.), prefigurando e antecipando assim, já neste mundo, a abundância do Banquete do Reino, onde não haverá mais fome, nem sede (cf. Ap 7,16).

Na parábola no Pai Misericordioso (Lc 15,11-32), erroneamente chamada de parábola do “Filho Pródigo” - uma vez que o acento não está na prodigalidade do Filho, mas na misericórdia do Pai -, na figura do filho mais velho, que fica com raiva e não quer entrar para participar do banquete preparado por seu pai, em razão do retorno de seu irmão (cf. v.28), é apresentada uma postura inadequada aos que se dizem seguidores de Jesus. Não podemos ser uma “Igreja alfândega”, como alerta o Papa Francisco (Evangelii Gaudium, nº 47), mas “uma casa paterna onde há lugar para todos com sua vida fadigosa” (ibidem). Não nos cabe dizer quem deve ou não entrar para o Banquete na Casa do Pai, mas sermos promovedores e mensageiros que carregam e fazem ressoar o convite de Jesus à fraterna Refeição do Reino: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3,20).

*Daniel Reis é graduando em Teologia e em Direito, pela PUC Minas. É aluno do curso de Especialização em Liturgia, pela Universidade Salesiana de São Paulo. Membro da coordenação e assessor da Comissão de Liturgia da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança, da Arquidiocese de Belo Horizonte.

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