Religião

20/10/2017 | domtotal.com

Uma pulga estragou minha refeição

Uma excluída do banquete revela-se verdadeira incluída e também promotora de inclusão.

A mesa em todos os evangelhos que narram os mistérios da vida de Cristo, é metáfora de transformação.
A mesa em todos os evangelhos que narram os mistérios da vida de Cristo, é metáfora de transformação. (Eduardo Roda Lopes/Unsplash)

Por Rodrigo Ladeira*

O que é o Reino de Deus? Ao contrário do que eu imaginava, essa questão, que é discutida aos borbotões nas faculdades de teologia, pegou-me de supetão, como um ladrão que não avisa a hora do assalto (cf. Lc 12,39), aliás, essa é uma boa imagem do Reino, que também é parecido com a semente lançada nos diversos tipos de terrenos (Lc 8,4ss); ou com uma lâmpada que deve ser colocada no candelabro (Lc 8,16). Mas, para além de toda metáfora, o Reino é perdão, amor de excesso e feito para ser saboreado, degustado (cf. Lc 7,36ss), cuja Sabedoria só é reconhecida graças a “todos os seus filhos” (cf. Lc 7,35).

LEIA TAMBÉM:
Banquete marginal: quem são os convidados do Senhor?
Os banquetes do Reino: a prioridade dos últimos e pequenos
Os convidados 'VIPs' ao banquete do Reino

'Despacito! Devagar!' Já ensinava padre Zezinho, a sabedoria do Reino é feita numa “terra de contrários”, onde “vai pra trás que vai pra diante”. O Reino de Deus está mais abaixo. Revela-se intimamente ligado a essa “bendita sabedoria”, fustigadora de novas questões, “empulgando” nossas velhas orelhas de pretensos sabidos de um Deus “nomeado demais”. O Reino não cabe e nem pode caber na nossa pífia e quadrada medida. Eis o motivo dessa nossa prosa despretensiosa: uma pulga que devemos estimar sem domesticar. Pulguinha que quer morar nas dobras da nossa orelha, tradicionalista e demasiado segura de si, coçando-nos novidades do Reino, esse que só se compreende “em convívio”.

O evangelista Lucas, o mestre dos diálogos conviviais e exímio “pintor da bondade de Cristo”, anuncia o Reino como uma sabedoria revelada e ainda em mistério. O texto de nossa conversa está em 7,36-50, com uma triangulação intrigante: Jesus, aquele que atrai a “pulga” para coçar orelha. Aí, obviamente, temos uma boa orelha que está sem uma cosquinha faz tempo. Trata-se de Simão, “o fariseu”, dono de um ouvido envelhecido, indicado por seu inadvertido modo de partilhar a mesa, ainda muito ritualista, moralizante, legalista. A cena se completa com a chegada de uma mulher, aquela que não foi convidada, uma “impura” e conhecida pecadora da cidade, que para pavor do fariseu se revela, ainda que sem nome e sem fala, como a verdadeira anfitriã do Reino, porque “demonstrou muito amor”. É bom notar que o texto em questão é a tradução, a ilustração “ao vivo” da máxima encontrada em 7,35, que tonaliza a cena protagonizada por uma intrusa. Vale dizer, só os “pequenos”, os pobres, os pecadores, “os filhos da sabedoria” são capazes, porque “esvaziados-de-si”, de intuir a lógica-ilógica do agir de Deus. O Reino não só é “dos não-convidados” (finalidade), mas é “os não-convidados” (identidade).

O texto imediatamente anterior a 7,36-50 mostra o contraste que só a genialidade e clareza lucana são capazes de criar. Jesus está para João Batista. Este é o conhecido precursor daquele. Essa é a ideia já fixada inclusive na nossa cabeça cristã. Mas, aqui, no capítulo 7, aparecerá uma novidade. Na verdade, Jesus agora contradiz aquele que o precedeu e preparou-lhe o caminho. No fundo, João esperava o mesmo Messias “diferente”, como era a expectativa de todo Israel, ou seja, mais “bombeiro” e “higienizador”. Não esperavam um Messias tão pleno de amor. Arrematando a contradição, e para além dela, a perícope encontra sua solução com uma questão gastronômica que dá o que pensar e nos interessa como lugar-motivo para a cena que virá. Lucas faz Jesus dizer, em tom de ironia, à multidão: “Veio João Batista, que não come pão e não bebe vinho, e dizeis: é louco. (v.33). Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: eis um comilão e beberrão, amigo de cobradores de impostos e pecadores (v.34)”. Em seguida, o arremate, faz ver a sanidade da “louca sabedoria” divina, que conduz o leitor para dentro do texto da “mulher pecadora”, uma simpática, apesar de “coçativa”, pulga.

Jesus gosta de um convite para comer. Não é à-toa que o chamavam de glutão. A mesa, aqui e em todos os evangelhos que narram os mistérios da vida de Cristo, é metáfora de transformação. Não há relato de comensalidade do guloso Jesus que não aconteça um sinal de reconfiguração como indicativo da presença do Reino que é Jesus.

Um fariseu convida Jesus para um almoço (cf. Lc 7,36). É assim que Lucas dá a indicação de lugar da cena que nos interessa. Tudo faz crer que veremos narrada aí a história dessa personagem (um fariseu). Aliás, ele, ao contrário da terceira ponta desse triângulo, será nomeado no v.40. Simão é seu nome. Não fosse a “pulga” anônima feminina que aparece no v.37, tudo estaria na lógica de um enredo previsível. É que o amor é imprevisível. Uma penetra, mulher e contumaz pecadora, de cabelos soltos (as mulheres de família naquela sociedade cobriam sempre os cabelos ao sair de casa) não podia significar outra coisa senão que a invasão de um “perfume” de não santidade, atrapalhando o banquete individualista de Simão. Está aí a imagem da presença do Reino de Deus, feita gesto gratuito, que só podia aparecer assim, em desconserto.

A mulher apareceu na casa de Simão claramente motivada pela presença de Jesus. Ela já o conhecia antes de decidir revelar-se amorosamente ao seu amado, para nada pedir. Os gestos descritos por Lucas, que aparentemente estragam o almoço do fariseu Simão, são da ordem de uma confissão amorosa. Veja que aqui em Lucas o que fica evidente não é tanto uma confissão de fé no messianismo de Jesus. A fé propriamente teologal aparecerá apenas no final da narrativa, como conatural ao encontro verdadeiro e na boca de Jesus – “tua fé te salvou” – o doador-doado da fé, ao despedir-se da mulher como que a nomeando porque incluída no corpo dele (eucaristia), aquela excluída da mesa farisaica. Lucas está dizendo que os gestos têm sentido neles mesmos. Não são um meio para receber algo, coisa própria dos sistemas religiosos de todos os tempos.

É tão feliz a sucessão dos gestos feitos pela “pecadora” que Lucas precisa repeti-los por duas vezes (vv. 34-38 e vv. 44-46). São gestos eivados de espontaneidade, totalmente desritualizados e por isso embaraçosos e vistos como extravagantes pelo pretenso anfitrião de Jesus.

A mulher se coloca por detrás, aos pés de Jesus. Não há aí uma imagem explícita de seguimento? Além disso, a “inominada” penetra banha os pés de Jesus com suas lágrimas, enxuga-os com seus cabelos, cobrindo por fim os pés de Jesus com beijos e perfume. Trata-se de um claro comportamento impróprio e equivocado. Simão e seus colegas fariseus estão em estado de choque. Como é que pode alguém da envergadura profética de Jesus permitir que uma mulher, pecadora pública, jogue sobre ele o descrédito dos impuros? Mas a questão está mal focalizada. A invasora, sem ser a anfitriã, lembra a Simão, no reclame feito pelo próprio Jesus, que a verdadeira unção, coisa que o fariseu inclusive esqueceu-se de fazer, sinal costumeiro de respeito e acolhida ritual, é derramar-se em dádiva ao outro da nossa existência. Ela amou até transbordar. O mais intrigante é que a mulher segue uma nova lógica (certamente a lógica do Reino de Deus), a da unção dos afetos. Ela prefere o caminho da intimidade, do amor de quem, achando-se perdida no amado, se move, atraída pelo amado de sua vida. Ela é todo amor, sem os costumeiros adjetivos (eros, ágape, filia) limitadores do próprio amor, que de tão impuro, purifica, renova, transforma... É o amor que traz à lume o amor. Há, para Lucas, uma ligação profunda entre o perdão dos pecados e o amor dadivoso.

Nos verdadeiros banquetes cristãos interessa saber ouvir os “sem nome”. Nomear aí é tomar posse. A verdadeira nomeação se dá em gesto e com um maravilho “ide em paz”. Aqui a palavra é dom que subverte o rito inexpressivo, farisaico, preocupado demasiadamente com a lógica muito bem formatada da santidade feita de pureza meramente ritual. Uma excluída, feita cabelos soltos (liberdade), lágrimas lavadoras (santidade), beijo nos pés (adoração), odor de conversão (salvação). Aí está uma reversão que indica que o perdão não é uma abstração teórica, mas caminho de Reino, de salvação, urdida por traços demasiadamente humanos. Uma excluída do banquete revela-se verdadeira incluída e também promotora de inclusão. Eis a tradução para o “Tua fé te salvou” (v.50). Uma pulga me coçou a orelha!

* Rodrigo Ladeira é Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) / BH-MG. Coordena as atividades de educação continuada e pós-graduação lato sensu dessa mesma IES. Ensina Liturgia e Sacramentos em vários cursos livres e de especialização teológica em Belo Horizonte-MG.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas