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24/10/2017 | domtotal.com

Celulares e Smartphones: uso e abuso?

Estudos recentes demonstram que o uso excessivo de smartphones pode causar depressão, estresse e insônia.

Além dos problemas musculares, o uso excessivo de celulares e smartphones traz mais riscos de acidentes.
Além dos problemas musculares, o uso excessivo de celulares e smartphones traz mais riscos de acidentes. (Reprodução)

Por Lino de Freitas*

Não há dúvida que os avanços tecnológicos incorporados aos aparelhos eletrônicos nos últimos anos trouxeram grandes benefícios para nossas vidas. Telefones celulares, smartphones, tablets e computadores lap-top são apenas alguns exemplos de dispositivos que são corriqueiramente utilizados e cujos enormes recursos facilitam bastante o dia a dia da maior parte das pessoas.

Com efeito, há pouco mais de dez anos era difícil imaginar a possibilidade de se utilizar um aparelho portátil, que cabe no bolso e é capaz de receber ligações telefônicas e mensagens de qualquer parte do mundo, que possibilita extensas pesquisas em verdadeiras enciclopédias ambulantes - Google, Yahoo, entre outras - que permite efetuar transações bancárias com toda a segurança e que é, ao mesmo tempo, máquina de retrato e filmadora. E tudo isso a um preço abordável para muitos.

Entretanto, todo esse progresso que, inegavelmente, transformou a vida das pessoas, veio acompanhado de alguns aspectos negativos, dentre os quais salienta-se o chamado vício de celular(mobile phone addiction, em inglês).

Estudos recentes demonstram que o uso excessivo de smartphones pode causar depressão, estresse e insônia. Segundo o professor de Psicologia Organizacional e Saúde da Universidade de Lancaster, Reino Unido, Cary Cooper, a utilização em demasia desses aparelhos oferece uma saída passiva na qual o usuário não precisa interagir com o mundo ou enfrentar seus problemas. Assim como a luz da televisão atrai e entorpece os sentidos, os smartphones e celulares, segundo o mesmo psicólogo, podem causar vício e outros malefícios.

Outro efeito negativo do uso em excesso de smartphones está relacionado à postura do usuário. Ao permanecer com o pescoço curvado para baixo trocando mensagens por períodos de tempo prolongados uma pessoa pode ser acometida por dores crônicas, além de estar sujeita a riscos com a coluna cervical.

Nesse contexto, Luiz Fernando Cocco, coordenador de Ortopedia do Hospital Samaritano de São Paulo, relata que é comum receber em seu consultório pessoasda chamada “geração da cabeça baixa”, expressão por ele criada para se referir a crianças e adolescentes corcundas com a visão sempre voltada para o celular.Segundo este médico, em 2016 a quantidade de atendimentos a pacientes com problemas devido ao mau uso de dispositivos móveis aumentou pelo menos 12% em relação ao ano anterior. Destes, 82% são adolescentes ou adultos jovens.

Além dos problemas musculares, o uso excessivo de celulares e smartphones traz mais riscos de acidentes. O médico Cláudio Gil Araújo, professor do Instituto da Coração da UFRJ, relata a ocorrência de incidentes como gente que tropeça em escada, cai na rua e esbarra em outras pessoas enquanto lê ou escreve nos aparelhos. Sem mencionar outros mais graves, como acidentes de trânsito com vítimas.

Tais problemas têm se exacerbado ultimamente, a ponto de se tornarem objeto de sérios estudos em muitos países. Uma pesquisa recente com 2000 crianças nos EUA com idade de até 12 anos revelou que 75% delas possuem smartphones e isso menos de 10 anos após o lançamento do primeiro iPhone da Apple. Ou seja, ao invés de brincarem, exercitarem-se ou fazerem novas amizades, muitas dessas crianças vivem isoladas em um mundo à parte. Outro fato alarmente, também nos EUA: cerca da metade dos adultos entrevistados afirmaram que não podem viver sem seus smartphones. O resultado dessa pesquisa, ilustrado no gráfico a seguir, mostra que uma pessoa na faixa etária de 18 a 24 anos consulta seu smartphone cerca de 80 vezes por dia. Considerando que apenas 60% das pessoas nessa faixa etária possuem tais aparelhos, a real taxa de utilização por pessoa chega a 150 vezes por dia, equivalente a quase 4 horas de uso a cada 24 horas, o que, há que se convir, é demais!

São mostrados a seguir alguns indícios de que uma pessoa pode estar com problemas devido ao uso excessivo de smartphones e outros dispositivos móveis. Se você se enquadra em uma dessas categorias, deve considerar uma eventual mudança de hábitos em relação a esses dispositivos móveis. São elas:

1) quando conversa com outra pessoa, você sempre olha para o seu smartphone;

2) ao chegar em algum lugar, a primeira coisa que você faz é carregar a bateria do celular;

3) você cai no sono segurando seu smartphone;

4) a primeira providência ao acordar é verificar se recebeu algo de novo em seu aparelho;

5) sua conta de celular está sempre nas alturas;

6) você se sente ansioso e estressado quando seu smartphone não está por perto. Tal fato é mostrado na figuraseguinte, que ilustra os resultados de outra enquete recente realizada nos EUA.

Embora os dados não estejam disponíveis, acredita-se que a situação não seja muito diferente em outros países do mundo nos quais o uso de smartphones está bem difundido, incluindo o Brasil.

Entretanto, nem tudo está perdido. O Dr. Keneth Cooper, mundialmente famoso por ter desenvolvido, já em 1960, um teste simples para medir a capacidade física de atletas amadores, recomenda algumas práticas que podem ajudá-lo a livrar-se de alguns dos problemas associados ao “vício do celular”.

Saiba o momento de usar

O telefone está ao alcance da mão, mas isso não implica que você deve usá-lo a todo instante. Há momentos em que você precisa se concentrar em outras tarefas, entre elas a direção de um carro. Aliás, nunca é demais lembrar: celular e direção não combinam!

Converse mais

Ao invés de falar ao celular, procure conversar pessoalmente. Estar cara a cara com alguém torna a conversa muito melhor e mais compreensível. A linguagem corporal ajuda na transmissão das mensagens.

Exercite-se mais

A menos que você seja um executivo muito importante que não pode deixar de atender qualquer ligação, fique algumas horas longe do telefone. Exercícios aeróbicos, como natação, bicicleta e corrida, aumentam o fluxo de sangue e oxigênio para o cérebro, regenerando os receptores e ajudando a melhorar o raciocínio.

Faça um balanço

Da mesma forma que um fumante não consegue ficar sem um maço de cigarro por perto, uma pessoa viciada em smartphones tem dificuldades. Estabeleça horários do dia para o uso do aparelho e evite fazer pequenos acessos fora destes períodos.

Use-o melhor

Não há nada de errado com os smartphones, o problema é como a pessoa os usa. Como qualquer ferramenta, o smartphone precisa ser usado com sabedoria. Estipule horários para usar o aparelho e não faça diversos acessos rápidos ao longo do dia.

Ao exercitar algumas dessas práticas, todasrelativamente simples, em pouco você poderá se livrar da dependência em relação ao celular ou smartphone. Faça a sua parte e lute para evitar que o fato retratado na charge a seguir torne-se uma realidade.

*Lino de Freitas possui graduação em Ciência dos Materiais e Metalurgia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1976), mestrado em Engenharia Metalúrgica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1979) e doutorado em Engenharia Metalúrgica - Ecole Polytechnique de Montreal (1983). Atualmente trabalha como consultor independente e é responsável técnico da empresa LRF Consultoria Ltda. É professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE).

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