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24/10/2017 | domtotal.com

Os caminhos do cérebro

Não se triture ou se martirize sem necessidade.

Percebi que mesmo no mais tenebroso dos infernos, alguma luz ainda podia brilhar.
Percebi que mesmo no mais tenebroso dos infernos, alguma luz ainda podia brilhar. (Reprodução)

Por Lev Chaim*

Era sexta-feira e fui ao cinema aqui em Heusden, na Casa do Governador (Het Gouverneurshuis). Era um filme romântico, dramático e lindo: “A luz entre oceanos” (The light between oceans). A história se passa na Austrália ocidental, em uma pequena ilha, a ilha do Farol - Janus. O casal que morava na ilha tentava ter filhos e todas as duas gravidezes falharam. Um dia, eles encontraram uma menina num barquinho naufragado e a adotaram: Lucy. Felizes para sempre? Não! Felizes até que depararam com uma outra história.

Contei o filme sem revelar tudo, pois talvez vocês ainda possam vê-lo por ai. Fui alegre ao cinema e voltei triste, cabisbaixo, sombrio, impressionado com a viravolta na vida das pessoas. Como pode tudo isto acontecer e marcar para sempre a vida de alguém? - perguntava-me ao caminhar de volta pelas ruas de paralelepípedos da minha cidade. Tudo muito escuro e a atmosfera o ajudava a carregar a mente para o lado mais sombrio do filme, esquecendo-se do lado bom.

Conforme caminhava,  algo estalou em minha mente. Terapia cognitiva: há bem pouco havia lido um artigo sobre o assunto atentamente. Lembrei-me de uma frase ali escrita: “O que é ruim continua sendo ruim mesmo com a ‘terapia cognitiva’, mas não se torna nunca um desastre irreparável”. Esta é a essência da terapia. A sua mente pode lhe ajudar a ordenar as coisas sombrias, de forma que você possa reverter o quadro e buscar outras associações mais alegres. O filme terminou triste, muito triste, mas mostrou a compaixão final das pessoas que evitaram de ir até as últimas consequências, ao pensar no mal que poderiam causar, quando crianças estão envolvidas.  

Com este último pensamento, a minha cabeça parou de girar ao redor dos trágicos acontecimentos. Percebi que mesmo no mais tenebroso dos infernos, alguma luz ainda podia brilhar e trazer você de volta à realidade – triste, mas não tão funesta que pudesse lhe tirar o ânimo para com a vida. No final, tudo era um filme, baseado num best-seller de M. L. Stedman, com atrizes que já haviam ganham o Oscar e com um ator feito sob medida para o papel de guardião do farol, que iluminava dois oceanos na pequena ilha de Janus.

Às vezes, o círculo vicioso de se pensar triste vira uma armadilha, pois ele corre por si, quase automaticamente e, na verdade, você acaba não pensando nada e se deixa levar apenas pela negatividade. Todos gostam de gentilezas. Aprenda a ser gentil consigo próprio. Não se triture ou se martirize sem necessidade. Nesta ação cognitiva, as coisas mudam de perspectiva e sempre aparece uma luz no final do túnel. Portanto, dê as devidas proporções aos fatos, sem se deixar levar somente pelas associações negativas já gravadas na mente. Só você poderá mudá-las. Mude e tenha a coragem de ser feliz por uns instantes, algumas horas, alguns dias ou por muito mais tempo.

Qual é o principal objetivo da terapia cognitiva? Fazê-lo aprender a recolocar os diversos acontecimentos do dia-a-dia em uma forma mais positiva e mais equilibrada. Com isto, os seus sentimentos internos também se modificam e assumem outras perspectivas, inclusive positivas. Você aprende a dizer uma coisa que, às vezes, só com a idade a gente diria: “Emoções negativas fazem parte da vida e também podem ser úteis”.

O casal do filme perdeu duas crianças que nasceram prematuras. No desespero, eles encontraram uma outra e a adotaram como se fosse a própria filha, quebrando a lei ao contar que aquela criança era natural deles. Até que um dia eles descobriram a verdadeira mãe da criança. Ai, inicia-se um drama que não foi bom para os adultos e muito menos para a pequena Lucy. Quando tudo explodiu e se transformou num drama de proporções gigantescas, a vida lhes deu uma lição: ‘nada como um dia após o outro’.

Desespero sim, mas não desespero que lhe impeça de viver o outro dia e que lhe roube a esperança. Se um dia conversarem com um psicólogo ou psiquiatra, perguntem sobre a ‘terapia cognitiva’. Talvez ele possa lhes explicar melhor. Eu a achei interessantíssima e a consegui aplicá-la várias vezes em minha própria vida. O resultado foi sempre positivo: alegria, tristeza, mas sem desespero infinito de tirar o fôlego. E tudo isto, sob o comando do meu próprio cérebro, que é quem controla a forma de caminhar do nosso pensamento.


*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras para o Domtotal.

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