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13/11/2017 | domtotal.com

Em São Paulo não chove mais poesia

Quando vimos milhares de folhetos poéticos caindo a esmo na cidade e pouca gente lendo nossos recados começamos a crer que alguma coisa estava muito errada

Devo a São Paulo mais poesia . Todos devemos.
Devo a São Paulo mais poesia . Todos devemos. (Foto: André Tambucci/ Fotos Públicas)

Por Ricardo Soares*

  Subi no alto do edifício Martinelli, lá no topo, onde chamam “casa do Comendador”. Fica em São Paulo e o dia estava nublado mas dava para ver perfeitamente a avenida São João lá embaixo. Estiquei os olhos sem amor  até onde a visão podia alcançar , vi os carros,lá em cima na avenida Ipiranga, os ônibus, os edifícios irregulares e desbotados, as pinturas descascadas , imaginei quantas pessoas morariam ali naqueles apartamentos tristes e só fiquei  pensando em que momento São Paulo tinha se lascado de vez. Exatamente em que dia e em que hora a megalópole tinha se transformado num troço inviável, feio , desumano com gente agressiva  e mal amada se espremendo nos trens e nos metrôs em busca de migalhas ?

Não me venham com aquele discurso de que isso é generalização nem com aquela falsa cosmética de querer maquiar a cidade como se fosse aquilo que não é . Ela é descortês, violenta, cheia de miséria e terríveis contrastes econômicos. Sim , há exceções, mas estamos falando das regras. Aqui ou cumpra-se ou dane-se. São Paulo da garoa não existe faz tempo. A garoa vem tão pouco que nem mais nos resfria. Vem é chuva pesada, chuvarada, tempestade , tormenta, raios em profusão dando todos os sinais que em todos os sentidos por aqui o clima é pesado.

Durante muitos anos venho me cansando dessa enxurrada de balelas da “cidade locomotiva da nação”, da cidade que só conhece o trabalho, a “prosperidade”, a força da grana, consumismo, bens, carros e imóveis, a cidade dos shoppings e das praças de alimentação , de crianças mal educadas por pais egoístas  que não sabem dar limite aos pimpolhos, muita gente de baixíssima extração humanista, sem solidariedade, sem senso comunitário, gente sem solução que vota em um prefeito que lhes oferece ração.

Quando penso aqui de cima que nada tem solução nesse enorme aglomerado humano, mais um dos imensos formigueiros planetários que nos conduzem ao abismo, fico rindo dos epítetos inventados para São Paulo  como “capital da solidão”, “capital da vertigem” , “alma da nação”. E fico lamentando que figuras deploráveis sejam o símbolo da cidade, gentinha cujo único esforço foi investir, comprar, ganhar , aparecer na televisão.

São Paulo, na geografia mundial , é mais uma cidade do “planeta favela” urbanizado e injusto que amontoa milhões de pessoas de maneira caótica e degenerada fingindo estar tudo normal. O que pode estar normal aqui ou no Rio, Mumbai , Jacarta, Shangai, Daca, Karachi, Calcutá, Luanda ou Manila ? como podemos chamar isso de cidades e não de lixos urbanos o que seria  mais correto ? Afinal em lugares onde as benesses são apenas para poucos não pode reinar paz e harmonia. E não estou falando de sociologia ou socialismo mas de justiça.

As cidades de ferro e vidro, as cidades dos elevadores panorâmicos e das tristezas de 360 graus de raio de visão. Dos aterros imundos e do lixo não reciclado. Que visão do mundo cinza pois não é ? assim vamos demolindo as utopias, passando as motoniveladoras nos planos , aplainando sonhos. Ser feliz é ter saldo bancário, limite alto no cartão de crédito, colher resultados, infartos e derrames cerebrais. É disso que a civilização paulistana se ufana quando se espreme horas a fio nas suas caóticas marginais, com calor e poluição, temendo assaltos em meio ao congestionamento ?

Desse mesmo lugar , alto do Martinelli, de onde contemplo séculos de “paulistanidade” recordo do dia em que eu e cinco amigos fizemos chover poesia sobre a cidade. Ainda tínhamos um olhar muito amoroso sobre ela. Ainda acreditávamos que fazer chover poesia sobre ela era sim uma declaração de amor, um abraço, um beijo, um aperto de mão. Mas quando vimos milhares de folhetos poéticos caindo a esmo na cidade e muito pouco gente recolhendo ou mesmo lendo nossos recados começamos a crer que alguma coisa estava muito errada. Tirando algum registro da mídia o resultado no coração das gentes foi quase nulo. Não diluímos nenhuma massa de rancor. Pior que isso. No meu caso iniciei a escalada do meu rancor definitivo contra a cidade que a partir dali, começo dos anos 80, foi despencando todas as ladeiras  rompendo sempre os limites de incivilidade, elegendo idiotas, bandidos e corruptos  para sua vereança , passando estrume nas suas próprias paredes.

São Paulo virou uma cidade cujo corpo pesado, enorme como um treminhão carregado de entulho, subiu em todas as calçadas, desrespeitou todas as faixas de segurança, optou pela velocidade até quando o poder público pede para desacelerar. Dá para chamar isso de um lugar ? dá pra pensar nesse “recanto” como um ninho de poesia?  Devo a São Paulo mais poesia . Todos devemos. Mas não  sei mais faze-los pois essa urbe, vista de cima ou lá embaixo , parece apenas cenário de uma hedionda e nada gótica novela de horror. Em São Paulo não chove mais poesia.

*Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros e dirigiu 12 documentários. Escreve às segundas e quintas no DOM TOTAL.

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