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14/11/2017 | domtotal.com

Ambiguidades e certezas da revolução

Grande parte dos russos se sente orgulhosa da época em que seu país liderava um império de 15 repúblicas e influência global.

A revolução foi a responsável por tornar a Rússia uma potência mundial.
A revolução foi a responsável por tornar a Rússia uma potência mundial. (Pablo Pires Fernandes)

Por Pablo Pires Fernandes*

Historicamente, 100 anos não é muito tempo para dimensionar os efeitos da Revolução Russa de 1917. O país que atravessou quase todo o século 20 sob um sistema de governo socialista lida com a herança revolucionária de maneira bastante ambígua, ainda buscando analisar e, sobretudo, avaliar os fatos e as consequências de uma experiência singular.

No centenário da revolução bolshevique, que levou Vladimir Lênin (1870-1924) ao poder e inaugurou uma proposta de Estado socialista, pouco se fala ou se vê da histórica ruptura na capital Moscou ou mesmo em São Petesburgo, antiga sede do governo onde os revoltosos derrubaram a monarquia czarista.

Moscou observou manifestações isoladas diante da estátua de Karl Marx (1818-1883), onde pequenos grupos comunistas e estrangeiros que vieram ao país para ver de perto como a Rússia lida com o seu passado.

O governo do outro Vladimir – este chamado Putin – ignorou a data e manteve apenas as comemorações da marcha de 1941, realizada desde 2003, em homenagem à resistência moscovita diante das tropas nazistas, que estava a 30 quilômetros da capital. Tanques soviéticos, guardas com roupas da Segunda Guerra, cantores de música pop e familiares dos combatentes ocuparam a Praça Vermelha.

Os russos em geral não marcaram a data que, por causa da variação de calendário – do juliano para o gregoriano – tem a data de 7 de novembro e não no fim de outubro. Poucas pessoas falam a respeito do passado soviético ou se referem ao período em que o país era uma das duas maiores potências mundiais ao lado do então rival Estados Unidos. A verdade é que grande parte dos russos se sente orgulhosa da época em que seu país liderava um império de 15 repúblicas e influência global. Ao mesmo tempo, há certo ressentimento com o fracasso do projeto socialista nos moldes totalizantes que vigorou até 1991. Este duplo sentimento explica muito da atual idolatria que os russos têm por seu presidente Putin, que incorporou uma liderança forte, de apelo nacionalista, que parece ter devolvido a autoestima do povo russo.

No entanto, é a figura de Lênin que ainda é onipresente na majestosa Moscou. Nela, tudo é grandioso e monumental: praças, avenidas e prédios, inclusive os anteriores à época soviética. Nesse ambiente imperial e sob o frio que começa a chegar a zero grau, a imagem do primeiro Vladimir surge em estátuas, em mosaicos nas belas estações de metrô, assim como a foice e o martelo podem ser vistos por toda parte.

Não é apenas a “imageria camunista” que expõe o passado recente. Da população de pouco mais de 141 milhões de habitantes, mais de 80% nasceu antes da abertura do país a uma economia capitalista, portanto, ainda trazem em seu DNA cultural a história soviética originada na Revolução de 1917. Assim, a negação desta história – o que muitos tentam – é impossível. E, apesar dos traumas e sequelas, as conquistas da revolução são indiscutíveis.

A revolução foi a responsável por tornar a Rússia uma potência mundial, transformar a estrutura essencialmente agrária do país em um poderoso complexo industrial, impulsionando ainda as corridas armamentista e espacial. Mais do que isso, a bandeira idealista em defesa dos direitos dos trabalhadores contra a exploração inerente à lógica capitalista ainda se fazem ecoar em todo o mundo, a despeito das constantes tentativas de grupos espúrios que, no Brasil e em outros países, buscam destruí-lo. Estes, esperamos, a história não os absolverá.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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