Religião

14/11/2017 | domtotal.com

Jogaram pedra no Gênero

É preciso vencer, por meio da empatia pelo outro diferente, qualquer tentação à homogeneidade dos heterogêneos: pessoas, pensamentos, ideias, visões de mundo, etc.

O fato é que Butler foi “pega para Cristo”.
O fato é que Butler foi “pega para Cristo”. (Divulgação)

Por Tânia da Silva Mayer*

Judith Butler veio ao Brasil conversar sobre Democracia, sobrou falta de educação e fascismo por parte de alguma gente brasileira. Desde a confirmação da sua vinda ao Brasil, Butler sofreu perseguição dos grupos conservadores que a associam ao que somente eles entendem por “ideologia de gênero”. A filósofa é reconhecida autoridade na construção de uma teoria sobre o gênero, salientando sua fluidez e seu caráter político, fazendo-nos perceber como a sexualidade humana está para a política ao ponto não poder ser compreendida apesar desta.

O fato é que Butler foi “pega para Cristo”. Carregou sozinha a cruz de um movimento cultural, social e político – também econômico – que, conforme afirmou em entrevista à Boitempo, “é muito poderoso”, muito maior que a filósofa, porque anuncia uma nova sociedade na qual as pessoas são respeitadas pelo que são e pelo modo como vivem. Isso é resultado do rompimento com um modelo também sócio-cultural-político-econômico fundado na concepção de que um gênero, no caso o masculino, deve desempenhar um papel autoritário nas relações, subjugando tudo o que está ao seu redor. Por isso, ainda que correntes conservadoras se nutram da raiva machista, misógina e heteronormativa para vociferar uma homogeneidade inexistente no tocante à sexualidade humana, esse modelo está fadado ao fracasso por possuir uma ótica limitadora do mundo, uma sociedade antidemocrática e sem espaço para todos.

Precisamente, ninguém tolera o modelo patriarcal, misógino-machista-heteronormativo, quando se encontrou com a liberdade para reconhecer-se e reconhecer o outro eticamente na teia das relações construídas cotidianamente. O movimento das épocas sinaliza o lugar fundamental que os estudos de gênero, desenvolvidos por Butler e por outros pesquisadores e pesquisadoras de envergadura, ocupam no processo de libertação dos sistemas escravagistas, redutores da experiência humana. A transformação operada, ainda que lentamente, nas sociedades, não se dá somente em razão das teorias certificadas academicamente, mas de um movimento empreendido e reconhecido na base, isto é, na experiência concreta da vida de pessoas comuns e reais, no seu trânsito doloroso pelas sociedades patriarcais em ruínas.

Os insanos conservadores brasileiros queimaram um boneco, cujo rosto era uma fotografia de Judith Butler, em frente ao Sesc Pompeia, na semana passada. Ainda nesta semana, os atletas do “país das maravilhas”, que ainda sonham com “alice”, agrediram, física, simbólica e verbalmente a pesquisadora e sua esposa enquanto elas embarcavam em um aeroporto paulistano. Vergonha e falta de educação. Não há mais limite para o ódio de alguns atormentados por inimigos e fantasmas que nem eles próprios sabem de onde vieram e se existem. Isso aconteceu muitas vezes ao longo das épocas: queimaram nossas irmãs bruxas, exilaram nossos artistas e intelectuais, condenaram os cientistas, silenciaram vozes periféricas, jogaram pedra na “Geni”, estupraram e mataram nossas meninas e mulheres, entre outras atrocidades: todos inimigos produzidos pelo medo de enfrentar e celebrar as diferenças, a diversidade que somos e formamos.

É preciso vencer, por meio da empatia pelo outro diferente, qualquer tentação à homogeneidade dos heterogêneos: pessoas, pensamentos, ideias, visões de mundo, etc. É urgente também superar o fascismo que compreende o outro como um inimigo a ser eliminado. Nenhuma pessoa é uma “Super Pessoa”, condensando todas as mazelas ou perfeições em si mesma. Antes, é preciso reconhecer e denunciar os sistemas promotores de mortes, sabendo distingui-los de outros que incluem para que haja mais vida. Nesse sentido, corre-se sério risco a eleição das “Genis” a serem apedrejadas quando não se entende e não se conhece o escopo das questões e dos problemas. Ateando fogo e jogando pedra em Butler, queimaram e apedrejaram o gênero que somos em relações de ambiguidade com os outros no mundo. Escolheram o inimigo errado.

A fim de evitar espetáculos circenses infantis esdrúxulos no tocante à sexualidade, o grupo de Pesquisa Diversidade Afetivo-sexual promoverá, no próximo dia 16 de novembro, às 19h30, na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, o “Painel Teologia e Diversidade Afetivo-Sexual”, procurando compreender os “fenômenos que envolvem as diversas manifestações afetivo-sexuais” em nosso tempo. Para cumprir essa empresa, a pós-doutora e socióloga da UNB, Berenice Bento, e o doutor em teologia da EST, André Musskopf, ambos os pesquisadores das temáticas de diversidade sexual e gênero, proporão o debate entre os participantes, entre quem não tem medo de pensar no plural. Participe conosco. Informações (31) 3115 7013 | secextensão@faculdadejesuita.edu.br.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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