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17/11/2017 | domtotal.com

O exemplo dos peixes

O sushi virou um prato universal.

Claro que não somos peixes de cativeiro, mas sempre se pode tirar alguma lição de uma história envolvendo seres vivos.
Claro que não somos peixes de cativeiro, mas sempre se pode tirar alguma lição de uma história envolvendo seres vivos. (Reprodução)

Por Fernando Fabbrini*

Vem do Japão uma história verídica e sensacional, na minha opinião. E que dá muito o que pensar. Tive a oportunidade de ler o estudo profundo a respeito, publicado numa revista científica de renome. Mas tentarei aqui resumi-lo e manter o que nos interessa.

O sushi virou um prato universal. Antes restrito ao Japão – que o inventou – e a outros países orientais, o peixe cru com algas rompeu fronteiras e caiu no gosto da moçada mundo afora, inclusive aqui no Brasil. A primeira coisa interessante sobre o prato é que ele nasceu da necessidade de se economizar energia. Sabemos que o Japão tem uma história exemplar sobre isto. Lá, a eficiência energética não é apenas uma política do governo, mas uma mentalidade. Baixa disponibilidade de energia elétrica – há poucos rios no Japão – e o alto custo das distribuidoras complicam ainda mais a situação. As comunidades dependem muito do carvão mineral e do petróleo. Aprenderam, por exemplo, a reciclar a água quente do banho ou manter apenas um cômodo aquecido durante o inverno. E na cozinha, desenvolveram um menu variadíssimo para ser comido cru – sushis, sashimis e outras delícias.  

Pois bem: com o objetivo de preservar a matéria-prima de sua subsistência – salmões, atuns e outros peixes – os japoneses passaram a criar algumas espécies em cativeiro. Graças ao cuidado que têm com a natureza e seus frutos, a criação de peixes veio dando muito certo.

Porém... (Há sempre um porém nas boas histórias...) Acontece que os sushi-men que adquiriam esses peixes de cativeiro começaram a reclamar. Diziam eles que os peixes eram bons, sim; tudo bem; mas que o sabor não se comparava ao dos peixes soltos, capturados no mar, como antigamente. Um povo detalhista a tudo, cuidadoso e com tal requinte não deixaria passar em branco tal detalhe.

Os criadores puseram mãos à obra para desvendar o mistério. Os espécimes eram os mesmos; os tamanhos, idem; aparentemente não existia nada que diferenciasse uns dos outros. Tentaram incrementar a ração dada, mudar a temperatura da água dos viveiros, mexeram onde foi possível. Que nada: os mestres renomados da cozinha torciam o nariz e insistiam que “faltava alguma coisa” no sabor dos peixes criados.

Até que, um dia, os criadores decidiram escarafunchar todos os detalhes da vida marinha em liberdade e da outra, em gaiolas. Compararam tim-tim por tim-tim e chegaram a uma conclusão inusitada: o único diferencial entre uma e outra era a ausência de predadores. Nas gaiolas, bem alimentados nas horas certas, vivendo tranquilamente, os peixes – digamos assim – se “acomodavam”. Era a boa vida. Já seus semelhantes criados soltos deveriam lutar pela sobrevivência a cada minuto, escapando dos perigos, dos demais gulosos à solta.

Prepararam um teste, botando numa das gaiolas um peixe predador situado estrategicamente na cadeia alimentar. Foi um rebuliço. Os cardumes passaram a nadar mais rápido; sempre atentos à presença do perigo. E esse estresse – sabe-se lá porquê – mexeu no organismo dos folgadinhos, liberando um hormônio e conferindo, finalmente, o verdadeiro sabor apreciado pelos sushi-men.

Claro que não somos peixes de cativeiro, mas sempre se pode tirar alguma lição de uma história envolvendo seres vivos. Moral: estresse demais é prejudicial à saúde, ninguém nega. No entanto, calma em excesso, moleza, preguiça e falta de desafios podem comprometer o sabor de uma vida plena e mais animada.

Quem quiser que fique com o exemplo. Eu já andei imaginando coisas.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com dois livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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