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Direito

22/11/2017 | domtotal.com

Um toque de sobriedade: prudência

Para Umberto "há pessoas cujo capital intelectual é dado pelo nome com que assinam as próprias ideias".

Ética e compaixão podem e merecem ir além dos atos humanos.
Ética e compaixão podem e merecem ir além dos atos humanos. (AFP)

Por Lucas Emanuel Goecking*

Foi através de um debate inusitado, no intrigante livro “Em que creem os que não creem?”, protagonizado ao longo de um ano por Umberto Eco e Carlo Maria Martini, na forma de cartas, na revista italiana Liberal, que me deparei com um dos problemas mais usais da minha própria condição e personalidade, a prepotência.

O pensador Umberto Eco inicia seu diálogo fazendo jus, talvez a um dos atos mais interessantes de sobriedade e deferência, pede ele paciência ao seu interlocutor o cardeal da igreja Romana Carlo Maria Martini, por chama-lo diretamente pelo nome.

Para Umberto “há pessoas cujo capital intelectual é dado pelo nome com que assinam as próprias ideias. E de fato não poderia ser diferente o cardeal, na sua oportunidade, em resposta ao filósofo anuncia sua concordância, repetindo o mesmo ato.

Contudo vai além e apresenta o objetivo do diálogo: “[...] é uma troca que eu espero frutífera, pois é importante focalizar com franqueza as nossas preocupações comuns e ver como esclarecer as diferenças, pondo a nu aquilo que existe de realmente divergente entre nós”.

O diálogo ocorrido entre pessoas completamente distintas, aparentemente divergente em pensamentos e ideias me fez perceber, junto as coisas da vida, o quão importante é a visão do outro sobre a definição de algo maior que o próprio ponto de vista.

Não vou esconder, falhei brutalmente com algumas pessoas recentemente, amigos, estranhos, possíveis amores, família e com meu trabalho. Fui egoísta e me afastei de escolhas sóbrias (prudentes) para com um planeta habitado, muito maior que o meu próprio narciso.

Me deparei com o espelho, que cada um de nós carrega e me vi sorrindo sem desejar. Quando me dei conta, já era tarde, de fato o tempo não espera, seja para qualquer situação ou coisa da vida. O tempo é iconoclasta e não cobra, simplesmente entrega o que é por nós praticado.

Pode parecer bobagem ou exagero dentro deste contexto aqui narrado, mas os meus atos estão perfeitos, feriram gravemente algumas pessoas. Fui desleixado enquanto indivíduo dotado de deveres, me deixei levar ... Até que me dei conta da complexidade e repercussão das escolhas.

Diferente das cartas trocadas entre os autores acima citados, cometi mais indignidades aos humanos do que o respeito a suas garantias.

Invalidei as palavras equilibradas de Carlo Maria Martini sobre dignidade “O que funda a dignidade humana senão o fato de que cada ser humano é uma pessoa aberta a algo de mais alto e maior que ela própria?”. E hoje um pouco mais consciente tento viver promovendo um acabamento melhor ao outro.

A travessia de projeto eminentemente egoísta para um coletivo, sustentável, prudente e sóbrio perpassa para além dos desejos uma integração dos ambientes humanos ao ambiente natural que compartilhamos sem muito nos importar.

O percurso de fato é complexo e doloroso, mas ética e compaixão podem e merecem ir além dos atos humanos.

* Lucas Emanuel Goecking Liesner de Souza é advogado, Pós-graduado em Direito Público pela PUC-Minas, Pesquisador no grupo MAPE vinculado a Pró Reitoria de Pesquisa da ESDHC.

EMGE

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