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Religião

21/11/2017 | domtotal.com

Igreja preguiçosa?

É honesto, desde a lógica da fé, perguntar-nos se temos sido responsáveis e coerentes na missão confiada a nós por Jesus em sua Páscoa-Pentecostes.

Mais que herdeiros da missão de Jesus, somos os primeiros responsáveis por levar a termo o que compreende o projeto de Deus para o mundo e a humanidade.
Mais que herdeiros da missão de Jesus, somos os primeiros responsáveis por levar a termo o que compreende o projeto de Deus para o mundo e a humanidade. (Reprodução/ Pixabay)

Por Tânia da Silva Mayer*

O Evangelho ouvido semanalmente deveria provocar nossa consciência de seguidores e seguidoras de Jesus. As narrativas bíblicas não sugerem apenas a perpetuação da história da salvação ao longo das épocas, mas pretendem possibilitar o encontro dos que creem com o Deus de Jesus. Nesse sentido, é sábia a prática de, ao menos dominicalmente, ouvir, ler e meditar os textos bíblicos, recebidos na fé como Palavra que nos cura e nos salva. Ademais, num primeiro momento, essa palavra nos cura e salva do perigoso esquecimento de nossa missão de discípulas e discípulos de Jesus Cristo.

A respeito disso, impressiona certa vivência comunitária não preocupada com a realização do Reino de Deus no aqui e agora das existências e estacionada numa linguagem obsoleta e numa moral ultrapassada que nada contribuem para com um mundo novo possível. Conforme nosso tempo avança, requerendo de nós novas posturas para novas questões humanas e ecológicas, torna-se urgente uma autocrítica nossa que afirmamos a fé cristã. Nesse sentido, é salutar e honesto desde a lógica da fé, e também desde o reconhecimento de nossas opções fundamentais de vida, perguntar-nos se, enquanto comunidades cristãs e enquanto homens e mulheres que dizemos crer em Jesus, temos sido responsáveis e coerentes na missão confiada a nós por Jesus em sua Páscoa-Pentecostes.

Por isso, aproximando-nos da conclusão de mais um ano litúrgico, a Palavra de Deus exige de nós uma resposta sincera para essa questão. O Evangelho do domingo passado provoca nosso agir pastoral, comunitário e individual. As figuras dos três servos recebedores dos bens de um senhor poderoso é facilmente identificada à Igreja e aos cristãos e cristãs numa leitura alegorizante da parábola. Estamos lendo os capítulos finais do Evangelho de Mateus, e isso não é sem razão. Percorremos o caminho com Jesus, a fim de passarmos de multidões deslumbradas pelos ensinamentos, obras e palavras do Mestre, para a condição de discípulas e discípulos empenhados em anunciar ao mundo a Boa-Notícia do Evangelho. Mais que herdeiros da missão de Jesus, somos os primeiros responsáveis por levar a termo o que compreende o projeto de Deus para o mundo e a humanidade. Nesse sentido, o texto evangélico de Mt 25,14-30, chama-nos a atenção para uma pastoral inerte diante dos apelos e sinais de nosso tempo.

Ao decidir viajar para o estrangeiro, um homem delega seus bens a seus servos. Interessa-nos a confiança com que age ao delegar seus bens, sem assinalar os cuidados que seus empregados deveriam ter para com os bens recebidos. É surpreendente que os dois primeiros empregados ajam diante dos bens recebidos, com a intenção de frutificá-los. Eles não colocam em questão qual seria o desejo do patrão. Encaram sua tarefa de fazer render os bens, sem mesmo terem a perspectiva ou promessa da volta do empregador. O último servo não escolhe o mesmo caminho. Prefere enterrar o bem recebido ao risco de perdê-lo atuando em sua multiplicação. Ao regressar depois de muito tempo, o patrão pede conta a seus empregados, que respondem positivamente, devolvendo o dobro dos bens. Contrariamente, o terceiro empregado argumenta sua inércia diante do talento recebido. Não agiu para frutificá-lo porque teve medo da severidade do patrão, um homem que “ceifa onde não semeia”. Logo se vê que esse discurso revela que o servo conhece, e ao mesmo tempo desconhece radicalmente, seu senhor.

 No fundo, ao declarar sua visão a respeito do senhor, o terceiro servo se revela “mau e preguiçoso”, é um “inútil”, porque não tomou como seus os bens confiados pelo patrão, não acolheu a missão de frutificá-los por comodismo. O medo do patrão – este desprendido ao ceder seus bens – não permitiu que ele contribuísse para com sua própria alegria. Essa situação pode ser semelhante aquela vivida pelas cristãs e pelos cristãos contemporâneos. Por não conhecerem o Mestre de suas vidas, por terem se esquecido da missão por ele confiada na Páscoa, seguem inertes na transmissão do Evangelho e despreocupados com a urgência do Reino no meio do mundo. Temos sido uma Igreja preguiçosa, má e inútil?

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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