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Religião

22/11/2017 | domtotal.com

'O encanto é enganoso, e a beleza passageira': uma sacudida bíblica para nossa era superficial

Somos suscetíveis às atrações das imagens falsas. Mas 'tudo o que brilha não é ouro', como Shakespeare disse.

Modelos na passarela em Paris.
Modelos na passarela em Paris. (Reprodução/ Catholic Herald/ Getty Images)

Por P. Alexander Lucie Smith

Da moda à pornografia, estamos esquecendo que somos corpos com almas.

Na liturgia desse Domingo, 19, os católicos rezávamos na eucaristia com o Poema da Esposa Perfeita do Livro dos Provérbios como primeira leitura na Missa dominical. A versão lida foi ligeiramente editada (Pv 31,10-13.19-20.30-31), mas você pode ler diretamente na escritura a partir do versículo dez.

10Uma mulher forte, quem a encontrará? Ela vale muito mais do que as joias. 11Seu marido confia nela plenamente, e não terá falta de recursos. 12Ela lhe dá só alegria e nenhum desgosto, todos os dias de sua vida. 13Procura lã e linho, e com habilidade trabalham as suas mãos.
19Estende a mão para a roca, e seus dedos seguram o fuso. 20Abre suas mãos ao necessitado e estende suas mãos ao pobre. 30O encanto é enganador e a beleza é passageira; a mulher que teme ao Senhor, essa sim, merece louvor. 31Proclamem o êxito de suas mãos, e na praça louvem-na as suas obras!

O poema é aderido ao final do Livro dos Provérbios, presumivelmente porque algum editor achava que era bom demais para não ser incluído. Ou talvez esteja no final do livro, não como um apêndice, mas como uma conclusão triunfante, a visão da boa esposa sendo a melhor amostra da sabedoria divina que se manifesta na Terra. De qualquer jeito, é uma ótima passagem e que merece mais atenção do que aquela que obtém normalmente.

A única frase que me roubou a atenção (da versão do Lecionário) foi a seguinte: "O encanto é enganoso e a beleza passageira. A mulher que é sábia, essa sim merece louvor". Essas palavras fizeram parte do nosso patrimônio cultural há dois milênios, mas seu significado ainda não se aprofundou o suficiente.

Apesar da verdade dessas palavras, as indústrias de moda e beleza estão entre as maiores da Terra, em segundo lugar, perdendo apenas para a indústria das armas, como vemos atualmente. Nossas expectativas são distorcidas por isto: passamos muito tempo discutindo a aparência das mulheres, por exemplo, ao invés de valorar o que conseguiram ou ouvir o que elas dizem. Os homens, em contrapartida, podem fugir dessas discussões sobre a aparência sem serem percebidos. (Sim, Boris [1], é você, quero dizer).

Mas piora. Porque estamos obcecados com o superficial, perdendo de vista a vida da mente e a vida da alma, e o que realmente importa, coisas como o trabalho árduo, a honestidade e a verdade. Assim como os romanos antigos foram distraídos com o pão e os circos, também estamos com o olhar nas últimas de Kate ou Naomi ou Keira. A obsessão pela superficialidade tem um efeito corrosivo não apenas no caráter, mas na sociedade como um todo, refletindo o colapso dos valores.

Isso é visto com maior clareza na proliferação da pornografia, agora mais amplamente disponível do que nunca, e mais consumida do que nunca. A sociedade está se tornando pornográfica, já que as pessoas confundem as imagens de pornografia com a realidade do mundo. Embora possamos suspender a descrença (e recuperá-la novamente) ao lidar com outras ficções, a ficção da pornografia se torna nossa realidade e muda o comportamento humano de forma desastrosa.

O pornô levanta uma pergunta profunda: por que estamos aqui? Nós somos meramente máquinas feitas para o prazer, ou nós somos corpos com almas, feitos para servir uns aos outros e compartilhar a glória de Deus? Como tal, a pornografia apresenta um profundo desafio à religião em geral e ao catolicismo em particular. Deveria ser profundamente preocupante que tantas pessoas agora vivessem como se a pornografia fosse verdadeira e o Evangelho não fosse.

O autor do poema não podia saber disso quando escreveu essas linhas: "O encanto é enganoso e a beleza passageira. A mulher sábia, essa sim, merece louvor".  Mas o que era verdade sobre a natureza humana então, é verdade agora. Não mudamos muito ao longo dos anos. Somos suscetíveis às atrações das imagens falsas. Mas "tudo o que brilha não é ouro", como Shakespeare disse. A luta contra a pornografia é certamente uma luta que a Igreja precisa assumir com um vigor cada vez maior. Afinal, somos destinados a ser contra culturais, e nesta matéria a nossa cultura, ou o que resta dela, está claramente em jogo.

[1] Trata-se de Boris Johnson um historiador e político inglês, atualmente secretário do Estado britânico envolvido em uma séria de escândalos e gafes.


Catholic Herald - Tradução: Ramón Lara

EMGE

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