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28/11/2017 | domtotal.com

Os fins e os meios

Através de Alan Turing os britânicos conseguiram desenvolver uma maquina que foi capaz de quebrar o código nazista.

Probabilidade x Consequência = Tamanho do Impacto
Probabilidade x Consequência = Tamanho do Impacto (Reprodução)

Por Jose Antonio de Sousa Neto*

Caríssimos leitores, eu gostaria de voltar aqui a uma reflexão sobre “os fins e os meios”.  Há algo de transcendente em muitas das escolhas e decisões humanas cuja profundidade e consequências às vezes nos escapam. Iniciarei percorrendo três eventos da segunda guerra mundial e protagonizados por Sir Winston Churchill.

O primeiro se refere à retirada de Dunquerque que foi magistralmente retratada em filme exibido neste ano de 2017. Momento decisivo na guerra, a evacuação para o Reino Unido de mais de trezentos e setenta mil soldados britânicos e franceses em uma situação desesperadora ante o cerco das tropas nazistas é uma epopéia onde se destacaram o melhor do esforço coletivo humano e da esperança diante do desastre. Mas aqui, quase em segundo plano, há uma escolha dolorosa: a prioridade do resgate foi dada aos soldados que não estavam feridos.

Imagem do filme Dunkirk de Christopher Nolan

O segundo evento, muitas vezes considerado a decisão mais difícil de Churchill (Churchill’s darkest hour), se refere à batalha de Mers-el-Kébir . Com a queda da França o regime de Vichy havia herdado a marinha francesa (Marine Nationale). Era a segunda mais poderosa da Europa após a Royal Navy britânica. Seu comandante, o almirante Darlan, havia empenhado a sua palavra e garantido a Churchill que jamais deixaria esta poderosa força naval cair nas mãos dos alemães. Em 3 de julho de 1940 Churchill ordenou a operação catapulta que bombardeou e colocou fora de ação os navios franceses ao custo de 1297 vidas daqueles que até poucas semanas antes ainda eram os maiores aliados dos britânicos contra a tirania nazista que ameaçava toda a Europa e mesmo o mundo. Cabe aqui uma pequena nota: o líder britânico falava bem o francês e sempre admirou e respeitou muito a França.

Líder francês Charles de Gaule recebido com honras de estado na Abadia de Westminster em Londres alguns anos após a guerra.

O terceiro evento se refere ao esforço britânico em decifrar o código secreto de comunicação das forças nazistas. O mecanismo conhecido como Enigma, uma obra prima de engenharia, permitia 3 x 10114  combinações, o que o tornava virtualmente indecifrável na época.

Foto de uma máquina Enigma

Mas através de Alan Turing, que é hoje reconhecido como o pai da computação moderna, os britânicos conseguiram desenvolver, em um absolutamente magistral trabalho de matemática e engenharia, uma maquina que foi capaz de quebrar o código nazista. A partir deste ponto coube a liderança britânica mais uma sequência de dolorosas decisões. Sabendo onde, quando e como seriam muitas das ações de guerra das forças alemãs, os aliados tinham de escolher sobre quais intervir. E tinham de fazê-lo de tal forma que estatisticamente os alemães acreditassem que as intervenções aliadas eram devidas ao processo normal de guerra e não porque conheciam a priori as ações de guerra alemãs. Se “acertassem” sempre ou mesmo apenas acima da média os alemães desconfiariam e mudariam o código secreto. Assim em ocasiões se soube, por exemplo, onde um comboio de navios seria atacado, mas ao custo de centenas e às vezes milhares de vidas, ações mitigadoras mais contundentes não foram tomadas.

Foto de uma reprodução do computador desenvolvido por Alan Turing

Nos três episódios a lógica matemática e estatística das decisões é cristalina e em princípio até mesmo contundente. E ela fundamenta hoje assim como há setenta anos as decisões de líderes nos mais variados contextos. E a lógica se baseia no “impacto das consequências no cenário alternativo”. A equação é simples: Probabilidade de um evento multiplicado pela potencial consequência é igual ao impacto / resultado que embasará a decisão.

Probabilidade x Consequência = Tamanho do Impacto

Assim, nos três casos, mesmo que a probabilidade de uma decisão alternativa em cada um dos três eventos fosse pequena (e tudo indica que elas não eram) a consequência poderia ser um comprometimento profundo do esforço de guerra britânico e como resultado um atraso em se alcançar a vitória e um custo não de centenas ou mesmo alguns milhares de vidas, mas de centenas de milhares ou mesmo milhões. De fato existem estudos criteriosos que procuram demonstrar que as ações (ou não ações) dos aliados com relação à quebra do código Enigma anteciparam o fim da guerra em aproximadamente dois anos e pouparam milhões de vidas e imensos recursos materiais.

Mas será que é isso mesmo? Será que ao final das contas a racionalidade crua e contundente dos números e probabilidades é suficiente? Será que realmente a regra de que o interesse de muitos se sobrepondo ao interesse de poucos nestas situações de vida e morte e em tantas outras deve prevalecer? Obviamente a resposta não é simples e nem direta até porque as situações da vida são infinitas em números e complexidades. Um exemplo, apenas para aproveitar o contexto de guerras é o princípio do exército americano de nunca deixar um companheiro de batalha para trás, o que muitas vezes pode significar o sacrifício de muitos em função de alguns poucos ou mesmo de apenas um. Talvez os leitores e leitoras se sintam aliviados de nunca terem sido expostos a tomadas de decisões tão dolorosas. Talvez eventos desta natureza ou com princípios de fundo semelhantes pareçam distantes no tempo ou até mesmo quase inverossímeis no contexto de nossas decisões cotidianas e mesmo corriqueiras. Mas será que são mesmo? Será, por exemplo, que a aplicação da equação acima pelo empresário ou líder organizacional na decisão de despedir seus colaboradores em momentos de crise econômica é tão diferente assim em sua essência do que estamos refletindo neste texto? Será que nesse mesmo momento de crise a decisão no contexto do orçamento doméstico / familiar de, pelo menos provisoriamente, não reservar mais recursos para alguma contribuição filantrópica em função de uma prudência maior diante de um futuro incerto tem, pelo menos em parte de seu âmago, alguma relação com que estamos refletindo?

Ao final tudo tem a ver com nossa visão de mundo e nossa visão da vida na acepção mais profunda e ampla de seu significado. Tem a ver com valores. E valores são determinantes no entendimento do que é tolerável e do que é intolerável para cada um de nós individualmente e como um todo. Seja como for, a lógica da equação apresentada mais acima, por mais “racional” que seja ou aparente ser, para a maioria de nós sempre carregará em seu bojo a certeza de sua incompletude. E este algo mais só pode mesmo se materializar com a transcendência na abertura de nossos corações nas nossas diárias decisões de “vida ou morte”.

*José Antônio de Sousa Neto: Professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). PhD em Accounting and Finance pela University of Birmingham no Reino Unido

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