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06/12/2017 | domtotal.com

Cacos da memória

Seu pensamento voltou no tempo e se viu chorando assustada sob a cristaleira

A queda da cristaleira ficou gravada na memória de Ana.
A queda da cristaleira ficou gravada na memória de Ana. (Reprodução)

Por Pablo Pires Fernandes*

Foi estrondoso e trágico, mas era impossível culpar Ana por aquele ato. Movida pela inquietude própria da idade e de seu caráter, a menina de 7 anos queria alcançar o cachorro de porcelana no alto da cristaleira. Mera curiosidade, desejava ver os olhos do animal e tocá-lo com as mãos. Arrastou uma cadeira pesada da mesa de jantar e começou a escalar a cristaleira em direção ao objeto que lhe fascinava.

Ana não se machucou e, incrivelmente, nem se cortou com a queda do móvel sobre seu pequeno corpo. O barulho ecoou por toda a casa e provocou um corre-corre cheio de preocupação. Alzira foi a primeira a chegar e a acudir Ana, tirando-a do amontoado de cacos e do móvel que a cobria. Assustada e chorosa, a neta tinha os olhos arregalados e soluçava compulsivamente enquanto a mãe e a tia a examinavam em busca de algum ferimento inexistente.

Outro estrondo se sucedeu, sem faz, todavia, ruído algum. Dona Graziela, a matriarca, não foi capaz de pronunciar palavra quando se deparou com a cena. Apoiou-se na mesa e fez um sinal a Alzira – compreendido somente pela dedicada empregada –, que chegou com um copo d’água enquanto a senhora se sentava.

Naquele momento, o que havia se partido não eram apenas taças, potes e vasos, nem tampouco a preciosa coleção de xícaras. O que se espatifou por causa do ímpeto curioso de sua neta foi uma parte da memória de Graziela. Ela talvez nunca tenha se dado conta desse aspecto daquele incidente. Lamentava apenas a perda dos objetos queridos e acumulados ao longo da vida.

No entanto, cada uma das 39 xícaras da coleção carregava sua história particular. As cores e as formas das chávenas – com alças de grande diversidade – estavam ligadas a histórias distintas e muito específicas. Recordações de pessoas, viagens e outras épocas que preenchiam a memória de Graziela se quebraram naquela tarde com a queda da cristaleira e, pode-se dizer, um bocado do passado daquela família se transformou em cacos. Filha mais velha, solteira e dedicada a cuidar da mãe, Glória recolhei os cacos e os guardou secretamente em um baú no porão. 

Desde então, ninguém da família se pronunciava sobre o ocorrido O assunto era tabu. Com os anos, Graziela foi perdendo a memória e a consciência. Porém, tinha lampejos de lucidez e, em alguns momentos, referia-se a uma ou outra xícara, discorrendo sobre a procedência e fatos relacionados ao objeto.

A queda da cristaleira ficou gravada na memória de Ana e, sempre que se recordava daquela tarde de 1979, sentia-se culpada e impotente. E agora, 22 anos depois da morte da avó, se encontrava diante do baú cheio de fragmentos de porcelana da China, Portugal ou Inglaterra. Glória deixou a sobrinha sozinha no porão e Ana chorou.

Seu pensamento voltou no tempo e se viu chorando assustada sob a cristaleira. Lembrou-se da avó que, até o fim da vida, quando já estava afetada pela demência e a memória emergia em fragmentos, se referia às xícaras. Ana, porém, não conseguiu recordar as histórias daqueles objetos. Nos dias seguintes àquele reencontro com os cacos, dedicou-se a colar cada peça. Feliz, mostrou à filha a coleção remendada e, para cada xícara, inventou uma nova história.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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