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Religião

07/12/2017 | domtotal.com

Você pode perder o emprego para um robô! Tempos modernos?

Modernização para o brasileiro significa enterrar a carteira de trabalho e substituir a Justiça do Trabalho pelas leis do mercado.

O trabalho não pode ser considerado uma mercadoria ou um mero instrumento na cadeia produtiva de bens e serviços.
O trabalho não pode ser considerado uma mercadoria ou um mero instrumento na cadeia produtiva de bens e serviços. (Alan Whithe/ Fotos Publicas)

Por Élio Gasda*

“Da Populorum Progressio à Laudato si. O trabalho e o movimento trabalhista no centro do desenvolvimento integral, sustentável e solidário”, foi tema da Conferência Internacional ocorrida no Vaticano (22 a 24/11). Com a presença do Papa Francisco, o evento reuniu sindicalistas, sociólogos e movimentos de trabalhadores cristãos de mais de 40 países.

A Revolução 4.0 (Quarta Revolução Industrial) impressiona, fascina e assombra. Para o cardeal Peter Turkson, organizador do evento, “o fato que a tecnologia subtraia trabalho ao ser humano é um desafio para o mundo moderno. O risco é que homens e mulheres façam um trabalho escravizado”. Segundo o relatório Impacto das novas tecnologias, da McKinsey Global Institute, nos próximos 15 anos, entre 400 e 800 milhões de pessoas serão afetadas pela automatização. Trabalhadores de países avançados, como Alemanha, Japão e Estados Unidos, terão de aprender novas habilidades para manter-se no mercado de trabalho. Metade dos empregos existentes nos Estados Unidos serão automatizados até 2033.

Equipamentos cada vez mais sofisticados realizam trabalhos que antes exigiam o cérebro humano e a força física. Impressoras 3D, carros sem motorista, bancos sem bancários, transporte urbano sem trocadores. Datilógrafos e escriturários já foram extintos. Os próximos podem ser trabalhadores do marketing, da informática, da medicina, da comunicação, vigilantes, garçons, babás, desenhistas e costureiros, corretores de imóveis, atendente em agências de correio e de turismo, frentistas e até professores!

Estudantes estão se preparando para exercer profissões com prazo de utilidade vencido. Robôs estão concorrendo com seres humanos, invadindo as linhas de produção, modificando a organização do trabalho. Comprar um robô custa tanto quanto pagar o salário de um operário brasileiro. A crise global força as empresas a buscar novas maneiras de reduzir seus custos e melhorar suas margens de lucro. Você corre risco de perder o emprego para um robô! As máquinas ameaçam profissões que requerem habilidades mais complexas, nenhuma está imune à automação. AI (inteligência artificial) saindo das telas. Como realocar trabalhadores substituídos por máquinas e robôs? Em sociedades com altas taxas de desemprego, os substituídos levam anos para encontrar outro trabalho. Os menos qualificados serão os mais afetados, como operadores de máquinas e funcionários de redes de fast food. Quais as consequências sociais de um aumento significativo do trabalho automatizado em países assolados pelo desemprego?

A situação do trabalhador brasileiro foi apresentada nesta Conferência por Carmen Foro. Enquanto se discutia a Quarta Revolução Industrial, a brasileira descreveu um país que está voltando à Primeira Revolução, aquela do capitalismo selvagem do século XIX. Em curto espaço de tempo, o Brasil tornou-se a antítese da modernização na esfera trabalhista: “A realidade dos trabalhadores é grave, de retrocesso absoluto de tudo o que conquistamos. No Brasil, hoje há a aceitação do trabalho escravo pelo governo. Há destruição do Estado, das leis do trabalho, há tentativa de reformas que retiram um conjunto de direitos e o mais grave para nós, é que a população pobre: negros, jovens, mulheres, estão sendo os mais afetados”.

Modernização para o brasileiro significa enterrar a carteira de trabalho. É moderno substituir a Justiça do Trabalho pelas leis do mercado. Moderno é violar a Constituição e deixar o trabalhador a mercê do poderoso complexo industrial-financeiro-midiático que tomou de assalto o país. Modernidade é aumentar a exploração, retirar direitos e reduzir salários. Sujeito à vontade do patrão, o trabalhador volta à condição de escravo. A reforma trabalhista é a antítese dos direitos humanos. Modernização?

O trabalho está no centro da problemática social. Papa Francisco, em carta dirigida aos participantes da Conferência, afirmou: “O trabalho não pode ser considerado uma mercadoria ou um mero instrumento na cadeia produtiva de bens e serviços. Por ser primordial para o desenvolvimento, tem preferência em relação a qualquer outro fator de produção, incluindo o capital. Qualquer tarefa deve estar a serviço da pessoa e não a pessoa a serviço desta. Devemos questionar as estruturas que prejudicam ou exploram pessoas, famílias, sociedades ou a nossa mãe Terra. Não queremos um sistema de desenvolvimento econômico que fomente gente desempregada, nem sem teto, nem sem-terra. No contexto atual, conhecido como a Quarta Revolução Industrial, caracterizado por esta “rapidación” e a refinada tecnologia digital, a robótica e a inteligência artificial, o mundo necessita de vozes como a de vocês trabalhadores”.

“A pessoa floresce no trabalho” então, “trabalhadores do mundo uni-vos”!

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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