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Meio Ambiente

14/12/2017 | domtotal.com

Precaução acerca do discurso de sustentabilidade desprovido de dignidade da pessoa humana

Cada vez mais, as pessoas vêm adotando para si a ideia de proteção ao meio ambiente e isso é construtivo.

Tem se notado cada vez mais presente o discurso de sustentabilidade nos espaços de discussão que promovem o conhecimento, porém nota-se que, por diversas vezes, ele vai de encontro aos ideais ambientais.
Tem se notado cada vez mais presente o discurso de sustentabilidade nos espaços de discussão que promovem o conhecimento, porém nota-se que, por diversas vezes, ele vai de encontro aos ideais ambientais. (Divulgação)

Por Sibeli Cotta*

A população brasileira tem se preocupado cada vez mais com as questões ambientais. De fato, é relevante a busca pela mudança comportamental, haja vista a sociedade estar diretamente ligada ao processo de desenvolvimento econômico, social e ambiental. A questão a ser observada é se a informação, que visa orientar o indivíduo enquanto cidadão, chega a este de forma coerente e efetiva. Surge, portanto, o seguinte questionamento: será que as pessoas na busca por viver melhor e adequadamente sabem a diferença entre viver bem e viver melhor? Nota-se que o discurso de sustentabilidade está em evidência, porém, tem se mostrado incompatível, de modo a não se enquadrar no seu real sentido de preservação ambiental.

Cada vez mais, as pessoas vêm adotando para si a ideia de proteção ao meio ambiente e isso é construtivo, pois demonstra que, de fato, o cidadão descobriu que possui mais um direito fundamental, além da saúde, da educação, da moradia, dentre outros. A questão é: será que o discurso de sustentabilidade vai realmente ao encontro da proteção do meio ambiente a fim de assegurar um outro direito fundamental que é a dignidade da pessoa humana?

Tem se notado cada vez mais presente o discurso de sustentabilidade nos espaços de discussão que promovem o conhecimento, porém nota-se que, por diversas vezes, ele vai de encontro aos ideais ambientais. Tão logo, tal discurso tem fomentado cada vez mais o consumismo e não de fato sua redução. É preciso buscar distinguir o sentido por trás de cada discurso, pois de nada adianta divulgar a sustentabilidade quando, na verdade, o que está implícito é um discurso de consumismo, que tem contribuído cada vez menos para a dignidade do cidadão.

O que se percebe por meio do discurso da sustentabilidade é que o ser humano tem se tornado gradualmente o meio essencial para o império do capitalismo. É fato que todos queremos viver com conforto e comodidade, porém o preço a ser pago é a tão sonhada dignidade.  Direito fundamental este que precisa ser descoberto pela própria sociedade e ter reconhecida a sua prioridade em prol da preservação do ecossistema.

A dignidade da pessoa humana não reside apenas nas garantias constitucionais que chegam ao cidadão por meio de políticas públicas. A dignidade está também no respeito à veracidade da informação e à clareza das ideias que prometem qualidade de vida para a humanidade. É tempo de informação, é tempo da construção do conhecimento e ,para tanto, é preciso o exercício da ética por todos aqueles detentores da capacidade de formação de opinião.

Não há que se falar em abrir mão da tecnologia ou da qualidade de vida, pois o que se pretende é buscar evoluir concomitantemente a fim de apurar o que de fato há para se proteger, isto é, a dignidade da pessoa humana. Se essa fosse a bandeira, certamente os demais direitos fundamentais estariam assegurados, haja vista o direito à dignidade da pessoa humana ser um dos pilares da Constituição da República Federal promulgada no ano de 1988.

A sociedade carece de orientações acerca da utilização dos elementos inerentes à subsistência, desde sua aquisição até o seu desfazimento. Incentivar a sustentabilidade a partir dos recursos naturais nada mais é que um discurso contraditório. É preciso escolher o quanto antes entre o crescimento econômico ou o crescimento dos recursos naturais. Há pesquisas que apontam que o consumo individual está cada vez mais insustentável, em outras palavras, o consumo coletivo é insustentável em escala aritmética.

É preciso pensar antes de adquirir o supérfluo a preço muito acessível, ou até mesmo se vale a pena se sacrificar por algo que, às vezes, se apresenta de modo supostamente mais valioso que a dignidade humana. O que tem ocorrido é a banalização desse princípio ao associar a dignidade humana a itens supérfluos, isto é, bens materiais de luxo. Luxo esse com prazo de validade, pois tem se percebido que tais objetos não trazem consigo a durabilidade que estaria em consonância com a sustentabilidade.

Hoje, se nos deparamos com um objeto de vida útil de no máximo 5 anos e comparamos a sua qualidade com aquela dos objetos de 25 anos atrás, será notória a ausência de sustentabilidade, bem como a inobservância da dignidade da pessoa humana, haja vista ser o indivíduo o destinatário de tais bens. Para tanto, a sociedade, que é objeto do consumismo, precisa estar atenta à distorção do significado de consumo e sustentabilidade e buscar o real sentido pautado na dignidade humana.

A humanidade tem que decidir-se o quanto antes pela manutenção do ecossistema a partir da mudança dos próprios hábitos. A prioridade agora é a manutenção do planeta pautada na redução do uso dos recursos naturais, bem como a reposição de tais recursos já prejudicados anteriormente em função da manutenção do próprio ser humano pautado no “Trabalho de Face", isto é, sustentar o consumismo por pura vaidade.

Refletir acerca do real sentido de sustentabilidade é ter que refletir acerca do paradoxo do consumo consciente e do consumismo. No qual o primeiro reside no essencial à vida humana e o segundo no supérfluo inerente ao chamado trabalho de faces, isto é, o fomentar do supérfluo. Tal reflexão visa tão somente o alcance ao principio da dignidade da pessoa humana no seu sentido mais amplo.

*Sibeli Cotta é graduanda em Direito e integrante do Grupo de Pesquisa Pensar a Cidade seus aspectos ambientais, jurídicos e sociais, sob a orientação do Líder, Professor Dr. Émilien Reis, da Dom Helder Escola de Direito.

EMGE

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