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13/12/2017 | domtotal.com

Bianca e os biscoitos da sorte

Ler as frases dos biscoitos da sorte se tornou prática recorrente, quase um vício.

A frase do biscoito lhe perturbou por deixar claro o que tentava esconder de si mesma: a solidão.
A frase do biscoito lhe perturbou por deixar claro o que tentava esconder de si mesma: a solidão. (Reprodução)

Por Pablo Pires*

“Você sempre será sua melhor companhia”, previu o papel do biscoito da sorte para Bianca. Seu hábito de ler as frases começou depois que o Hou-i, um restaurante chinês, foi aberto perto de sua casa. Morava sozinha e, sem interesse algum pela culinária, pedia comida pelo telefone com regularidade. Foi assim que os biscoitos e as frases entraram na vida de Bianca. E, sem alarde, foram ganhando espaço e mexendo na maneira de ela ver o mundo.

A frase lhe causou incômodo, pois o que desejava era a companhia de um outro alguém. Desde que deixou Bocaiúva e chegou a Belo Horizonte, Bianca tinha feito amigos, mas a solidão a acompanhava como um cão fiel. Ela sabia que era boa companhia para si própria, mas tinha dúvidas se era a melhor. Sentia falta de compartilhar o cotidiano, de um interlocutor para poder dizer bom dia ao acordar – que não fosse Seu Raimundo, o zelador do prédio, ou Adalto, o porteiro da repartição. A frase do biscoito lhe perturbou por deixar claro o que tentava esconder de si mesma: a solidão.

Ler as frases dos biscoitos da sorte se tornou prática recorrente, quase um vício. Bianca encontrou sites que lhe garantiam o acesso ao universo dos sábios conselhos chineses, sem a necessidade de pedir a comida chinesa. Metódica, lia apenas uma frase por dia e levava a sério os ditos. A prática era um ritual diário. Para ela, aquilo tinha a dimensão de profecia ou conselho espiritual determinado pelo acaso algorítmico.

No dia em que lia “quem quer colher rosas deve suportar os espinhos”, não contestava os colegas de repartição, mesmo sabendo que tal decisão ou procedimento estavam equivocados. Guardava os espinhos para si, conformada. “A palavra é prata, o silêncio é ouro” era o suficiente para ela, ao longo do dia, pronunciar apenas o indispensável.

Numa quinta-feira chuvosa, deparou-se com “pare de procurar eternamente, a felicidade está bem ao seu lado”. Um tremor estranho percorreu seu corpo. A frase lhe expôs a profundidade da solidão na qual estava imersa. Bianca olhava fixamente para a cortina, mas não via nada. Refletia sobre si própria, só que de maneira inédita. Formou-se na UFMG, prestou concurso público e, aos 31 anos, sua vida era estável, pensou. Apesar das conquistas, constatou ser uma mulher triste.

“Deixe de lado as preocupações e seja feliz” foi a frase do dia seguinte. O conselho chinês lhe permitiu aceitar o convite dos colegas para uma cerveja depois do expediente. Era aniversário de Paula. Mesa grande e as pessoas conversavam efusivamente sobre os mais diversos temas.

A chuva fez todos correrem para dentro do bar e se espremer entre o balcão e as mesas de plástico. Depois do corre-corre, Bianca se viu diante de Lauro, amigo da aniversariante. Meia-hora antes, nunca tinha visto aquela pessoa. A proximidade física – inevitável diante das circunstâncias – a obrigou a notar a beleza dos olhos castanhos dele. Entre comentários banais sobre a insólita situação, percebeu naqueles olhos uma sinceridade singular.

Dormiram juntos, houve entrega de fato no ato. De manhã, como de costume, Bianca leu a frase oracular. Ainda hoje, ela não se lembra bem. Era algo sobre desconfiança em relação aos outros. A recordação que guarda daquele sábado é de ter sido o último dia em que leu uma frase de biscoito da sorte. Bianca e Lauro se casaram e adoram comida chinesa.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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