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Religião

14/12/2017 | domtotal.com

A esperança é a última que morre. A sua ainda está viva?

Pessoas de esperança são pessoas insatisfeitas com o estado atual das coisas.

Tem muita gente esperando num mundo de desesperados.
Tem muita gente esperando num mundo de desesperados. (Reprodução/ Pixabay)

Por Élio Gasda*

O que espero da vida, da família, do país? “O sonho diurno, o sonho desperto imerso na obscuridade do real provoca angústia” (Ernest Bloch). Conhecemos os sonhos diurnos de Francisco de Assis, de Marx, de Zumbi, de Chaplin, de Lennon e de Luther King. Sonhadores angustiados com mundo real. Você também sonha com uma sociedade mais justa?

Não temos o que queremos. E não sabemos sequer como será o amanhã. Apenas desejamos. Esperamos. Após todos os retrocessos de 2017, quais são os sonhos diurnos da população para 2018? Todos os sonhos foram roubados? Dias piores virão? Nosso país está em estado de deterioração institucional deprimente e desolador. “A esperança é a última que morre. Mas desta vez acho que não resiste” (Hip hop Shawlin).

A esperança tem duas mães: a ignorância e a impotência. Somente temos esperanças de coisas que não sabemos se irão acontecer. Esperamos o que ainda não temos, o que desejamos. Se tivéssemos não esperaríamos. Esperamos por acontecimentos que não temos o poder de fazer acontecer. Se pudéssemos, não esperaríamos, mas faríamos. Esperamos porque somos impotentes. Quanto mais esperamos que algo aconteça, mais tememos que não aconteça (Spomville).

Tem muita gente esperando num mundo de desesperados. Tantos pobres à espera de ajuda, tantos sem-teto esperando moradia, tantos injustiçados à espera de justiça, tantos desempregados esperando trabalho, tantas pessoas esperando por respeito, tantos enfermos à espera da cura, tantos idosos esperando uma visita. Uma nação inteira esperando que o país saia da crise, que o presidente caia, que a Reforma da Previdência não aconteça, que o salário não diminua, que o preço do gás não aumente, que o emprego se mantenha. Um povo paralisado esperando bênçãos e vitórias pírricas, hipoteticamente concedidas por Deus. Esperança irresponsável. Falsa alegria. Um triste honesto é mais confiável do que um falso alegre. “O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso” (Ariano Suassuna).

A esperança tem limites. Ela morre e dá lugar à alienação travestida de religião. Se existe algo absurdo de dizer para alguém em situação limite é: “ficará tudo bem”, “deus está no comando”, “Maria passa na frente”, “Deus é fiel”! Cair neste discurso é revelar toda a impotência, ignorância e alienação. Isso não é fé, é fideísmo que despreza a razão e faz de Deus um empregado das vontades humanas. Nada mais distante do menino Jesus celebrado no Natal.

Somos responsáveis pelo tipo de esperança que alimentamos. Aprendamos a esperar o que depende de nós. Esperança com pés no chão, cada possibilidade bem calculada. O cristão não vive iludido por um mundo imaginário idealizado, controlado por forças metafísicas que desconhece. O cristão não espera nada além do que sabe ou do que pode. Ele não deseja mais do que é real. E o real nunca está ausente. É uma esperança ativa, responsável e livre; é dinâmica e crítica.

A esperança é virtude teologal vivida comunitariamente. Impossível vivê-la de maneira individualista. Ela é inseparável da fé e da caridade. A caridade é maior. Não existe esperança cristã sem amor ao próximo, pois só o amor nos aproxima de Deus: “Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor” (1 Jo 4,8). É inútil esperar que Deus venha em meu socorro se eu não amar meu próximo. A esperança enraizada no amor impede viver a fé de forma alienada e infantil. Quem está mais ocupado em amar não fica à espera de milagres de um Deus que não respeita a condição humana.

Quem espera amando não se conforma com a realidade. Indignado, levanta-se contra a injustiça e a denuncia. São João XXIII ensinou que “a esperança cristã imprime um grande impulso ao compromisso em campo social, infundindo confiança na possibilidade de construir um mundo melhor”(Mater et magistra). Esta esperança deve ser manifestada através das estruturas da vida social, por uma renovação contínua e pela luta “contra os dominadores deste mundo tenebroso e contra os espíritos do mal” (Ef 6,12). Essa luta é irrenunciável.

Pessoas de esperança são pessoas insatisfeitas com o estado atual das coisas. Seu coração inquieto não fica acomodado esperando alguma intervenção milagrosa, mas luta por um futuro que acredita. Basta uma pessoa boa para haver esperança. Papa Francisco é um exemplo: “A esperança convida-nos a reconhecer que sempre há uma saída, sempre podemos mudar de rumo, sempre podemos fazer alguma coisa para resolver os problemas” (Laudato si, n. 61).

 De fato, a esperança é a última que morre. Então, “que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança” (Laudato si, n. 244). Precisamos nos tornar menos dependentes da esperança, conhecendo mais, agindo mais e esperando um pouco menos. “É na esperança que fomos salvos” (Rm 8,24). E a alegria da esperança nos faz perguntar: “E agora quem irá nos defender?”

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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