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Religião

15/12/2017 | domtotal.com

Como compreender a obsessão dos evangélicos com Israel?

Alguns evangélicos veem a mudança da embaixada para Jerusalém como parte da promessa de Deus.

Para alguns crentes, o restabelecimento de Israel, a reconstrução do Templo e a aceitação pelos judeus da pessoa de Jesus são parte dos acontecimentos dos últimos dias.
Para alguns crentes, o restabelecimento de Israel, a reconstrução do Templo e a aceitação pelos judeus da pessoa de Jesus são parte dos acontecimentos dos últimos dias. (Reprodução/ Pixabay)

Por Jonathan Merritt

Donald Trump não é o primeiro presidente que prometeu reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e mudar a embaixada americana para lá. Mas ele é o único a levar adiante.

Trump fez seu anúncio na semana passada afirmando: "os antigos desafios requerem novas abordagens". A decisão é amplamente considerada como politicamente motivada para agradar seus partidários evangélicos que levaram a questão em múltiplas reuniões.

Johnnie Moore, o porta-voz em serviço do conselho consultivo de fé do presidente disse à CNN: "Esta decisão foi ampla e politicamente considerada e motivada apenas para satisfazer as demandas dos principais partidários evangélicos do presidente. O presidente Trump, mais uma vez, demonstrou aos seus defensores evangélicos que fará o que ele diz que fará".

Mas a longa obsessão dos evangélicos com Israel tem mais a ver com a profecia religiosa do que com a política.

Quando ouvi pela primeira vez a notícia sobre o anúncio do presidente, senti que estava de volta à faculdade. Em 2000, a minivan de minha família chegou à cidade sonolenta de Lynchburg, Virginia, onde fica a Universidade Evangélica de Liberdade (Liberty University), lugar no qual eu iria estudar. Todos os alunos foram obrigados a fazer aulas de teologia em seus cursos principais e a assistir cultos na capela três vezes por semana, onde ouviam sermões que, muitas vezes, citavam William F. Buckley, autor e comentarista político da nova direita americana, tanto quanto ao apóstolo Paulo.

Em mais de uma ocasião, conferencistas evangélicos proeminentes de toda a América declaravam na capela que o fim do mundo se aproximava. Como evidência, citavam o estabelecimento da nação de Israel em 1948. De acordo com sua interpretação da Bíblia, este era um pré-requisito para o apocalipse.

Para evangélicos como nós, a Bíblia não era a história do envolvimento de Deus no passado ou um direcionamento para a vida justa no presente. Ela também servia como guia para conhecer o plano de Deus para o futuro. Pensávamos que as escrituras sagradas e o livro de Apocalipse, em particular, prediziam o dia em que Jesus retornaria à Terra para destruir o mal e oferecer aos seus seguidores um lugar privilegiado no reino de Deus. Agradecíamos e pedíamos coletivamente para este dia chegar.

A Universidade da Liberdade era um canteiro de uma teologia popular entre evangélicos chamados de "dispensacionalismo", que divide a história em diferentes idades ou dispensações. De acordo com este ensinamento, quando os judeus do primeiro século rejeitaram Jesus, deu-se início a uma nova era, a "era da igreja", na qual os cristãos comportariam "o povo escolhido de Deus". Essa dispensação continuará até que Deus leve os cristãos ao céu, deixando para trás os "não escolhidos", em um tempo de confusão e caos. Isso é conhecido como "o arrebatamento".

Enquanto o dispensacionalismo ensina que Deus está atualmente focado na igreja cristã, os crentes nesta teologia afirmam que, quando chegarem os últimos dias, Deus levará o povo judeu de volta a Israel, onde reconstruirão o templo e, eventualmente, aceitarão Jesus como o Messias legítimo. Isso desencadeará o retorno e o reinado de Jesus.

Embora este sistema teológico possa parecer estranho para alguns, os defensores afirmam que a Bíblia ensina isso. Em Gênesis 17, Deus prometeu fazer de Abraão o pai de uma grande nação, que os dispensacionalistas acreditam ser uma aliança contínua. Eles acreditam que Isaías 11 e 66, bem como Ezequiel 37 preveem o retorno dos judeus a Israel. O profeta Zacarias, segundo eles, profetizou que os judeus iriam ocupar Jerusalém em oposição a muitas nações antes de finalmente aceitarem as reivindicações messiânicas de Jesus. Os dispensacionistas também apontam para Apocalipse 7 como prova de que Deus ainda tem planos específicos para as 12 tribos de Israel nos últimos dias.

O Dispensacionalismo tem uma história de séculos e goza de ampla aceitação entre os cristãos americanos. O professor da Bíblia do século XIX, John Nelson Darby, é considerado o pai do dispensacionalismo. Suas opiniões foram sistematizadas e divulgadas pela Scofield Reference Bible. Esta teologia se espalhou por toda a América nos anos 1800 com a ajuda de evangelistas como Dwight L. Moody, mas foi catapultada para novos níveis de popularidade em meados do final do século 20.

Na década de 1970, The Late Great Planet Earth de Hal Lindsay argumentou que o fim bíblico do mundo estava se aproximando rapidamente e vendeu mais de 30 milhões de cópias. Na década de 1990, a série ficcional Left Behind colocou vários volumes na lista do The New York Times bestsellers e gerou dois filmes populares. Além da Liberty University, instituições como o Moody Bible Institute em Chicago e o Dallas Theological Seminary continuam a formar jovens líderes cristãos em teologia dispensacional.

É difícil para os pesquisadores determinarem exatamente quantos cristãos americanos acreditam no dispensacionalismo. Muitos crentes não conhecem a palavra técnica para o que acreditam. Uma vez que inclui tantos rostos, o enquadramento de questões de pesquisa para produzir resultados definitivos é impossível. Além disso, alguns cristãos que rejeitam o dispensacionalismo como teologia ainda acreditam que Deus deseja estabelecer e abençoar Israel como uma nação durante os últimos dias da Terra.

Uma pesquisa da Lifeway Research de 2015 apontou que 60 por cento dos evangélicos dizem que a nação de Israel foi estabelecida como resultado da profecia bíblica. 70 por cento dizem que "Deus tem um relacionamento especial com a nação moderna de Israel" e 73 por cento acreditam que "os acontecimentos em Israel são parte das profecias do Livro do Apocalipse". Assim, para muitos evangélicos, a decisão de Trump de mudar a embaixada americana para Jerusalém era mais do que uma decisão geopolítica.

Com certeza, nem todos os cristãos evangélicos mantêm essas crenças sobre Israel e os tempos finais. Alguns rejeitam a noção de que as promessas de Deus de 4.000 anos de idade para Abraão se aplicam ao Israel moderno.

Como o estudioso bíblico Gary M. Burge argumenta no Atlântico, nem todos os evangélicos acreditam que promover a importância de Jerusalém "é mais uma construção no cumprimento de profecias que preparam o palco para a Segunda Vinda de Cristo". Burge e outros não estabelecem ligação entre a nação teocrática de Israel na antiguidade e o Estado moderno. Esses evangélicos sentem que a decisão de Trump é desnecessariamente provocativa e mina o tipo de paz que os cristãos devem apoiar.

Além disso, pesquisas recentes indicam que os efeitos do dispensacionalismo e das teologias relacionadas ao fim dos tempos podem estar desaparecendo entre os fiéis mais jovens. De acordo com pesquisa da LifeWay de 2017, os evangélicos americanos com menos de 35 anos são significativamente menos propensos a ter uma visão positiva da nação de Israel do que seus homólogos mais antigos e 66 por cento dos evangélicos abaixo dos 35 acreditam que "os cristãos devem fazer mais para amar e cuidar do Povo palestino".

Por enquanto, os que estão perto do presidente Trump ainda mantêm a crença de que a promoção e a proteção de Israel seria um cumprimento da profecia bíblica sobre o fim dos tempos. Enquanto a decisão da embaixada é entendida pelos republicanos de Washington como uma prova de que Trump cumpre suas promessas, os evangélicos veem isso como cumprindo da promessa de Deus.


America - Tradução: Ramón Lara

EMGE

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